:: These lyrics were published as part of the article
:: Guinga rising
in the Nov. 2001 issue of Brazzil.

 

The Guinga Discography

A few song lyrics.

Daniella Thompson

November 2001

Bolero de Satã
(Guinga/Paulo Cesar Pinheiro)

você penetrou como o sol da manhã
e em nós começou uma festa pagã
você libertou em você a infernal
cortezã
e em mim despertou esse amor
atormentado e mau de satã
você me deixou como o
fim da manhã
e em mim começou essa angústia,
esse afã
você me plantou a paixão
imortal e malsã
que se enraizou e será meu maldito
final amanhã
e agora me aperta a aflição
de chorar louco e só de manhã
é a seta do arco da noite
sangrando-me agora
são lágrimas, sangue, veneno
correndo no meu coração
formando-me dentro esse
pântano de solidão
Bolero of Satan
(Guinga/Paulo Cesar Pinheiro)

you penetrated like the morning sun
and began within us a pagan feast
you liberated in yourself the infernal
courtesan
and awakened within me this love,
tormented and evil as satan
you left me like the
end of the morning
and within me began this anguish,
this yearning
you planted in me immortal and
sick passion
that took root and will be my cursed
end tomorrow
and now I’m seized by the affliction
to weep madly and alone in the morning
it's the arrow of the night’s bow
making me bleed now
tears, blood, poison are
coursing through my heart
forming within me this
mire of solitude

 

Catavento e Girassol
(Guinga/Aldir Blanc)

Meu catavento tem dentro
o que há do lado de fora do
teu girassol.
Entre o escancaro e o contido,
eu te pedi sustenido
e você riu bemol.
Você só pensa no espaço,
eu exigi duração.
Eu sou um gato de subúrbio
você é litorânea.
Quando eu respeito os sinais,
vejo você de patins
vindo na contramão
mas quando ataco de macho
você se faz de capacho
e não quer confusão.
Nenhum dos dois se entrega.
Nós não ouvimos conselho:
eu sou você que se vai
no sumidouro do espelho.

Eu sou do Engenho de Dentro
e você vive no vento do Arpoador.
Eu tenho um jeito arredio
e você é expansiva
(o inseto e a flor).
Um torce pra Mia Farrow,
o outro é Woody Allen...
Quando assovio uma seresta
você dança, havaiana.

Eu vou de tênis e jeans,
encontro você demais:
scarpin, soirée...
Quando o pau quebra na esquina,
você ataca de fina
e me ofende em inglês:
é fuck you, bate-bronha,
e ninguém mete o bedelho:
você sou eu que me vou
no sumidouro do espelho.

A paz é feita no motel
de alma lavada e passada
pra descobrir logo depois
que não serviu pra nada.
Nos dias de carnaval,
aumentam os desenganos:
você vai pra Parati
e eu pro Cacique de Ramos.

Meu catavento tem dentro
o vento escancarado do Arpoador.
Teu girassol tem de fora
o escondido do Engenho de Dentro
da flor.
Eu sinto muita saudade,
você é contemporânea,
eu penso em tudo quanto faço,
você é tão espontânea!

Sei que um depende do outro
só pra ser diferente,
pra se completar.
Sei que um se afasta do outro
no sufoco somente pra se aproximar.
Cê tem um jeito verde de ser
e eu sou meio vermelho
mas os dois juntos se vão
no sumidouro no espelho.
Pinwheel and Sunflower
(Guinga/Aldir Blanc)

My pinwheel has inside it
What's on the outside of
your sunflower.
Between the open and the shut,
I asked you in sharp
And you laughed in flat.
You think only of space,
I require duration.
I’m a suburban cat
You’re a beach person.
When I obey the traffic lights,
I see you on skates
Coming on the wrong side
But when I come on as macho
You turn into a doormat
And don’t want confusion.
Neither of us gives in.
We don’t listen to advice:
I am the you that gets
Sucked into the mirror.

I’m from Engenho de Dentro1
And you live in the wind of Arpoador.2
I’m retiring
And you’re gregarious
(the insect and the flower).
One of us roots for Mia Farrow,
The other for Woody Allen...
When I whistle a serenade
You dance the hula.

I go in sneakers and jeans,
Find you overdressed:
High heels, evening togs...
When we fight on the street corner,
You put on airs
And insult me in English:
It’s “fuck you, jack-off”
And no one dares interfere:
You are the me that gets
Sucked into the mirror.

