A portrait of the artist as a young man

Ary Barroso in Poços de Caldas.

Daniella Thompson

7 November 2003


Ary Barroso (2) the jazz band pianist in Poços de Caldas, MG (photo: Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas)

Ary Barroso was born 100 years ago today. In Brazil, they’re commemorating the event with concerts and tribute discs. The year 2003 has been declared O Ano de Ary Barroso.

What better time to look in on the composer when he was taking the earliest paces in his career?

At the end of 1925, the 22-year old Ary—then a law student—fell in love with 13-year old Yvonne Arantes, whose mother ran a pension on Rua Silva Manoel in Rio de Janeiro. This pension was our protagonist’s address for a while.

Having already frittered away his considerable inheritance, Ary was eking out a living as a pianist in dance orchestras, a profession that didn’t meet with the girlfriend’s parents’ approval. In 1956, three decades after the fact, Ary would look back on his early activities in an article published in O Jornal:

Meus primeiros dois anos de estudante correram mais ou menos tranqüilos. Até que terminou a “grana”. Começou, aí, verdadeiramente, a minha luta. Fiz-me pianista profissional. Estreei tocando em cinema, na sala de projeção do cinema Íris. Depois fiz parte da orquestra do Sebastião, tocando na sala de espera do antigo teatro Carlos Gomes. Daí passei-me para a orquestra de J. Tomás, na sala de espera do Rialto. Comecei, então, a ser conhecido como pianista de jazz. Do Rialto, transferimo-nos para o cinema Central, do grande empresário Pinkfild, que nos dava fita e palco. Foi quando meu ordenado cresceu: 28 mil-réis por dia. Fazíamos bailes, ganhando eu 10 milréis por hora!

Depois, galguei o cimo de minha carreira, integrando a famosa Jazz Band Sul-Americana, de Romeu Silva. Era a orquestra da alta-roda. Tocávamos nos principais clubes da cidade: Country Club, Fluminense, América, Botafogo, Jóquei Clube, Tijuca, Guanabara e outros. Quando Romeu levou sua orquestra para a Europa, desliguei-me do conjunto. Fui tocar em Poços de Caldas, no Bar do Ponto, do Nico.

My first two years as a student were more or less tranquil. Until my money ran out. That’s when my struggle really began. I turned myself into a professional pianist. I began by playing at a movie theater, in the screening hall of Cinema Íris. Then I joined Sebastião’s orchestra, playing in the lobby of the old Teatro Carlos Gomes. From there I moved on to the orchestra of J. Thomáz, in the lobby of the Rialto. That’s how I became known as a jazz pianist. From the Rialto we moved to Cinema Central, which was owned by the great impresario Pinkfield, who put us on the stage. That was when my salary grew: 28 mil-réis per day. We played dances for 10 mil-réis an hour!

Later I climbed to the apex of my career, joining the famous Jazz Band Sul-Americana of Romeu Silva. It was the high-society orchestra. We played in the principal clubs of the city [Rio de Janeiro]: Country Club, Fluminense, América, Botafogo, Jóquei Clube, Tijuca, Guanabara, and others. When Romeu took his orchestra to Europe, I left the band and went to play in Poços de Caldas [Minas Gerais], at Nico’s Bar do Ponto.

It was in January 1926 that the Romeu Silva band left for Europe. With his finances at low ebb, Ary was forced to take a year off from law school and withdrew from Rio de Janeiro to his hometown of Ubá, in Minas Gerais.

In August 1926, Ary secured a gig as jazz band pianist at the nightclub Ao Ponto in the spa town Poços de Caldas, MG. His contract was to have ended in November, but on his 23rd birthday he was still there, away from Rio and his loved one. Later that month he got a week off and went to the capital, where he and Yvonne became formally engaged. Then it was back to Minas until mid-May 1927.



Ary Barroso and Nico Duarte, owner of Ao Ponto

The prolonged absence didn’t sit well with the young fiancée, who complained regularly and at one point ceased writing altogether. Ary was plunged into a black depression, which might have inspired this song:

Por Tua Causa

Por tua causa, meu bem
Vou me acabar
Por teu amor, ó morena
Vou me matar

Eu já lhe disse
Pois então você não vê
Que eu padeço neste mundo
Só por muito lhe querer

Minha morena
Isto é muita ingratidão
Pois não sente o sofrimento
De meu pobre coração

Por tua causa
Vou-me embora pro Pará
Eu lhe juro, ó ingrata
Nunca mais hei de voltar

The song, which remains unpublished, was dedicated “aos amigos Lafaiete Silva e João Tomás.” Lafaiete Silva was the band’s saxofonist (second from the right in the large photo) and a friend in need. It was he who undertook to write Yvonne unbeknownst to Ary, with the happy result of a resumed correspondence between the lovers.

How the story ended is told here.

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22 December 2003

While he was in Poços de Caldas, Ary published the following peculiar item in the newspaper Vida Social. It is reproduced here verbatim—period spelling, typos and all.

um heróe
Especialmente para a “Vida Social”

Pela estrada da Vida caminhava eu, olhos prezos a uma luz soberba rebrilhando no fundo do horizonte. Havia já transposto serranias abruptas, vadeado correntes impetuosas, lutado contra o tempo, contra o mundo.

Os passos, eu ainda os levava firmes.

Aos meus ouvidos já haviam chegado notas crystalinas de estrepitosas gargalhadas, bem como os suspiros tristes e os ais magoados dos infelizes e derrotados.

Aos meus olhos desenrolaram-se já todas as encenações possiveis do theatro da Existencia: o mal contra o bem, o ódio contra o amor, a inveja contra o valôr... a morte...

Feriram já as minhas narinas os perfumes mais embriagadôres, mais lubricos, mais indiscretos, bem como o fodor de carne rasgada ao punhal ou varada a bala...

Os dias quasi sempre surgiam-me claros de sol, as noites... estas vinham umas vezes banhadas de luar, enfeitadas de estrellas piscando no campo immenso do Infinito, outras vezes, escuras, mysteriosas, ameaçadoras, sem um astro ao menos accêso nas grimpas de um ceo negro e triste.

Amedrontava-me nesta altura porque sou humano, porem, reanimava-me logo depois, sacudindo o corpo e reavivando o espirito... Havia que caminhar... caminhar sempre... retroceder nunca !

A um mendigo que topasse, sempre abria a minha bolsa ; a um infeliz, o meu coração. Sempre admirei a justiça, sempre detestei o orgulho, irmão da ignorancia.

Olhando para trás, eu notava que meus pés deixavam sulcos profundos na areia da estrada.

Olhando para traz, eu via muita gente a sorrir-me, acenando-me com os lenços brancos... Essa gente boa admirava ao certo a minha coragem. Eu era para essa gente um heróe... Eu agradecia sorrindo...

Olhando para traz, eu via também muita gente a sorrir-me, acenando-me com os punhos cerrados, brandindo no ar os punhos ameaçadoramente cerrados... Essa gente bôa admirava ao certo a minha coragem. Eu era para essa gente... um heróe e um forte...

Agradecia sempre com um sorriso...

E voltava os meus olhos para a luz soberba que me tentava, brilhando no fundo do horizonte... pela estrada da Vida caminhava eu.

Ary Barroso.
Poços, 6/2/927.

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My thanks to the poet Hugo Pontes and to the distinguished journalist Luís Nassif—the latter a Poços de Caldas native, the former a resident of the town. Pontes sent me the article by Ary Barroso; both sent the previously unpublished photo.

Ary Barroso’s reminiscences in O Jornal were quoted by Sérgio Cabral in his biography of the composer, No Tempo de Ari Barroso (Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1993).


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