:: Este depoimento foi publicado na
:: revista Daniella Thompson on Brazil.


 

Sérgio Santos sobre Áfrico

Pequena entrevista com
o compositor.

Daniella Thompson

18 de setembro 2002


DT—Como surgiu a idéia deste disco? Veio do livro Atabaques, Violas e Bambus, do Paulo Cesar Pinheiro, ou foi independente?

Sérgio Santos—A idéia originalmente não teve nenhuma relação com o livro Atabaques, Violas e Bambus. Eu não tive a intenção inicial de fazer um trabalho com essa característica. Eu não pensei: “Agora vou fazer um disco que fale de nossas influências africanas”. O que fiz no início foi buscar elaborar o elemento rítmico nas minhas composições. Sempre fui muito preocupado com a harmonia e a melodia. Nunca havia me debruçado sobre o ritmo. Comecei por criar arpejos no violão, que foram me conduzindo à criação das composições, ainda sem as letras do PCP. De repente percebi que tinha várias músicas na mão que me soavam com um sabor negro, africano. Me pareceu lógico: se você é brasileiro e vai pesquisar ritmos a fundo, você fatalmente vai chegar à sua origem: a África. Portanto, a África foi meu ponto de chegada e não de partida. Ela me alcançou sem que eu a tivesse buscado, quase que por acaso. A partir daí, foi que resolvi propor ao Paulo Cesar que compuséssemos um trabalho totalmente temático, e ele assimilou de maneira magnífica a idéia. Utilizou uma variedade enorme de palavras de dialetos africanos, como o nagô e o iorubá. E assim o disco tomou forma. O fato é que terminamos contando uma história, o que sempre me agradou e é o caminho que sempre busco para gravar um CD.

DT—Você trabalhou com poemas do PCP, ou ele escreveu nova letra para suas melodias?

SS—Todas as letras foram escritas para esse trabalho. Acho que as letras do PCP são a grande substância temática do Áfrico. Elas norteiam, direcionam todo o conteúdo do disco para um Brasil que está lá no fundo de todos nós. É a nossa história de missigenados, misturados, buscando construir uma identidade cultural. E as letras contam essa longa trajetória, desde o início até os dias de hoje. Não pesquisei nada para fazer as músicas, elas são o resultado da minha vivência de menino interiorano, que ouviu os congados, os catopês, as folias de reis. E como filho de nordestino e de carioca, também os maracatus, os côcos, as cirandas e o samba. Foi como se fechasse os olhos e deixasse essa vivência falar alto. Mas exatamente por isso as letras do Paulinho foram tão preciosas: se minhas músicas me vieram de forma quase inconsciente, as suas letras são o meu contraponto. Por que ele sim foi fundo, pesquisou, foi conscientemente na raiz. E a soma dessas diferenças é que é, pra mim, a alma do trabalho.

DT—Foi difícil realizar seus conceitos no estúdio?

SS—Uma coisa que gostaria de destacar é a importância que tiveram os músicos, o produtor Rodolfo Stroeter e a gravadora Biscoito Fino, que viabilizou todas as nossas idéias. Para mim, a grande dificuldade após ter resolvido gravar o Áfrico, foi saber qual seria o tipo de sonoridade que o disco deveria ter. No Brasil esse tema já foi muito explorado e seria um risco repetir as linguagens já utilizadas. Tinha que fugir de tudo que já houvesse sido feito nesse caminho, para não soar repetitivo. O meu compromisso era com buscar um outro caminho sonoro. Por isso os músicos tiveram que ser escolhidos a dedo. Pensei em construir as percussões e a bateria (Tutty Moreno, Marcos Suzano e Robertinho Silva) como a sustentação para a sonoridade que seria somada. Seriam os meus pés fincados na tradição do Brasil e da África. Sobre ela, pensei em músicos que tivessem uma abordagem musical moderna e que tivessem contatos com outras linguagens ( o pianista André Mehmari, o baixista e produtor Rodolfo Stroeter , o saxofonista Teco Cardoso e o violonista Sílvio D’Amico). Somei a eles o caráter  totalmente inusitado e futurista do grupo mineiro Uakti, que constroi seus próprios instrumentos e possui uma sonoridade absolutamente característica. Foi com essas escolhas que procurei garantir a originalidade sonora do trabalho. E também foram deliciosas as participações de Lenine, Joyce e Olívia Hime.

Uma vez definido o time, precisava definir como ele iria jogar. As músicas não têm um ritmo definido. Não seria simples gravá-las. Não poderia entrar no estúdio e dizer: vamos tocar, isso é um samba, ou isso é um baião. As conduções rítmicas eram, em alguns casos, misturas de alguns ritmos. Em outros, uma mesma música podia ser tocada como ritmos diferentes. E algumas outras músicas tinham ritmos que nem existiam, precisamos inventá-los. Fizemos então uma pré-produção. Fomos para São Paulo e nos trancamos em um estúdio durante uma semana e tocamos como se ensaiássemos para um show, até conseguir a maneira definitiva de tocar. Aí sim fomos para o estúdio de gravação no Rio, e, exceto a minha voz, as percussões e os naipes de sopros que escrevi, o grupo tocou todo junto, como em uma gravação ao vivo dentro do estúdio. Existe muita coisa improvisada do piano com o saxofone que só foi possível por estarmos tocando todos juntos. Dessa forma posso dizer que a contribuição dos músicos nesse trabalho foi imensa. Eles foram geniais, todos eles.


Sérgio Santos: Áfrico—Quando o Brasil Resolveu Cantar
(Biscoito Fino (BF 508; 2002) 53:37 min.
All songs by Sérgio Santos & Paulo Cesar Pinheiro unless otherwise indicated.

01. Vem Ver [abertura] (Sérgio Santos)
02. Galanga Chico-Rei
03. Oluô
04. Ganga Zumbi
05. Kêkêrêkê
06. Sincretismo
07. Vem Ver [vinheta 1] (Sérgio Santos)
08. Olorum
09. Nagô
10. Saruê
11. Gongá
12. Vem Ver [vinheta 2] (Sérgio Santos)
13. Quilombola
14. Áfrico
15. Quitanda das Iaôs
16. Jongo de Joâo-Congo
17. Nossa Cor
18. Vem Ver (Sérgio Santos)

 

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