:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.


 Tradução: Alexandre Dias

 

A culpa é do Walt

Como Ernesto Nazareth foi parar
num desenho animado do Pato Donald.

Daniella Thompson

5 de maio, 2004


O Aracuan e Zé Carioca da Disney

Em um comentário sobre meu artigo Centenário de Zé Carioca, o violonista Joe Carter salientou que além de ter estrelado nos filmes da Walt Disney Saludos Amigos (Alô, Amigos de 1942) e The Three Caballeros (Você Já Foi à Bahia?, 1944), o papagaio animado Zé Carioca também apareceu em Melody Time (Tempo de Melodia, 1948).

De fato ele apareceu. O que Joe Carter não mencionou é que Zé Carioca aparece em uma cena intitulada Blame It on the Samba (A Culpa É do Samba), e que a música que acompanha o sketch é nada menos que a célebre polca de Ernesto Nazareth “Apanhei-te, Cavaquinho”, adaptada para a ocasião com uma letra banal em inglês.

Saludos Amigos e The Three Caballeros foram feitos durante a 2ª Guerra Mundial, como parte da Política de Boa Vizinhança do governo americano direcionada à América Latina. Em Salsa Disney: The story behind two south of the border Disney films (Salsa Disney: A história por trás de dois filmes sul-americanos de Disney), o historiador de filmes animados Charles Solomon escreve que vários outros filmes com sabor latino-americano haviam sido propostos na época:

Os artistas da Disney trabalharam na pré-produção de cerca de dez outras idéias sul-americanas: os artistas fizeram esboços de Donald e José visitando uma plantação de cana de açúcar cubana e participando do Carnaval no Rio e brincando do jogo da caixa de fósforos mostrado em South of the Border with Disney (Ao Sul da Borda com Disney, incluído no DVD de Saludos Amigos). Esses projetos foram arquivados no final da guerra. Brazilian Rhapsody (Rapsódia Brasileira) foi completado e usado em Melody Time (1948) como Blame It on the Samba.


As três aves de “Blame It on the Samba”

Blame It on the Samba é um quadro que mistura animação e cenas filmadas, uma façanha técnica já vista em The Three Caballeros, onde Aurora Miranda flerta e dança com Pato Donald e Zé Carioca em um quadro baiano. Neste novo filme, os personagens animados são novamente aves, desta vez um trio: Donald, Zé e o Aracuan. Este último, uma ave bem intencionada porém maluca, também chamada de o Palhaço da Floresta, apareceu pela primeira vez em The Three Caballeros. Ele é baseado no aracuã, uma ave comum no Brasil. Bandos de aracuãs se empoleiram em árvores, criando uma tremenda algazarra na aurora e no crepúsculo, que é provavelmente a origem de sua reputação de travesso. Nos filmes da Disney, o Aracuan geralmente está ocupado enlouquecendo Donald. Sua música, adaptada por Almirante a partir do domínio público e usada em The Three Caballeros, seria ouvida novamente no Disquinho O Festival da Primavera (Aventuras do Aracuã) (1969), de Braguinha.


Ray Gilbert e Carmen Miranda

Disney, que havia visitado o Brasil em 1941, envolveu em sua produção pelo menos outros três aficionados pelo Brasil. Um foi a artista plástica Mary Blair, que viajou para a América do Sul com Disney e iria criar as cores e estilos visuais para os filmes sul-americanos de Disney. Outro foi o letrista do estúdio, Ray Gilbert (1912–1976), que forneceu a letra em inglês para “Baía” (“Na Baixa do Sapateiro”) em The Three Caballeros e um ano antes de Melody Time ganhou um Oscar para o êxito “Zip-a-Dee-Doo-Dah”, do filme Song of the South (Canção do Sul, 1946). Ray ficou amigo de Aloysio de Oliveira durante os anos Hollywoodianos de Carmen Miranda, e através dele iria conhecer Dorival Caymmi e Tom Jobim e escrever versões em inglês para algumas de suas músicas. No início da década de sessenta, Gilbert iria co-fundar com Tom e Aloysio a editora Ipanema Music, para a grande desvantagem financeira de seus confiantes sócios brasileiros.


