:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 13

Um tributo ao astuto.

Daniella Thompson

19 de junho de 2002

  Ernesto Nazareth morava em Ipanema entre 1917 e 1929, primeiro na Rua Doutor Vieira Souto, 158 (atual Avenida Vieira Souto). Em 1918, após a morte da filha, Maria de Lourdes, a família mudou-se para a Rua Visconde de Pirajá, 12 (então chamada Rua Vinte de Novembro). Quando esta foto foi tirada, a rua já havia mudado de nome.

Em uma conferência organizada em 1926 pela Sociedade de Cultura Artística de São Paulo, Mário de Andrade estendeu-se sobre o lugar de Ernesto Nazareth na música brasileira:

Em geral as composições dançantes baseiam a sua vulgarização ao imitarem o coro orquéstico popular. As danças do povo são na sua maioria infinita danças cantadas. De primeiro foi sempre assim, e os instrumentistas-virtuoses da Renascença, quando transplantaram as gigas, as alemandas, as sarabandas, do canto pro instrumento, tiveram que fazer todo um trabalho de adaptação criadora. Esta adaptação consistiu em tirar das danças cantadas a essência cancioneira delas e dar-lhes caráter instrumental. Substituiram o tema estrófico pelo motivo melódico, a frase oral pela célula rítmica. Embora ainda com reservas, pelo estado atual dos meus conhecimentos, antevejo que, talqualmente a milonga e o tango argentino sucessor dela, o maxixe teve origem imediata instrumental. Porém tanto ele como o tango argentino e o foxtrote, pra se popularizarem, viraram logo cancioneiros, se tornaram danças cantadas.

Essa feição cancioneira, a gente percebe mesmo nos mais admiráveis músicos coreográficos, como John Philip Sousa ou Johann Strauss, pela norma estrófica e não celular da invenção. Se sente a melodia cantada, se sente o verso oral. Pois Ernesto Nazaré se afasta dessa feição geral dos compositores coreográficos, por ter uma ausência quasi sitemática de vocalidade nos tangos dele. É o motivo, é a célula melódica ou só rítmica que lhe servem de base pras construções. O Espalhafatoso por exemplo, é construído sobre uma célula rítmica só, ao passo que o Sagaz é inteirinho arquitetado sobre um motivo rítmico-melódico de quatro notas. [...]

Na verdade, Ernesto Nazaré não é representativo do maxixe, que nem Eduardo Souto, Sinhô, Donga e o próprio Marcelo Tupinambá, este uma variante provinciana da dança originariamente carioca. Ernesto Nazaré poderá quando muito ser tomado pelo grande anunciador do maxixe, isto é, da dança urbana genuinamente brasileira, já livre do caráter hispano-africano da habanera. [...]

Aliás raramente, que nem nestes dois tangos [“Tenebroso” e “Talisman”], Ernesto Nazaré abandona a alegria. Não possui aquela tristura permanente, tão do nosso povo, que é da intimidade de Marcelo Tupinambá. É o espevitamento chacoalhado e jovial do carioca que Ernesto Nazaré representa.


Rua Visconde de Pirajá, Ipanema, 1920 (foto: Augusto Malta)

Melodia No. 13: “Escovado” (1905)

‘Escovado’ é uma gíria comum que signifca ‘astuto’. Ary Vasconcelos nos conta em seu livro Panorama da Música Popular Brasileira que Nazareth era um “homem devotado à família que dava geralmente, às músicas que compunha, títulos com que homenageava ora um filho, ora a espôsa, ora um outro parente.” “Travêsso” foi dedicado a seu filho Ernesto, “Marieta” e “Eulina” a suas duas filhas, “Dora” a sua esposa Teodora, “Brejeiro” a seu sobrinho Gilberto, etc.

