:: Este depoimento foi publicado em inglês
:: na revista Daniella Thompson on Brazil.


 

Mr. Songbook

Ricardo Gilly, o maior revisor musical no Brasil,
fala da sua profissão.

Daniella Thompson

29 de outubro 2006

Ricardo Gilly é violonista e arranjador. No Brasil, a profissão de editor e revisor de songbooks nasceu com ele. Desde 1989, ele está presente nas principais publicações musicais brasileiras.

Gilly, como é chamado por seus amigos, trabalhou em mais de 70 livros, realizando transcrição de partituras, revisão musical, adaptação para piano ou violão, arranjos e projetos graficos.

Para a Lumiar Editora, colaborou nos songbooks de Noel Rosa, Tom Jobim, Gilberto Gil, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Dorival Caymmi, Edu Lobo, Ary Barroso, Djavan, João Donato, Chico Buarque, Braguinha, João Bosco e Ivan Lins, entre outros.

A convite de Tom Jobim, participou do Cancioneiro que reune a obra completa do maestro, atuando como revisor musical e assinando vários adaptações para piano. Ainda pela Jobim Music, participou dos Cancioneiros Vinicius de Moraes, Moacir Santos e Humberto Teixeira.

Na Acari Records, colaborou nos Cadernos de Choro desde o primeiro número.

Nesta entrevista, Gilly fala do seu trabalho.

Como você começou a ter interesse pelo violão?

Comecei a tocar por volta dos 13, 14 anos, sozinho mesmo. Sou o caçula de uma família que ouvia muita bossa nova, Cyro Monteiro, Chico Buarque. Desde muito garoto, fui ligado em compositores como Gil, Milton Nascimento, Tom Jobim. Engraçado, ouvindo agora o disco Wave, de 1970, vejo como fui influenciado pela batida de violão do Tom, que é muito bonita. Pouca gente sabe que é ele mesmo quem toca. Conseguir essas partituras, na época, era muito difícil. Tinha que comprar os songbooks importados na Musical São José, em Copacabana.

Qual é a sua formação musical?

Estudei harmonia e arranjo com Ian Guest, um grande mestre e amigo. Devo muito a ele. É um húngaro muito importante na história recente do ensino da música no Brasil. Aqui foi pioneiro no método Kodály, definiu um sistema de cifragem que hoje é padrão em nossas publicações, formou uma geração inteira de bons arranjadores. Fiquei muito feliz quando ele me convidou para revisar seus livros de arranjo e de harmonia.

Como você entrou na carreira de editor e revisor musical? Como e quando iniciou a colaboração com Chediak? Parece que você entrou depois dos primeiros songbooks de Caetano e Bossa Nova.

Sim, entrei logo no começo, apresentado ao Almir Chediak pelo Ian, que foi também seu professor. Meu primeiro trabalho foi transcrever músicas de Gilberto Gil e Djavan para livros que acabaram saindo anos mais tarde.

Fui aprendendo o trabalho de revisão fazendo os songbooks de Bossa Nova 4 e 5 e de Rita Lee. Logo me caiu nas mãos o projeto que era um sonho: Tom Jobim, em três volumes. Naquela época (1990), ele morava em Nova York e revisávamos as partituras por telefone ou fax (uma novidade, então!). Logo depois voltou para o Brasil e até tocou no lançamento do songbook.

Quando fui revisar a segunda edição (apareceram muitos erros), tomei coragem e liguei pro homem, para tirar algumas dúvidas. Ele mandou essa: “Dá pra você vir aqui em casa amanhã, pra gente ver isso?” Fui, é claro, tremendo da cabeça aos pés, mas logo ele me colocou bem à vontade, com aquele seu jeito simples e a famosa generosidade. Fiquei impressionado com a determinação e a seriedade com que ele levou aquele trabalho ao longo dos dois anos seguintes. Nos encontramos várias vezes e a confiança que ele teve em mim (imagine seu ídolo enchendo a tua bola!) foi um incentivo determinante pra que eu seguisse nessa profissão.

Ele ainda me indicou ao seu filho, Paulo, para eu colaborar no Cancioneiro de piano. Foi Paulinho Jobim quem me ensinou o Finale—programa de digitalização de partituras.

Descreva o processo de tornar uma coleção de canções em songbook.

A primeira etapa é a seleção de músicas e gravações. Quando a obra é relativamente recente, fica mais fácil determinar que gravação usar para uma transcrição, mas há casos em que isso requer muita pesquisa. No songbook de Ary Barroso, por exemplo, havia canções com 4, 8, 10 versões diferentes. É necessário muito cuidado na hora de definir que fontes usar.

Depois alguém transcreve a partitura, que é digitalizada e segue para a revisão. Aqui são definidos alguns critérios de escrita: se simplificar ou não a interpretação; se seguir à risca determinada gravação ou adaptar tonalidades e harmonias; adivinhar se aquela introdução faz parte da música ou é só arranjo; etc. Essas escolhas, claro, devem respeitar o estilo e a época de cada composição.

