:: Este depoimento foi publicado na
:: revista Daniella Thompson on Brazil.


 

Eleonora Falcone fala de Apetite

A cantora descreve todas as canções
do seu primeiro disco.

Daniella Thompson

10 de março 2002

Em 1994, iniciei um trabalho com banda (violão/guitarra, baixo, percussão e bateria), em que cantava Lupicínio Rodrigues, Assis Valente, Gonzaguinha. Com esta banda, estreei como compositora, cantando minhas parcerias com Regina Carioca, Luís Capucho e Marcos Sacramento, e ainda cantava Pedro Luís.

As canções de Apetite

1. Invisível Tatuagem (Suely Mesquita) [RA]
Ouvi esta canção pela primeira vez na casa de Pedro Luís, na época meu vizinho em Laranjeiras, cantada por ele. Fiquei muito impressionada por ela. Cantei esta canção em vários shows com Ana ao piano. Foi a última voz a ser gravada, e a que me deu mais trabalho—experimentei várias intenções, e ao final, optei pela “ausência de intenção”, o que já é uma intenção. Ela abre o CD, funcionando como um prefácio. Optamos por não repetir a letra. Ela está gravada em Ab, mas no show é cantada em C. Junto ao violão 7 cordas de Rodrigo, Paulo Brandão, co-produtor do CD, faz uma percussão de efeito (um triângulo com ferro) e eu e Sidon Silva tocamos caixinha de clips.

eu vendo sensações
e tenho muitos fregueses
todos eles querem
se deixar marcar por mim
eu faço marcas na memória
inesquecíveis visões
herdei do reino das mulheres esses poderes

sou um deles
mestres da invisível tatuagem
sou um deles
peço aos deuses que me encham de coragem
sou um deles
cicatrizes musicais nos meus ouvidos
sou um deles
tenho muitos amigos

2. Muda (Eleonora Falcone/Regina Carioca)
Um das minhas parcerias com a inesquecível Regina Carioca, falecida em março de 1997. Era uma sexta-feira, verão de 95, se não me engano, e tínhamos ido até a casa dela em Niterói, eu, Sacramento e Capucho. Saímos e acabamos a noite na casa de Sati, namorado de Regina. Sacra e Capucho adormeceram e Regina começou a me mostrar algumas de suas letras. Esta letra me chamou a atenção à primeira leitura, e já na segunda vez que a li, o fiz cantando a melodia. Sati apanhou um gravador e eu registrei a parceria. Dei a ela o título de “Muda”. A harmonia, eu a coloquei algum tempo depois ao piano, fazendo uma célula rítmica tipicamente nordestina, do baião. Ela se transformou num forró eletrônico com a programação de Rodrigo, temperado ainda pelo acordeon de Chiquinho Chagas, e pela participação muito especial das crianças do Colégio Pedro II, cujo pátio de recreação dava para a janela do studio.

quando venho pra cá muda tudo
tudo muda
emudeço em mim
vejo-me aqui como lá
igual
estranho mas igual
sou tudo

o que você disser de mim
já sou sua
o que você quiser de mim
já sou eu

do jeito que você esperou por mim
já sou
você amor do tamanho do tempo
que esperei pra mim
já sei
nós aqui
assim

3. Tímida (Eleonora Falcone/Regina Carioca)
Minha primeira parceria com a Regina. Eu ainda não a conhecia quando Capucho, que era seu amigo, me entregou esta letra ao ver meu interesse, pois ele não tinha se inspirado com ela. A letra estava escrita num guardanapo de papel. De fato, é uma letra muito feminina, o que é a tônica de minha parceria com Regina. Eu a compus ao violão. Vim a conhecer a Regina algum tempo depois, em um show meu, e ficamos muito amigas. Esta canção sempre fez muito sucesso, e eu a escolhi como faixa de trabalho. Regina gostava muito desta canção e de nossa parceria—ela deixou muitas outras letras, e tenho guardadas outras parcerias nossas feitas depois que ela se foi. Para mim, esta é uma das faixas mais felizes do CD—nela, tudo está em harmonia, o casamento de letra & música, o arranjo, a relação entre voz e base na mixagem. O baixolão de Ricardo Feijão tem uma participação fundamental, e eu faço uma “cuíca” humana com a voz.

você pediu
de um jeitinho assim
e eu fiquei enrolando a beirinha da camisa
da sua camisa
eu
pensava um monte de coisas ao mesmo tempo
e você
me olhava de um jeito tão terno
e eu
já não sei dizer não
e eu
já não sei dizer não

eu olhava pro céu cheio de estrelas e perguntava sem jeito
será que vai dar praia?
eu sou assim mesmo
fico tímida
eu que sou às vezes tão sem vergonha
fico pensando naquele marzão grande, atrapalhada
sem vergonha
será que vai dar praia?
e eu assim sem nada e com tudo, com, com,
contente, contentinha...
me leva, amor
me leva, ah
leva eu
leva, leva