O tango “Escovado” (veja a partitura) entra na categoria acima. A partitura para piano em minha posse dedica a composição ao seu irmãozinho Fernando Nazareth. Em seu CD-ROM Ernesto Nazareth, Rei do Choro, Luiz Antônio de Almeida oferece a seguinte informação sobre a música:

Tango primeiramente editado pela Casa Vieira Machado & Cia. e dedicado a Fernando, irmão caçula do compositor. Tornou-se um dos grande sucessos de Nazareth, tendo sido o seu tema principal posteriormente aproveitado pelo compositor francês Darius Milhaud em Le Boeuf sur le Toit (1919), bailado de sua autoria. Em setembro de 1930, aceitando convide feito por Eduardo Souto, então diretor artístico da Odeon-Parlophon, Nazareth gravou esta peça em disco, recebendo entusiástica acolhida da imprensa.

“Escovado” (no. 19 à esquerda no topo) na lista de
tangos de Nazareth (manuscrito do próprio autor)

Em Le Boeuf sur le Toit, a parte A de “Escovado” aparece aos 6min 34s na gravação de Louis de Froment. Tendo acabado de citar “Carioca” de Nazareth nos violinos, com “Escovado” tocado em contraponto pela trompa, Milhaud agora cita “Escovado” nos violinos e “Carioca” em contraponto na flauta.

É interessante observar que apesar de pertencerem a modos de tonalidades diferentes (“Escovado” em tom maior, e “Carioca” em tom menor), Milhaud ajusta devidamente cada um dos modos, de acordo com a melodia dominante. Quando “Carioca” é citado, “Escovado” é tocado em tom menor, e quando o inverso acontece, é a melodia de “Carioca” que passa a ser tocada em tom maior.

A base de dados da Fundação Joaquim Nabuco lista cinco gravações em discos 78 rpm, quatro das quais não são datadas e três são tocadas por bandas. A única gravação com data é aquela do próprio compositor feita em 1930. Esta é uma de um total de quatro faixas que ele gravou pela Odeon quatro anos antes de sua morte (as outras três foram “Apanhei-te Cavaquinho”, “Nenê” e “Turuna”). Esses quatro lados representam metade de toda a produção discográfica de Ernesto Nazareth.*

Autor: Ernesto Nazareth
Título: Escovado
Gênero: Tango
Intérprete: Banda do Corpo de Bombeiros
Gravadora: Columbia
Número: B-60

Autor: Ernesto Nazareth
Título: Escovado
Gênero: Tango Brasileiro
Intérprete: Ernesto Nazareth (piano)
Gravadora: Odeon
Número: 10718-B
Matriz: 3939
Data gravação: 10.09.1930
Data lançamento: Dez/1930

“Escovado” já foi adaptado para vários instrumentos e gravado por grandes nomes da música brasileira como Custódio Mesquita e sua Orquestra, Carolina Cardoso de Menezes e Conjunto, Dilermando Reis, Turíbio Santos, Arthur Moreira Lima, Raphael Rabello com e sem Dino Sete Cordas, Eudóxia de Barros, Joel Nascimento, Henrique Cazes e Família Violão, e muitos outros. Egberto Gismonti adaptou o tango para piano e orquestra, e Paulo Porto Alegre fez uma transcrição para quarteto de violões executada pelo Quaternaglia.

Nós ouviremos um trecho da gravação de Turíbio Santos & Conjunto Choros do Brasil, feita em 1979 no album Valsas e Choros. Membros do conjunto incluíam Dino Sete Cordas e Raphael Rabello.

= = =

* Em 1912, dois discos foram gravados pela Casa Edison, com Pedro de Alcântara ao flautim e Nazareth ao piano. As músicas gravadas foram “Odeon” e “Favorito” de Nazareth, “Linguagem do Coração” de Callado e “Choro e Poesia” do Pedro de Alcântara (essa última mais tarde viria a receber letra de Catulo da Paixão Cearense, ganhando fama com o título “Ontem ao Luar”).

 

 

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