We make peace in a motel
With our souls washed and pressed
Only to discover shortly thereafter
That it was to no avail.
During Carnaval,
The disillusion grows:
You go to Parati3
And I to Cacique de Ramos.4

My pinwheel has inside it
The wide-open wind of Arpoador.
Your sunflower has outside it
The hidden engine from within5
the flower.
I’m very nostalgic,
You’re contemporary,
I think before I do anything,
You’re so spontaneous!

I know that one depends on the other
Just to be different,
To be complete.
I know that one leaves the other
When times get tough only to get closer.
You have a green way of being
And I’m rather red
But together we go
Sucked into the mirror.
  1. A working-class suburb in Rio
  2. A beach neighborhood between
    Copacabana and Ipanema
  3. A fashionable beach resort in the state
    of Rio de Janeiro
  4. Famous Carnaval bloco from the
    working-class suburb of Ramos
  5. Engenho de Dentro

 

Senhorinha
(Guinga/Paulo Cesar Pinheiro)

Senhorinha
Moça de fazenda antiga, prenda minha
Gosta de passear de chapéu, sombrinha
Como quem fugiu de uma
modinha

Sinhazinha
No balanço da cadeira de palhinha
Gosta de trançar seu retrós de linha
Como quem parece que adivinha
(amor)

Será que ela quer casar
Será que eu vou casar com ela
Será que vai ser numa capela
De casa de andorinha

Princesinha
Moça dos contos de amor da
carochinha
Gosta de brincar de fada-madrinha
Como quem quer ser
minha rainha

Sinhá mocinha
Com seu brinco e seu colar de
água-marinha
Gosta de me olhar da casa
vizinha
Como quem me quer na camarinha
(amor)

Será que eu vou subir no altar
Será que irei nos braços dela
Será que vai ser essa donzela
A musa desse trovador

ó prenda minha
ó meu amor
Se torne a minha senhorinha
Young Lady
(Guinga/Paulo Cesar Pinheiro)

Young lady
Daughter of an old plantation, my girl
Likes to stroll in a hat, parasol
Like a character from an
old-fashioned song

Little missy
In the wicker rocking chair
Likes to weave her linen thread
Like someone who appears to divine
(love)

Does she want to marry?
Will I marry her?
Will it be in the chapel
Of a birdhouse?

Little princess
Girl of fairy tales of
love
Likes to play at fairy godmother
Like someone who wants to be
my queen

Little mistress
With her earrings and her aquamarine
necklace
Likes to watch me from the house
next door
Like someone who wants me in her
chamber (love)

Will I go up to the altar?
Will I go in her arms?
Will this damsel become
The muse of this troubadour?

Oh my girl
Oh my love
Be my young lady

 

Fox e Trote
(Guinga/Nei Lopes)

Estranha ligação, tão descabida!
Que coisa sem razão e
sem medida!
Igual a jazz ou atonais
Sons de Debussy
Num mocotó ou num forró
Em Paracambi.
Municipal, num recital
E eu de calça Lee...
Foi como Miles Davis, doido no
carnaval,
Tocando no Orfeão Portugal.
Estranha ligação, tão descabida!
Que coisa sem razão e
sem medida!
Como orações pentecostais
louvando Zumbi
Como free-ways monumentais
pra daqui e ali
Ou certas leis que o homem faz
pra não se cumprir
Foi como um trio elétrico em
um funeral
mandando funk, rap geral
Golpe de azar, sina de estar
num mau lugar
na hora errada,
Eu, que pensei mais uma vez
que essa era dez
Que dez, que nada!
Estranha ligação, tão descabida!
Que coisa sem razão e
sem medida!
Igual a jazz ou atonais
Sons de Debussy
Como orações pentecostais
louvando Zumbi
Municipal, um recital
e eu de calça Lee
Foi como um trio elétrico
descendo o Pelô
Desrespeitando Dona Canô
Golpe de azar, sina de
estar num mau lugar
na hora errada
Eu, que pensei mais uma vez
que essa era dez
Que dez, que nada!
Meu peito de aço inox,
de Dom Quixote
dançou no fim do fox:
Levei um trote
Fox and Trot
(Guinga/Nei Lopes)