4. Walk Down (Pedro Luís/Rodrigo Cabelo)
Uma das últimas a ser escolhida, este xote-reggae. Pedi a Pedro que me mostrasse canções suas, para que eu pudesse escolher uma, e incluí-la no CD. Esta foi a primeira que ele mostrou, e gostei de cara. Ela tem uma leveza, um movimento, realçado pelo arranjo, semelhante mesmo a um carrousel, que gosto muito. A calota de Sidon, que tocou percussão em todas as faixas do CD, junto ao cavaco e assobio de Rodrigo, dão uma cor especial à gravação.

se uma chama no seu peito queima
e teima em te levar pra frente
se algo chama e seu peito bate (arde)
cê vai chegar na liberdade

meu jegue vai da Luz até Paris
passeio de São Paulo à Paraíba (Pernambuco) e sou feliz

walk down, I woke up
não há nada pra substituir sua vontade
[bis]

no metrô ou no transporte coletivo
quanto mais ando mais me sinto vivo
e se me encontro na fila do banco
pra distrair eu abro um livro

meu jegue vai da Luz até Paris
passeio de São Paulo à Paraíba (Pernambuco) e sou feliz

wake up, walk man
a música me faz sentir veloz, a mais de cem
[bis]

a música dos girassóis
que faz girar meu carrossel
por que você não vem?
[bis]

5. Michael Jackson Usa Batom (Eleonora Falcone/Luís Capucho)
Luís me mostrou a letra e compus a música ao violão como uma bossa, e posteriormente foi transformada em funk, num trabalho meu com banda. No CD ela está como um funk-tango, o que reforça e realça—com a ajuda do cello de Lui Coimbra—por um lado a ironia e por outro a dramaticidade da letra, que é solidária à personagem, que é sozinho em sua mansão—“sou como Michael Jackson”.

Michael Jackson usa batom
Michael Jackson
[bis]
é sozinho em sua mansão
sou como Michael Jackson
e quanto mais eu te amo
quanto mais você é um sonho
mais abandonada é minha solidão
eu imagino Michael Jackson no centro de sua sal
com aquela cara de rata branca
uma rata que usa batom, uma rata

mas para Michael Jackson e para mim que te amo
que me importa um pouco de rímel nos cílios
se você não vai me querer mesmo
que me importa se eu te amo pouco ou muito
se eu não vou te ter mesmo
que me importa o meu desejo
se o nosso mundo não se mistura

e minha solidão aperta-me contra o muro do céu
eu sei que por um homem é proibido usar batom
sei que a solidão é um muro apertado contra o meu olho

6. Pacata (Eleonora Falcone/Marcos Sacramento)
Esta letra também foi entregue a mim por Capucho, uma espécie de padrinho de minhas parcerias com Regina e Marcos, que fiquei conhecendo melhor, e de quem me tornei amigo a partir desta parceria. Compus ao violão, e o resultado é uma espécie de “bossa árabe”, resultado de um mergulho no meu inconsciente ibérico, tão deteminante na minha expressividade artística. O vocal de abertura, reproduzido no CD pelo cello de Lui Coimbra, junto com a voz, me veio antes de tudo, e serviu de guia para todo o resto. Eu adoro esta parceria. Outro dia, Sacramento me mostrou a moça que inspirou a canção, uma filha de portugueses moradora do bairro de Santa Teresa. Gosto do resultado “arrastado” do arranjo, quase um mantra, envolvente e sedutor.

os buços não negam
ela é pacata
filha de Lourdes, filha de Santa
portuguesa com certeza
as buças não negam
ela é pacata, é recatada
e tem uma butique, tic, tic
tem muitos tiques nervosos
é loura e é morena
que pena que ela é pacata
filha de Santa, dona da quitanda
rainha da varanda de Fátima
rainha da quitanda
que pena que ela é tão muamba
ela é pacata, é recatada
tem sempre unhas vermelhas
bem cortadas com as beiras brancas

será que ela sobe nas tamancas?
será que ela tem essa bossa?
os buços ela tem
e os buços não negam
ela é pacata
[bis]

7. Duas Margens (Chico César/Lúcio Lins)
Escolhi esta canção logo ao ouvi-la pela primeira vez. Ela está gravada em Beleza Mano, terceiro CD de Chico, que eu conheço da época em que morávamos em João Pessoa, quando eu estudava Psicologia, e ele Comunicação, no início dos anos 80. Ele musicou este poema do poeta paraibano Lúcio Lins que está no livro Perdidos Astrolábios, editado pela Universidade Federal da Paraíba. Rodrigo também ficou bastante impressionado pela sua beleza, e seu arranjo lhe confere uma excitação muito adequada. De novo, ela fala alto às minhas origens ibéricas (sou descendente de espanhóis, além de italianos). Chico gostou muito não só desta versão de sua música, como do CD também, e tem sempre se referido a mim em suas entrevistas.

quando o tempo me cobrir os céus
com a anágua suja da tua espera
e teus lábios forem duas margens
um gritando calmaria
outro clamando tempestade

eu voltarei
de corpo e barco voltarei
e por ti seguirei minha viagem
navegarei
entre teus braços e segredos
eu serei teu búzio
tu serás o meu degredo

