:: Este depoimento foi publicado na
:: revista Daniella Thompson on Brazil.


 

Guinga, segundo Paulo Aragão

Depoimento publicado em inglês
no meu artigo
Guinga Rising

Daniella Thompson

Novembro de 2001


Foi o baixista Jorge Hélder o primeiro a nos chamar a atenção para o valor da convivência com Guinga, dizendo que pensava muito no significado de ter “proximidade a um cara que só será plenamente reconhecido como um gênio daqui a alguns anos”. Eu não tinha essa consciência nas primeiras vezes que encontrei Guinga, em 1996, durante os ensaios para a gravação do primeiro disco do Maogani, do qual ele acabou participando. Desde então esses encontros são freqüentes, quase semanais—e só agora eu começo a avaliar a importância deles na minha formação musical.

Guinga acompanhou e participou ativamente de todo o processo de criação do nosso segundo disco, Cordas cruzadas, contribuindo desde a seleção do repertório até a elaboração dos arranjos. E nós tivemos a honra de acompanhar toda a criação de seu último disco, Cine Baronesa, ouvindo as músicas à medida em que iam ficando prontas. Na verdade, esse processo prossegue ininterrupto: desde abril (época em que esse disco foi lançado) até agora já fomos apresentados a diversas novas criações. Particularmente, nunca vi alguém associar quantidade e qualidade, ao compor, como faz Guinga: seu repertório de músicas inéditas seria suficiente para encher mão apenas um, mas diversos discos!

Nossos encontros são, além do momento de ouvir suas músicas novas e mostrar nossos novos arranjos, oportunidade para observar uma maneira muito particular de encarar a música. Afinal, conviver com Guinga representa, para mim e para meus colegas do Maogani, mais do que simplesmente conviver com um ídolo, com um violonista estupendo, com um compositor genial. Representa, também, a possibilidade de aprender e interagir com uma pessoa que tem uma das personalidades musicais mais ricas e interessantes que já conheci.

Guinga é um dos maiores conhecedores da música popular brasileira, seja ela de qualquer época. Conhece de trás para frente o repertório de Orlando Silva, canta emocionado serestas gravadas há mais de setenta anos por Augusto Calheiros. Toca informalmente muitas dessas músicas à sua maneira (a harmonização que ele fez para o “Noturno” de Custódio Mesquita é inacreditável!). Conviveu com Cartola e Nelson Cavaquinho e bebeu tanto neles quanto em Tom ou Hermeto. Seria fantástico se algum dia ele tivesse a oportunidade de registrar um disco só com regravações desse repertório arranjado por ele. Porque, ainda que modestamente não admita, Guinga é também um arranjador maravilhoso, que recria de uma maneira absolutamente única sem transgredir ou prejudicar o espírito original das músicas.

Seu contato com a música clássica é também profundo. Telefona só para contar entusiasmadamente a peça de Bartók ou Ravel que escutou de madrugada (tem o hábito de acordar de madrugada para ouvir a Rádio MEC). Ou para comentar sobre a harmonia de um quarteto de cordas de Radamés ou do Sexteto Místico de Villa-Lobos. Também dá aulas para nós sobre outras músicas populares que não nos são tão familiares. “Vocês têm que ouvir mais os arranjadores americanos!”, “já ouviram as orquestrações do Michel Legrand?”, “vocês conhecem Bix Beiderbecke?”—pergunta, aproveitando para relembrar um obscuro disco de Stan Getz que ele ouvira quando tinha onze anos de idade e que veio a reencontrar agora.

Toda essa bagagem musical, somada a generosidade e ao interesse em ouvir coisas novas, faz com que ele tenha contato direto e muito freqüente não apenas conosco mas com muitos (muitos mesmo!) músicos da minha geração. Ele diz, exagerando, que aprende com a gente... Mas, na verdade, somos nós que aproveitamos e somamos às nossas musicalidades as lições informais que valem mais do que qualquer academia e que certamente nos marcarão profundamente em nossas carreiras.

Paulo Aragão é integrante do quarteto de violões Maogani. Guinga o caracterizou como “o maior arranjador de violão do Brasil de todos os tempos”.

 

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