Strange connection, so inappropriate!
Such a thing with no sense and
no measure!
Like jazz or atonal
Sounds of Debussy
In a mocotó1 or in a forró2
In Paracambi.3
Recital at the Municipal theatre,
And I in Lee jeans...
It was like Miles Davis, crazy in the
Carnaval,
Playing at the Orpheum Portugal.4
Strange connection, so inappropriate!
Such a thing with no sense and
no measure!
Like Pentecostal prayers
praising Zumbi5
Like monumental freeways going
there and here
Or certain laws that Man makes
So as not to follow them
It was like a trio elétrico6 in
a funeral
broadcasting funk, rap general
A stroke of misfortune, the fate of
being in a bad place
At the wrong time
I, who thought once again that
it was a ten
What ten? No way!
Strange connection, so inappropriate!
Such a thing with no sense and
no measure!
Like jazz or atonal
Sounds of Debussy
Like Pentecostal prayers
praising Zumbi
Recital at the Municipal theatre,
And I in Lee jeans
It was like a trio elétrico
descending Pelô7
Desrespecting Dona Canô8
A stroke of misfortune, the fate of
being in a bad place
At the wrong time
I, who thought once again
that it was a ten
What ten? No way!
My stainless-steel breast
Like Don Quixote
Collapsed at the end of the foxtrot:
I fell victim to a prank
  1. A rich soup made with
    the cartilage and tendons
    of beef or pork legs
  2. A northeastern dance
  3. A town in the state of Rio de Janeiro
  4. A dance club that specialized in samba
  5. Legendary 17th-century
    rebel slave leader
  6. An amplified sound truck in
    the Bahian Carnaval
  7. Pelourinho, the historic center
    of Salvador, Bahia
  8. Caetano Veloso & Maria
    Bethânia’s mother

 

Choro-Réquiem
(Guinga/Aldir Blanc)







Bom,
até ’manhã,
até pra sempre
ou mesmo até já,
até o dia que eu deslembre
ou volte a lembrar.
Quanto maior a ausência
mais eu te percorro,
minha consciência
te revive e eu morro.

Mãe,
arranha o vidro da janela
onde a sujeira vela
por nós dois
porque eu não sei
quem anda mais sozinho.
Ai, eu perdi o ninho, a casa,
o colo, a crença
—só nossa doença não me
abandonou...

Que não soe falsa
a valsa lenta
e o que ela alimenta
na hora tardia:
a solidão
como um cordão
tem uma ponta solta,
fria, livre da hipocrisia.
Adeus, querida,
casca de ferida,
escrava de Jó,
luz do meu céu,
tão pequenina:
no São João, o
tangerina...

Na rapsódia em blusão
de tafetá,
flutuas em Paquetá!

Mãe,
no teu velório
eu desejei as moças na cachola.
Ai, mãe, não liga,
me perdoa,
é que eu não sou boiola.
Eu sou mesquinho,
mãe, letrista pobre, aumento:
Fui teu catavento,
foste o meu moinho.
Choro-Requiem
(Guinga/Aldir Blanc)

This choro is a tribute to Aldir
Blanc’s mother, who died at the
beginning of 2001. Guinga sings
it in Quarteto Maogani’s disc,
Cordas Cruzadas.

Well,
Until tomorrow,
Until always
Or even right away,
Until the day I disremember
Or remember again.
The larger the absence
The more I delve into you,
My conscience
Revives you and I die.

Mother,
Scratch the window glass
Where the grime watches
Over us both
Because I don’t know
Who's lonelier.
Ai, I lost my nest, my home,
The lap, my faith
—only our illness didn’t
abandon me...

Let not the slow waltz
Sound false
And what it feeds
At the late hour:
Solitude
Like a cord
Has a loose end,
Cold, free of hypocrisy.
Goodbye, dear,
Scab of a wound,
Slave of Job,1
Light of my heaven,
So tiny:
At São João,2 a tangerine
hot-air balloon

In the rhapsody in a blouson3
of taffeta,
You float in Paquetá!4

Mother,
At your funeral
I desired the girls in my mind.
Ai, mother, don’t mind,
Forgive me,
It’s that I’m not gay.
I’m insignificant,
Mother, a poor lyricist, I add:
I was your pinwheel,
You were my windmill.5
  1. “Escravos de Jó” is a traditional
    tune sung during a circle game
  2. A mid-winter festival
  3. Smock; a pun on “Rhapsody in Blue”
  4. A bucolic island in Guanabara bay,
    Rio de Janeiro; it is also mentioned
    in Aldir’s songs “Latin Lover”
    (co-authored with João Bosco),
    “Choro das Ondas” (with Moacyr Luz),
    and Santo Amaro“” (with Franklin
    da Flauta & Luiz Cláudio Ramos)
  5. A reference to the song
    “Catavento e Girassol”

The late Kimson Plaut contributed generously to the translations.

 


Copyright © 2001–2008 Daniella Thompson. All rights reserved.