Temos o cuidado de passar cada música com o compositor.

Tocamos ao piano e ao violão, geralmente um fazendo a harmonia e o outro, a melodia. Neste processo, trabalhei com muita gente boa: Ian, Fred Martins, Itamar Assiére e Cristovão Bastos.

Nos songbooks da Lumiar, tenho que cifrar as letras e desenhar os braços de violão, juntando a partitura, copyrights e outros itens, diagramando tudo numa montagem final, ainda com o cuidado de não gerar muitas viradas de página ao longo de uma música, pra não atrapalhar a execução. Quando comecei, a arte final ainda era feita à mão, na base da letraset, estilete e cola, uma loucura! Como diria o Almir.

Quando finalmente parece que está tudo pronto, na verdade faltam umas três ou quatro revisões para ficar impecável. É muito trabalhoso mesmo, tem que ser muito detalhista, porque o erro está lá, só que você não está vendo. Carlos Lyra diz que meu trabalho é de policial.

Você prefere trabalhar com ou sem o compositor na editoração do songbook? A colaboração com cada compositor deve ser diferente. Em qual caso o compositor ajuda no trabalho, e em qual ele atrapalha?

Comigo nunca aconteceu de um compositor atrapalhar. Sempre ajuda, porque é ele quem sabe os detalhes, a parte orgânica da canção, sem interferência dos arranjos ou de modificações que, não raro, algum intérprete acaba fazendo. Facilita trabalhar com compositores que dominam a escrita como Tom, Edu Lobo, Carlos Lyra, Francis Hime, Sueli Costa, Marcos Valle, João Donato, Ivan Lins e outros. Há também os que não escrevem, como Chico Buarque, João Bosco e Djavan, mas sabem exatamente o que querem e corrigem erros na hora, quando a gente toca pra eles. Também, esses aí são gênios, não é verdade?

Você trabalhou com várias editoras. Tem diferenças entre elas em matéria do processo de construir um songbook?

Sim. Na Lumiar, como já disse, começo desde as gravações, ou seja, há tudo por fazer.

Na Jobim Music, geralmente pego o trabalho mais adiantado. No Cancioneiro Jobim, muitas partituras para piano já vinham sendo escritas e revisadas há pelo menos cinco anos pelo Paulinho e pelo Tom, mesmo assim ainda levamos mais dez anos para concluir tudo! Dois dos cancioneiros de Moacir Santos tiveram adaptações para piano baseadas nas grades originais do maestro. Revisar esse tipo de material me toma muito tempo, porque toco tudo ao piano, numa lentidão terrível. Outro dia, fui mostrar a um amigo a adaptação que fiz, para o Cancioneiro Vinicius de Moraes, da música Primavera (parceria com o Lyra). Fui tocando no piano e lá pelas tantas veio a gozação: “quando você acabar de tocar essa música já vai ser verão...”

As partituras dos Cadernos de Choro da Acari, escritas pelo Mauricio Carrilho, já vêm com o conteúdo bem certinho e não dão muito trabalho na revisão. Sou responsável pelo  projeto gráfico e pela diagramação das partituras.

Tem observações ou experiências que você queria compartilhar com os leitores?

Talvez por ser uma especialização muito nova no Brasil (acho mesmo que sou o único que vive disso há tanto tempo ), a importância do revisor musical ainda é desconhecida pela maioria das pessoas. Tom Jobim dizia que a música escrita é a que fica. Ninguém hoje conheceria Bach se ele não tivesse colocado sua música no papel. Por isso tenho a consciência do desafio, da responsabilidade que eu e meus colegas carregamos. Se tivesse que resumir numa palavra o que eu sinto por esse trabalho, diria: carinho. É o que me mantém interessado em dedicar tanto tempo a cada canção. Sei que é inerente à profissão aquele peso: se passa alguma coisa, é incompetência do revisor, mas se sai tudo certo, parece que não deu trabalho algum.

A cada nova publicação procuro fazer com que a partitura fique também mais bonita, mais limpa e fácil de ler. Este ano será lançado um belíssimo livro pela Jobim Music: Humberto Teixeira, com arranjos de Wagner Tiso e projeto gráfico de Gringo Cardia. Será o de número 74 de que eu participo. É uma boa marca para os meus 43 anos, não? Já há algum tempo amigos tentam me convencer de que é mais importante eu cuidar da minha música, de gravar meus discos, mas eu me sinto bem aqui. Posso exercer o que eu mais gosto, que é arranjar.

Este ano, estou colaborando com a Escola Portátil de Música (oficinas de choro)—uma iniciativa muito bacana, acessível a um grande número de alunos e que tem como professores os maiores bambas do choro em atividade no Rio de Janeiro. Em 2007, pretendemos implantar cursos de Finale e técnicas de revisão musical. Há ainda muita música para ser escrita e precisamos preparar novas gerações para essa tarefa.

 

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