Na bebida: Ethel Smith com Donald e Zé Carioca

No lado musical, Disney inseriu a organista Hammond de chapéus extravagantes Ethel Smith (1910–1996). Ethel descobriu o choro “Tico-Tico no Fubá” de Zequinha de Abreu enquanto trabalhava no Brasil em 1941–42 (sua temporada de sete meses no Cassino de Copacabana, onde ela substituiu Eddy Duchin e sua orquestra, coincidiu com a visita da turma de Disney ao Rio). Em 1944, ela fez um enorme sucesso internacional com a gravação de “Tico-Tico”, todo o tempo chamando-o de dança de salão Argentina. Ethel já havia tocado “Tico-Tico” no filme Bathing Beauty (1944), e a música também havia aparecido (como um samba) na cena “Aquarela do Brasil” de Saludos Amigos. Portanto, para Melody Time, uma nova música rapidíssima era necessária. O que seria melhor do que o famoso quebra-dedo de Ernesto Nazareth, “Apanhei-te, Cavaquinho”? Ethel conhecia a peça muito bem, tendo gravado-a como um samba (no 78-rpm Brunswick 04048-A) em 1946. A mesma gravação foi lançada no Brasil no selo Odeon 288.200-B.

Disney não seria Disney se ele deixasse a música de Nazareth sozinha. Uma adaptação para o mundo Disneyniano era necessária. Assim nasceu uma música que sustentou o enredo, que por sua vez permitiu que os animadores da Disney fizessem sua mágica. Se a letra é medíocre, e se o motivo alcoólico não é conteúdo ideal para platéias jovens, que seja. Interpretando a música fora da tela estão as Irmãs Dinning, cuja gravação de 1943 do samba “Brazil” de Ary Barroso pode ter sido a razão de terem sido escolhidas para cantar em Melody Time (elas também fizeram o acompanhamento vocal para Dinah Shore em “Lazy Countryside” no filme da Disney Fun and Fancy Free, de 1947). Em Blame It on the Samba as irmãs são acompanhadas por interjeições pipilantes dos personagens animados.

Locutor: Ao intoxicante ritmo do samba, uma talentosa senhorita serve um coquetel musical com um verdadeiro [compasso?] latino-americano. Então se três rapazes que são cada qual como seu igual caírem na influência desse tempo tropical tórrido, não os culpe, ponha a culpa no ritmo do samba.

Blame It on the Samba
(Ernesto Nazareth/Ray Gilbert)

If your spirits have hit a new low
And they long to hit a new high
One little musical cocktail
Will lift them to the sky

Mix a jigger of rhythm
With a strain of a few guitars
And a dash of the samba
And a few melodious bars

And then, and then...

You take a small cabassa (chi-chi-chi-chi-chi)
One pandeiro (cha-cha-cha-cha-cha)
Take the cuíca (boom-boom-boom-boom)
You’ve got the fascinating rhythm of the samba

And if guitars are strumming (chi-chi-chi-chi-chi)
Birds are humming (cha-cha-cha-cha-cha)
Drums are drumming (boom-boom-boom-boom)
Then you can blame it on the rhythm of the samba

For there is something ’bout the beat you cling to
That’s the type of song you sing to
That’s the kind of thing you swing to
When you get to bouncing with the beat in your feet

But when you’re bouncing to the beat you’re reeling
With the carioca feeling
But if you want to hit the ceiling
Here is all you have to do

You take a small cabassa
[...]

 

A Culpa É do Samba
(Ernesto Nazareth/Ray Gilbert)

Se o seu ânimo chegou lá em baixo
E ele quer voltar ao topo
Um pequeno coquetel musical
Irá levantá-lo para o céu

Misture um dose de ritmo
Com um verso de alguns violões
E uma pitada do samba
E alguns compassos melodiosos

Então, então...