8. Chuva (Rodrigo Campelo/Suely Mesquita)
Conheci esta canção através de uma fita K-7 com parcerias de Rodrigo e Suely, emprestada a mim por Capucho. Isto foi em 96. Durante a pré-produção do CD, eu a resgatei. É uma das mais belas faixas—uma bossa-tango, cuja participação especial do acordeon de Chiquinho Chagas imprime uma nostalgia que aqui se faz elo de ligação entre a bossa-nova e o tango, aparentemente tão distintos, mas ambos tão importantes na minha formação.

ouço, sinto, penso
a chuva bate, deixo a chuva fora
fico aqui comigo mesma
a chuva quer entrar
o mundo vem se deixar molhar

piso nas estrelas
penso em comê-las
gosto agora do futuro
e seu fresco gosto de fruto escuro

ouço, sinto, penso
a chuva bate, deixo a chuva fora
não me mexo, gosto de esperar
chuva desce, não desiste
se estatela na janela
água fria escorre devagar

9. Bruto (Luís Capucho)
Esta foi a primeira canção de Luís cantada por mim, quando ainda tinha o duo com Ana. Conheci Capucho em 91, através de Pedro e Suely, e fiquei tão impressionada e identificada com sua obra, que estou sempre a cantá-lo desde então.

vejo o infinito no teu corpo bruto
tua perna terna, teu fruto
teu corpo nu
feroz de animal

nada é mais doce
nada é mais nu
nem peixe, nem hipopótamo nem lua
teu corpo de infinito
de homem masculino
de braço, de muque, de sôco
de céu, de beleza, de verdade

teu corpo de bosque
teu corpo de verão
tua imagem quente entra
na carne do meu coração
que é o meu corpo feminino
de nuvem, de sopro, de fogo
na bruma, na neblina

10. Me Atende (Luís Capucho/Suely Mesquita)
Também cantada no duo, como introdução ao já clássico “Tatuagem”, de Chico Buarque. Quando Rodrigo me mostrou o arranjo que tinha feito para ela—o primeiro a ser feito, ainda para uma demo de 4 faixas, fiquei ao mesm tempo surpresa, pois jamais me imaginara cantando uma música com um arranjo tão “techno”, e seduzida pelo desafio artístico. Foi a primeira voz a ser colocada, e de primeira, e é uma das vozes que gosto mais, junto às vozes de “Chuva”; “Tímida”; “Pacata”; “Pensando em Ti”; “Destruição” e “Michael Jackson Usa Batom”.

levanta tua cara bonita
a tua cara levantada está escrita
se pode ler as palavras na vitrine
eu gosto do teu olho mau
passado cru como um bife
o teu olhar escuro e cru
abre o apetite
eu quero tua carne crua e fresca
empresta, dá
se vende
me atende

11. Pensando em Ti (Herivelto Martins/David Nasser)
Um clássico do cancioneiro brasileiro, que eu conheci como um samba-canção abolerado na voz de Nelson Gonçalves, e que está no inconscientee brasileiro. Estávamos eu e uma amiga conversando sobre a condição de uma pessoa apaixonada, que não consegue nem pensar em Deus, como nesta canção. Ocorreu-me então a idéia de gravá-la. Rodrigo foi muito feliz no arranjo, muito adequado à intenção da voz. É uma das faixas que mais gosto de ouvir. Antes de gravar a voz definitiva, cantei deitada no corredor da casa de Paulinho, onde gravamos o CD, para achar a intenção que queria.

eu amanheço pensando em ti
eu anoiteço pensando em ti
eu não te esqueço
é dia e noite pensando em ti
eu vejo a vida pela luz dos olhos teus
me deixe ao menos, por favor, pensar em Deus nos cigarros que eu fumo
te vejo nas espirais
nos livros que eu tento ler
em cada frase tu estás
nas orações que eu faço
eu encontro os olhos teus
me deixe ao menos, por favor, pensar em Deus

12. Destruição (Luís Capucho)
Cantei esta canção pela primeira vez acompanhada do próprio Luís, em 93, numa edição do CEP 20.000, no Sérgio Porto. Ela é da época de “O Amor É Sacanagem”, que está no CD O Ovo. Eu cantava as duas com banda, num trabalho posterior ao duo. Esta foi a penúltima voz a ser colocada no CD. Cantei quase sussurando, sentada, colada ao microfone, pois queria extrair a densidade emocional justamente disto, da sutileza, da leveza. Acho que o contraste com o peso da base ficou muito interessante. Gosto muito das guitarras de Rodrigo ao final da faixa, que fecha o CD.

amar você
é como me perder
e sempre me encontrar depois
sozinha
o meu caminho é noite
é um vão
minhas estrelas batem forte no meu fundo
você queimou meu jardim
ficou vazio você
me destrói
você é a destruição
meus peixes destruídos
cheios de melancolia meus pássaros foram embora
meu sol ficou podre
calou o meu luar
sumido na escuridão
e agora que o meu mundo caiu
o mundo é ilusão

 

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