The Ary Barroso Discography

Ary Amoroso liner notes
by Hermínio Bello de Carvalho.

Daniella Thompson


Uma explicação

Igual ao nome de Ary Barroso onde os “zés” e “esses” se degladiam e um pernóstico “ipsilone” é sonegado em favor do “i”, também os versos das canções desse ilustre ubanese sofrem os mesmos percalços, não só ortográficos (por conta das partituras mal-acabadamente impressas) mas também melódico-literários—esses por conta dos intérpretes que gravaram suas obras. Garimpar as palavras supostamente corretas ou até entender a procedência de adulterações de frases inteiras (“Que não tenho nada, nada/Que por Deus fui esquecida” por “Que topo qualquer parada/Por um prato de comida”), isso equivale ao esforço de decifrar o próprio sobrenome do compositor. Ora ele se apresenta como Ary Evangelista Barroso, que se transmuda num Ary de Rezende Barroso, que dá lugar às vezes a um Ary Evangelista de Rezende Barroso. Até cabe mencionar o fato que seu sobrenome na certidão de batismo consta com um sonoro “z” mas que ele autgrafava com “s”, fiel apena ao “ipsilone” do qual jamais abdicou. Cotejando as gravações originais com outras mais recentes, defrontamo-nos com supressões (um exclamativo “Pobre Coitado” é reincorporado na letra do samba “Caco Velho” conforme Ary ensinou à Elizeth) e agregações, como é o caso do breque “Isto não é chalaça”, que Aracy de Almeida provavelmente enxertou naquele samba, sem contudo fazer registro fonográfico desa agregação. Em outras situações, diante de um leque de equívocos, o bom senso nos guiou a optar pelo mais óbvio. No samba “Inquietação”, por exemplo, ficou mesmo “No aceso da paixão” ao invés de “No acesso da paixão”. Melodicamente, por falta de partituras corretas, o critério foi o musical. Orlando Silva, Elis Regina, Nara Leão e Gal Costa tomaram rumos os mais diversos na interpretação de algumas melodias de Ary. Preferimos, entretanto, optar por alguém que estrelou o espetáculo “Mr. Samba” em 1957, na Boate Night and Day abordando a obra do mestre, a própria Elizeth Cardoso. Qual o critério, então, para se manter o tal breque do “Camisa Amarela” tal como consta neste disco? Optamos pela tradição oral, que incorporou a saborosa frase ao samba que, igual ao “Fez Bobagem”, de Assis Valente, foi percusor na utilização do eu feminino, que Chico Buarque depois utilizaria à exaustão na sua maravilhosa obra. Fiquemos então nessa pequena obra-prima que é “Camisa Amarela”, a música mais indicada para centrar a discussão sobre a trama dos equivocos, erros, desacertos ou que nome se dê a esses acidentes litero-musicais que fazem aguçar a lupa dos pesquisadores de verdade verdadeira, que muitas vezes se domicilia em locais desconhecidos. Para avaliar esse tipo de garimpagem e rasteiro, basta cotejar cinco gravações daquele samba: a do próprio compositor, uma segunda e terceira gravadas por Aracy de Almeida, uma quarta gravada por Nara Leão e uma quinta registrada por Gal Costa. Sobre Gal, ela resvalou num erro cometido na primeira versão de Aracy, cantando “Café do rapa” ao invés do “zurrapa”, substantivo que no dicionário do Aurélio consta como vino mau, estragado, mas que no jargão popular equivale a fuleiro, malcheiroso, “pé sujo” ou vá lá que seja: zurrapa mesmo! Aracy cantava “Bebendo o quinto copo de cachaça” (Nara Leão bebeu nessa fonte referendado o equivoco), quando Ary escreveu “Tomando o quarto copo de cachaça”, como também adiante fala que voltou às cinco da manhã, e não duas horas depois (“Voltou às sete horas da manhã”), como consta das versões das duas cantoras. Vergamo nos à ponderação do Produtor Executivo deste disco, João Carlos Carino, um boémio que se preze jamais voltaria às cinco horas da manhã de uma quarta-feira de cinzas, e nem seria flagrado apenas no quarto copo de cachaça. Com o devido respeito ao Ary, abdicamos de sua versão em benefico da que foi registrada na época por Aracy de Almeida, por sinal considerada antológica pelo próprio compositor.

Gastariamos laudas e mais laudas tentando explicar aqui como é difícil abordar-se a obra de um autor que, morto há vinte e cinco anos, não teve a parte literária de sua obra devida e acertamente comentada como hoje se faz com Chico Buarque, cujos textos poéticos já são objeto de alguns livros críticos. Isso em nada deprecia a obra do Ary, pelo contrário, observando sua lírica, e de seus parceiros, temos oportunidades de detectar sutilezas poéticas mais encontráveis nos poetas románticos do que nos clássicos, por exemplo. E é esse lado amoroso que pretendemos abordar neste disco interpretado pela Divina Elizeth Cardoso e do bando de músicos-arcanjos que a acompanham neste preito de amor a um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos.

Hermínio Bello de Carvalho

 

Appendices

 


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