Você pega uma pequena cabaça (chi-chi-chi-chi-chi)
Um pandeiro (cha-cha-cha-cha-cha)
Pegue a cuíca (boom-boom-boom-boom)
E você tem o fascinante ritmo do samba

E se os violões estão dedilhando (chi-chi-chi-chi-chi)
Pássaros estão cantarolando (cha-cha-cha-cha-cha)
Tambores estão tamborilando (boom-boom-boom-boom)
Então você pode pôr a culpa no ritmo do samba

Pois tem algo no ritmo em que você se amarra
Esse é o tipo de música que você canta
Esse é o tipo de coisa que você dança
Quando você pula com o ritmo em seus pés

Mas quando você ao ritmo tá pulando,
Com o gingado carioca você tá balançando
E se você quiser bater no teto
É só fazer isso:

Você pega uma pequena cabaça
[...]

E o que acontece na tela enquanto a canção está sendo cantada? Eu me baseio em quadros enviados por Alexandre Dias do site Ernesto Nazareth para ilustrar o enredo.

   

Pato Donaldo e Zé Carioca, literalmente azuis de tristeza, estão se arrastando por um caminho melancólico, pavimentado com o mesmo padrão da calçada de Copacabana. O par é espiado pelo Aracuan, trabalhando como um garçom sozinho no Café do Samba. A fachada do café é uma parede sem apoio, cuja entrada brilhantemente acesa convida. O Aracuan empurra esta parede para abri-la, revelando que ela é a capa de uma partitura.

Tendo sido conduzidos através da porta do café, Donald e Zé estão indiferentes ao convite do Aracuan para se sentar. Ele acaba carregando-os para a mesa e apresenta os cardápios, novamente sem provocar nenhuma reação. Quando os primeiros versos da canção são ouvidos, o garçom rasga os cardápios e recorre ao ritmo. Ele toca uma cabaça, então um pandeiro, depois uma cuíca, à medida que são mencionados na canção. Aos poucos, os fregueses recuperam suas cores naturais e dançam alegremente ao ritmo do samba.

   

O Aracuan agora prepara um coquetel feito dos instrumentos de percussão, que ele fatia e mexe em um shaker. Ele adiciona Donald e Zé Carioca à mistura e despeja tudo em um copo de conhaque que cresce para proporções gigantescas. Removendo seu casaco de garçom, o Aracuan é despido às suas ceroulas listradas. Ele mergulha no copo, onde Ethel Smith aparece, tocando “Apanhei-te, Cavaquinho” em velocidade acelerada, enquanto os personagens animados nadam em sua volta e dançam no órgão até que o Aracuan cubra os olhos de Ethel com suas mãos.

   

Corta para uma cena em uma floresta tropical, onde o Aracuan e Ethel estão tocando tambores africanos, e instrumentos de percussão gigantescos dançam à volta de Donald e Zé. Notas do órgão entram no ritmo, e Ethel aparece dançando dentro de uma bolha soprada pelo Aracuan. Ela se metamorfoseia em três, depois em cinco, e mostra suas pernas. O Aracuan transforma Donald e Zé Carioca em marionetes, que ele balança sobre uma pauta musical. As cabeças das notas se transformam em rodas que rolam em alta velocidade em direção ao final da pauta, onde um buraco desenhado pelo Aracuan os espera.

   

De volta dentro d’água, Ethel toca o órgão enquanto o Aracuan acende um fósforo e coloca uma banana de dinamite debaixo de seus pés em movimento. Espantada com a fumaça, Ethel toca ainda mais rápido. O órgão explode, teclas voam para todos os lados, e Ethel continua tocando nas teclas dispersas, sem errar uma nota, até que o órgão magicamente se recompõe. Agora Donald e Zé Carioca caem no copo novamente, e o Aracuan fecha a cena colocando uma cartola sobre sua cabeça à frente do Café do Samba, onde a história começou.

Pegando a deixa a partir das engenhosas cores de Mary Blair, os animadores da Disney mais do que compensam a letra banal. Se a metáfora alcoólica é desgastada, seu equivalente visual é nada menos que brilhante. No final, nós somos deixados com a clara idéia de que o mundo é um lugar frio e escuro sem o samba, ou como Chico Buarque iria cantar dezesseis anos depois, “Se todo mundo sambasse, seria tão fácil viver.”


Os videos de A Culpa É do Samba estão disponíveis em inglês e português no YouTube.com.



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