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Imperador do samba

Um segredo chamado Marcos Sacramento.

Ruy Castro

19 de Outubro de 2004

Se a maioria das pessoas que compram discos fizesse isto por causa da música, o cantor carioca Marcos Sacramento estaria há anos encantando muito mais gente do que apenas os privilegiados que o admiram. Do jeito que as coisas são, no entanto, ele continua a ser um dos segredos mais bem guardados da música popular brasileira—segredo este bem conservado pelas gravadoras, pela televisão, pelo rádio e pelas casas de shows, mais ocupadas com os talentos menores ou fabricados que pululam na praça. Na condição de um daqueles felizes privilegiados, só posso fazer tsk, tsk pelos que ainda não tiveram o prazer de conhecê-lo.

No passado, quando Sacramento gravava em selos independentes ou alternativos, ainda havia uma desculpa para a espessa ignorância sobre seu trabalho. Mas seu último e melhor CD (digo, melhor ainda que os anteriores) saiu há alguns meses pela Biscoito Fino, a prestigiada gravadora de Olívia Hime e Kati Almeida Braga, e ainda não registrou nenhuma alteração apreciável do sismógrafo de vendas. O mercado costuma ser lento para captar qualquer choque, a não ser aqueles que ele mesmo provoca, quando não é definitivamente surdo para os verdadeiros valores. E a explicação para o silêncio em torno desse disco pode estar no seu título: Memorável samba.

Sim, é um disco de samba—o ritmo que já foi a mainstream, a corrente principal (até comercialmente) da música produzida no Brasil em todas as grandes fases, lembra-se? Mas, aos olhos de hoje, o samba tornou-se uma coisa de gueto, de compositores dos morros do Rio ou, no máximo, algo a ser ouvido meio a contragosto no Carnaval e, mesmo assim, pela televisão. Esquecemo-nos de que ele é também um ritmo do asfalto e que foi a decantação musical dos sons e palavras gerados pela urbanização. Foi o samba que cantou, desde os primeiros anos do século passado, a transformação dos nossos subúrbios e vilas em grandes cidades. E não por acaso teve em brancos como Noel Rosa, Hervê Cordovil, Herivelto Martins, Vadico, Mario Reis e Carmen Miranda representantes tão legítimos quanto os negros ou mulatos Assis Valente, Wilson Batista, Moreira da Silva, Nelson Cavaquinho, Ataulfo Alves e Geraldo Pereira. Todos esses nomes estão presentes, pelo repertório ou pelo jeito de cantar, nesse estupendo disco de Marcos Sacramento.

É um disco moderno, porque Sacramento é um cantor moderno, capaz de incorporar todas as conquistas dos que o precederam e acrescentar suas próprias bossas. O repertório é que é eterno, capturado nos salões iluminados das gafieiras, na meia-luz dos cabarés dos anos 30 e 40, e trazido até nós com um brilho, um éclat, que o torna instantaneamente contemporâneo. Marcos faz misérias com “Deixa falar”, o samba do quase esquecido Nelson Petersen, com seu refrão contagiante (“Este samba tem Flamengo/ Tem São Paulo e São Cristóvão/ Tem pimenta e vatapá/ Fluminense e Botafogo/ Já têm seu lugar”) e com “Imperador do samba”, do, este sim, esquecidíssimo Waldemar Henrique (“Silêncio! Façam alas/ Ordem, respeito/ E nem um grito de bamba/ Quero os tamborins de grande gala/ Que vai passar o Imperador do Samba”). Aliás, dois sucessos originais de Carmen Miranda.

Há quatro parcerias de Noel, inclusive uma que se presta a todas as interpretações: “Mulato bamba”, sobre o bamba pelo qual as morenas vivem a chorar porque ele não quer “se apaixonar por mulher”. Junte a esta o “Fez bobagem”, de Assis Valente (“Meu moreno fez bobagem/ Maltratou meu pobre coração/ Aproveitou a minha ausência/ E botou mulher sambando no meu barracão”), para se ver como o samba podia ter um substrato gay, só faltando quem o revelasse. “Mulato bamba” nasceu com Mario Reis e “Fez bobagem”, com Aracy de Almeida, mas as versões de Marcos não lhes ficam nada a dever. E há duas recriações do insuperável Orlando Silva, “Meu romance” e “Errei, erramos”, em que Sacramento acerta em cantá-las à sua maneira, gerando interpretações também definitivas.

Não há nada que ele não possa cantar. Seu domínio é absoluto quando solta a voz e, se quiser, se adianta e se atrasa, faz recitativo ou breque, muda de tom no meio de uma palavra e aterrissa com perfeição na última sílaba, tudo isto com o maior balanço. Não é apenas um sambista perfeito, mas um cantor completo. Quando quer ser romântico ou “sério”, a mesma coisa. Não há muita gente por aí capaz dessas proezas.

Exagero meu? Não, porque não sou o único a pensar assim—comigo está muita gente boa, como a pesquisadora americana de música brasileira Daniella Thompson, os críticos Paulo Roberto Pires e Roberto Moura, o biógrafo Jonas Vieira, a escritora Heloisa Seixas. Mas ainda é pouco. A melhor música popular dos últimos tempos está sendo feita à revelia dos ouvidos até das pessoas que clamam por ela. Grandes discos saem quase em segredo, como outro fabuloso CD, este lançado em 2002 e que passou em branco pela mídia: Bossa Nova, de Arthur Verocai, revelando a sensacional cantora Sanny Alves. O disco de Verocai, por ser ultra-independente, só costuma ser encontrado na Modern Sound, no Rio (21-2548-5005), ou na Marché, em São Paulo (11-3034-2503). Mas Memorável samba, de Marcos Sacramento, está em todas as lojas — ou deveria estar, se é que elas vendem discos por causa da música.

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Artigo originalmente publicado na revista brasileira Foco: Economia e Negócios.

 


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