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:: revista Daniella Thompson on Brazil.


 

Alex Alves sobre Verde

O compositor descreve todas as faixas em seu disco.

Daniella Thompson

25 de maio 2005

O compositor e virtuoso violonista curitibano Alex Alves mora na Europa desde 1989. Misturando jazz, música erudita e idiomas brasileiros, seu disco Verde para violão solo (ouçam um trecho) recebeu elógios na imprensa mundial (leiam a crítica de John Kelman em All About Jazz).

Com a exeção de “Deixa” (Baden Powell), todas as músicas do disco foram compostas por o próprio Alex. Ao meu pedido, ele mandou comentários sobre cada faixa.

1. Água
É verão, num país tropical e, envolto à letargia do calor vem a chuva, o susto da quantidade enorme de água que parece despencar do céu e uma forma de melancolia que sobe junto com o cheiro de terra seca que agora se encharca se misturam numa entre assistir e participar. No chão, os rios se formam como se a natureza se refletisse em pequena escala, tomando caminhos sempre imprevisíveis, virando e mudando quando e onde menos se espera. Inesperadamente tudo acaba e o que resta é a impressão e os vestígios. Meio espetáculo, meio demonstração de força insuperável, uma “simples” chuva tropical, suas águas e seu tempo, me parecem as vezes tão análogos à vida.

2. Verde
Cor da esperança, do renascer e das matas, pro brasileiro o verde é inevitável. A força da esperança, seus meandros incertos e o eterno recomeçar, é sempre hora de levantar e tentar mais uma vez. “Verde” é um tipo de afoxé escrito em parte como um compositor romântico como Beethoven ou Tchaikovsky (que tanto influenciou a MPB!) misturado com a simplicidade e complexidade de certas músicas nordestinas.

3. Melancolia
“Melancolia” é um simples choro-canção onde eu me pergunto o que tocaria Dilermando Reis hoje. Acho que não há nada mais a comentar.

4. Prece e Tradição
Encurralado entre seca e pobreza, aproveitadores e ditadores, o que resta talvez ainda à grande parte do povo nordestino, sem voz nem oportunidade, é a sua prece e a sua tradição. É triste ver que uma das regiões brasileiras mais ricas em cultura folclórica seja tão abandonada. Por outro lado, é bonito ver a força que esta cultura, seus ritos e tradições folclóricas, é capaz de dar às pessoas que, sem pestanejar, vão ao sul construir um país e não deixam nunca de acreditar, de lutar e de fazer suas preces por dias melhores. Esta é uma pequena homenagem a esta gente.

“Prece e Tradição” são fragmentos tradicionais da música nordestina contrapostos com abstrações talvez ‘modernísticas’ destes próprios fragmentos, A idéia de usar a liberdade métrica, que é tão comum no folclore pois os músicos ‘encurtam’ ou ‘aumentam’ o ritmo de acordo com a letra da música, como elemento integrante deste próprio folclore é uma idéia que gosto de usar e que aqui tem um papel importante.

5. Vem Cá
Chamar alguém quer dizer fazer algo com alguém, participar, unir, unir forças... Vem Cá!

6. Deixa
Para mim os maiores embaixadores do Brasil na Europa de toda a história foram Tom Jobim e Baden Powell, sendo que o Baden viveu na Europa por muito tempo e interagiu diretamente com o povo, abriu caminhos, escreveu história e segurou viva uma grande parte da cultura brasileira que por muitos anos não teve espaço no Brasil. Além disto, foi o violonista que, na sua época, reuniu várias influências de outros violonistas e criou seu próprio estilo, podendo ser assim ao mesmo tempo representante de tantos gênios musicais que passaram ao esquecimento e músico único e inimitável, com seu próprio estilo e personalidade. Para mim, é impossível tocar uma música do Baden e, quando toco, mesmo que seja ele quem compôs “Deixa”, não sinto como uma música dele e sim como uma música prá ele.

