:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
As Crônicas Bovinas
Roteiro de The Nothing Doing Bar
de Jean Cocteau
Le Boeuf sur le Toit é um bar iluminado asperamente. Um biombo adornado, de madeira amarela, esconde o bastidor direito. A quina de uma mesa de bilhar projeta-se de trás do divisor do bastidor esquerdo, que é adornado por uma tapeçaria vermelho-granada. Em primeiro plano, à esquerda, uma poltrona de couro; à direita, uma mesa. Mesa e poltrona, visíveis na frente da cortina, anunciam o estilo tosco do cenário como uma espécie de prólogo. Eles assumem suas posições assim que a cortina é erguida. Ventilador no teto. O ventilador gira vagarosamente, e lança sombras nas personagens. Eles usam cabeças de papelão três vezes maiores que o tamanho real. Atuam de acordo com o estilo do cenário. São um cenário ambulante. Eles representam em câmera-lenta, contra a corrente da música, com o peso de um mergulhador, os gestos essenciais de seus papéis.
Os objetos: garrafas, copos, canudos, cigarros, giz, pires, estão na mesma escala das cabeças falsas.
Do friso em primeiro plano, decorado com bandeiras multicoloridas, estão suspensos cinco anéis de fumaça, feitos de tule, que começam na poltrona e se dirigem para o centro. Quando a cortina é erguida, apenas o barman, todo branco, todo rosa. Ele agita coqueteleiras atrás de seu bar. Um charuto grande, como um torpedo, repousa fumegando sobre uma mesa, atrás da poltrona. Entra, à esquerda, o boxeador negro de suéter azul-celeste, vindo do salão de bilhar. Ele pede um coquetel, flexiona seus músculos, cai na poltrona, cruza suas pernas e pega seu charuto. Imediatamente os anéis de fumaça tornam-se dele. Um garoto negro, em mangas de camisa, sair de costas do salão de bilhar. Ele passa giz em um taco. O boxeador pede ao barman que corte seu cigarro que não está conseguindo tragar. O barman atira no cigarro com um revólver. O tiro faz o garoto negro cair de costas. Durante toda a primeira parte ele é entrevisto jogando sinuca nos bastidores, levantando uma perna para jogar, como ilustram as litografias americanas.
Entram, um de cada vez: a mulher com decote, de vestido vermelho, bastante afetada, bastante ordinária. A mulher ruiva, seu cabelo feito de papel, bonita, com um charme masculino, um pouco desleixada, mãos no bolso. O cavalheiro em um traje a rigor de molesquim, que olha para seu relógio de pulso e não deixa o seu banco no bar até ir embora. Um bookmaker vestido de escarlate, com dentes de ouro, que usa um chapéu-coco cinza e uma gravata presa por uma pérola do tamanho de uma bola de croquê.
Esse refinado grupo de pessoas toma os seus lugares, jogam dados. (O jogo entre o cavalheiro e o bookmaker tem que ser uma cena maquinal composta por suas cabeças, a cabeça do barman atrás de um jornal com letras garrafais, e dois dados, na verdade caixas de papelão, que eles mexem girando-os em torno de seus próprios eixos). A mulher esperta empoa-se, nota o garoto negro. Ele sobe em um banco. Ela o pega em seus ombros e o carrega para o salão de bilhar. A mulher ruiva cruza o palco, recolhe os anéis de fumaça com seu braço, coloca-os em volta do pescoço do barman e seduz o boxeador. O boxeador levanta de sua poltrona para segui-la. O bookmaker observa-os, fica irado, bate seus pés, aproxima-se furtivamente, tira sua pérola e a atira na cabeça do negro, que desmaia. O garoto negro larga seu taco de bilhar, ajuda o boxeador, deita-o na poltrona, abana-o com um guardanapo. Pequena dança de triunfo feita pelo bookmaker. Tango das mulheres. Um apito. É a polícia. Todos estremecem. O barman pendura um cartaz: Aqui só se bebe leite, esconde copos, garrafas, distribui tigelas e mistura leite em um latão. A cabeça gigantesca do policial aparece. Ele entra. Olha para cima e para baixo. Aproxima-se de cada um deles e sente seu hálito. Ele prova o leite.
Influenciado pelo espírito bucólico, ele dança um leve balé.
Enquanto ele dá piruetas no meio com a graça de uma bailarina, o barman manipula uma alavanca. O ventilador desce e decapta o policial. Ele cambaleia. Olha para sua cabeça, tenta colocá-la de volta de cabeça para baixo, e cai morto.
Nada surpreende os noctâmbulos. Depois de breves comemorações, quando o garoto negro canta uma romança, a mão no coração, o barman exibe a cabeça em uma bandeja para a mulher ruiva, que está distraída, e estava olhando para o bastidor esquerdo.
Ela dança. Sua dança é uma típica caricatura da dança de Salomé. Ela se espreguiça. Fuma. Sacode a cabeça do policial como se fosse um coquetel. Finalmente, ela anda sobre suas mãos como Salomé na catedral de Rouen, anda em volta da cabeça e, ainda sobre suas mãos, deixa o bar, seguida pelo bookmaker.
Antes de desaparecer depois deles, a mulher de decote vira-se, retira a rosa que o cavalheiro de traje a rigor usa em sua botoeira, e a atira ao barman. O cavalheiro paga, e eles saem.
O boxeador acorda, levanta-se, cambaleia e sai em seguida, acompanhado do garoto negro, que se recusa a pagar o barman.
Deixado sozinho, o barman faz faxina. Ele vê o corpo do policial. Arrasta-o, o melhor que pode, para uma cadeira, atrás da mesa. O cadáver tenta equilibrar-se. Assim que o corpo está firme, o barman trás pilhas de pires que ele coloca sobre a mesa, uma garrafa de gim que ele derrama dentro do corpo. Ele pega a cabeça, encaixa-a entre os ombros. Faz cócegas nela, hipnotiza-a. O policial ressuscita. O Barman desenrola uma conta de três metros.
P.S. O nome Le Boeuf sur le Toit estava em um letreiro no Brasil. Ela me foi presenteada por Claudel.
Sobre tradução de Anthony Barnett e Anne-Marie Albiach
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