7. Rua
Do stress do dia, da pressa e do caos à melancolia da noite que mostra as encruzilhadas, caminhos, habitantes e passantes da rua de noite. “Rua”, tecnicamente, é só uma tentativa de juntar um estudo prá violão do Villa-Lobos com uma música do João Bosco.

8. Conselho de Mãe
O carinho e o bom senso unidos à experiência e à abertura a novos pontos de vista. “Conselho de Mãe” é um chorinho, mas como Ernesto Nazaré se influenciou por Debussy, assim como Jobim e Garoto também, resolvi brincar um pouco com esta indefinição da harmonia impressionista francesa, tão importante prá MPB, prá retratar os bons conselhos que minha mãe me dava, tentando ser imparcial e carinhosa

9. Briga de Faca
Ao contrário da brigas normais, violentas e feias, uma briga de faca é quase como uma dança dramática onde só existe o suspense. Ninguém atinge ninguém, e, quando atinge, acaba a briga... Movimento, força, expressões, suspense, olhos nos olhos e uma vontade louca de saber o que acontecerá a seguir: uma improvisação contínua sobre o momento.

“Briga de Faca” é totalmente improvisada do começo ao fim. Eu tinha a idéia de fazer uma música sobre o suspense de uma briga de faca, onde ninguém se toca praticamente até a briga acabar, pensei em algo como um maracatú, entrei no estúdio e improvisei o que está no CD. De uma certa forma, é uma brincadeira com o jazz, pois é uma música totalmente improvisada e de jazz não tem praticamente nada!

10. De Bom Humor
Chegar em casa, voltar prá casa, meio cansado, meio feliz, meio pensativo, meio relaxando porém com um bom humor que vem do âmago. “De Bom Humor” é a princípio típico Jobim (e como passar por Jobim sem passar por Chopin?) mas com detalhes rítmicos na melodia que ressaltam exatamente o que o mundo não entendeu sobre a Bossa Nova.

11. Bola
Drible, agilidade, velocidade e swing: a arte do futebol brasileiro que não deve morrer, que enche os olhos e que, quando vira percussão entre pé e bola, é samba! É verdade que “Bola” foi uma música sobre a ginga do nosso futebol mas também um resgate, ao meu modo, do Bola Sete, violonista brasileiro que tanto influenciou o Baden, e por conseqüência disto, todo o violão brasileiro, e que foi simplesmente esquecido pela história.

12. Luz
A força da esperança que vem da luz, uma luz no fim do túnel e uma vontade e energia enorme que se desprende desta visão de um futuro melhor. “Luz” tem muito de jazz, mas com um ritmo que alguns chamam de ‘frevo baiano’; quem sabe um ‘fusion frevo’...

13. Outono
Depois de muitas viagens pelo mundo, encontrando sempre pessoas maravilhadas pela beleza das praias e florestas brasileiras, do calor e do verão, “Outono” é uma música prá dizer que belo e feio, bom e mau, existe em toda parte e que, o outono europeu, com suas árvores com folhas multicores, é uma das mais belas paisagens que conheci. É sempre meio cômodo, meio vício, olhar prás coisas boas e belas que estão longe mas acho que vale a pena tentar descobrir o tanto que temos a nossa volta. Tecnicamente as músicas vêm todas da mesma proposta: pesquisar e resgatar a música brasileira, suas origens e influências e tentar dar um passo adiante através da mesma lógica com a qual a música se constituiu. É claro que tudo isso acontece num processo totalmente personalizado, com meu simples ponto de vista e as vezes levado mais a sério, as vezes só brincando com idéias. Assim, se “Água” brinca com idéias Bartók como se Villa-Lobos as tivesse misturado com o Jazz e com as técnicas espanholas de violão, a música tem como idéia básica, apesar de não parecer, um simples toque de berimbau. “Outono” é novamente inspirado nesta mistura entre o impressionismo francês, Satie talvez, e as modinhas e canções brasileiras.

 

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