As Crônicas Bovinas, Parte 8a

Francisca Edwiges Neves Gonzaga (1847–1935)

Daniella Thompson

15 de outubro de 2011


Chiquinha Gonzaga na sua última foto, com 85 anos

Esta biografia foi tirada em 2002 do sítio da Biblioteca Nacional.

Infância e Adolescência

Filha natural de Rosa Maria de Lima, Francisca Edwiges nasceu em 17 de outubro de 1847. Para sua mãe, mulher pobre e mestiça, o nascimento de Francisca foi uma situação muito difícil, sobretudo porque não sabia se seu amado iria assumir a paternidade da menina. José Basileu, militar de carreira promissora, oriundo de família abastada, sofreu forte pressão de seus pais, que eram contra a sua união com Rosa. Mesmo frente a todas as discordâncias, assumiu a criança e a registrou como sua filha.

Como todas as sinhazinhas do século XIX, Francisca Neves Gonzaga foi educada para se tornar uma digna filha de militar, uma sinhazinha na corte de Pedro II. Seu pai, muito severo com sua educação, preparara para ela um futuro promissor: um bom casamento que pudesse elevá-la à categoria de “dama”. Desde cedo Francisca foi educada para isso, aprendendo a ler e a escrever, fazer contas e, principalmente, tocar piano. A música tornou-se sua grande paixão. Francisca crescia ao som de polcas, maxixes, valsas e modinhas e participava das festas domésticas com grande satisfação. Foi assim que, no Natal de 1858, compôs sua primeira música.

A sociedade patriarcal brasileira delegava poderes extremos ao homem; às mulheres, era oferecida apenas a reclusão do lar, a vida doméstica junto à criadagem escrava. Poucas mulheres ousavam desafiar seus pais e maridos; quando isso ocorria, logo eram reclusas em casas de correção e conventos.

Desde 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil, as mulheres passaram a circular mais pelas ruas, dançar em recepções festivas da Corte, comparecer a saraus, teatros e ópera. Mas o Rio de Janeiro dessa época ainda era a cidade das chácaras, com uma incipiente urbanização e uma população basicamente de negros e mestiços. A cidade, aos poucos, transformava-se em um centro metropolitano, à medida que cresciam as demandas do comércio exterior. As modas, costumes e o consumo se alteravam, ganhando ares europeus. O porto do Rio de Janeiro tornou-se o centro financeiro e comercial do Império, negociando-se café, escravos e mercadorias estrangeiras que deslumbravam os novos consumidores.Mesmo com todas as mudanças sociais, os padrões e a austeridade patriarcal permaneciam inabaláveis. Para a jovem Francisca, nada lhe restava a não ser obedecer às ordens de seu pai. Foi assim que, em 1863, com apenas 16 anos, Chiquinha casou-se com Jacinto Ribeiro do Amaral, “jovem garboso” de 24 anos, estatura média, olhos azuis, oriundo de família distinta e muito rica. Finalmente aquela menina iria transformar-se em uma dama...

Chiquinha Gonzaga os Chorões

O encontro de Chiquinha Gonzaga com o meio boêmio carioca aconteceu num momento de rebeldia da compositora. Seu casamento não ia bem, a separação era a única saída. Uma mulher separada no século XIX? Chiquinha pagou um preço alto. Foi expulsa de casa por seu pai, que, a partir daquele momento, renegou sua paternidade. Com o filho João Gualberto ainda no colo, ela partiu em busca de uma nova vida. Quem sabe era a oportunidade de seguir seu desejo: tornar-se uma compositora. Sem ter para onde ir, Chiquinha foi recebida pelo meio musical carioca, iniciando, então, um convívio fundamental para sua futura formação.

Conheceu músicos famosos, como Callado, que tornou-se seu amigo e protetor. Conhecido como Callado Jr. até a morte de seu pai, teve formação erudita, mas, desde cedo, era presença marcante nos grupos de choro do Rio e “pode ser considerado o criador do choro e nacionalizador da música popular”, segundo Edinha Diniz (Chiquinha Gonzaga: uma história de vida, RJ Codecri, 1984). Sua primeira composição editada, a polca “Querida por Todos” (1865), foi dedicada à Chiquinha.

Callado convidou-a para ser a pianeira de seu conjunto O Choro do Callado. Chiquinha começou a tocar em bailes e teatros recebendo dois mil réis por noite.

Chiquinha passou a frequentar festas e reuniões de chorões, compondo a polca “Atraente”, em 1877, que, editada na véspera de Carnaval, fez um enorme sucesso.

Chiquinha e o Teatro de Revista

Para Chiquinha Gonzaga, compor para o Teatro de Revista significava um retorno financeiro imediato, a conquista de um público maior e o reconhecimento como compositora. Em 1880 escreveu um libreto e tentou musicá-lo—tratava-se de uma peça de costumes ,Festa de São João, que manteve inédita. Somente em 1885 conseguiu estrear como maestrina em parceria com Palhares Ribeiro, compondo a opereta em um ato A Corte na Roça.

Aos poucos seu nome foi se firmando no meio teatral carioca, participando de vários espetáculos como compositora e regente: A Filha de Guedes (1885); O Bilontra e a Mulher-Homem (1886); O Maxixe na Cidade Nova (1886); O Zé Caipora (1887).

Ô Abre Alas que eu quero passar...

Por volta de 1899, Chiquinha mudou-se para o bairro do Andaraí. Lá, os cordões carnavalescos faziam grande sucesso, agremiando moradores e foliões de diversos cantos da cidade. Um dia, em sua casa, ao ouvir despreocupadamente os ensaios do cordão Rosa de Ouro, sentou-se ao piano e compôs uma marcha em homenagem ao grupo. Assim nasceu a primeira música de carnaval. Até então, nenhum compositor havia elaborado uma composição para um cordão carnavalesco, o que existia eram estribillhos populares, sem melodia elaborada Edinha Diniz, (op. cit. p. 186). A marcha “Ô Abre Alas” tornou-se o seu maior sucesso e é tocada até hoje em todos os bailes carnavalesco.

A melhor divulgação para a nova marcha foi mesmo o teatro. Na peça Não Venhas, Chiquinha a incluiu no repertório, sendo a marcha muito bem aceita pelo público. Era o carnaval que ganhava o teatro, “numa época em que as classes sociais mantinham seus espaços rigidamente definidos. Chiquinha não hesita em trazer para o salão o que era da rua.” (Diniz, op. cit. p. 186)

Uma Maestrina de Sucesso

Para os seus contemporâneos, era impossível para uma mulher fazer sucesso e sobreviver de música, mas Chiquinha foi pioneira. Após o sucesso da polca “Atraente”, suas músicas ganharam os salões, os teatros e as ruas. Além de regente, era “pianeira” de grupos de choro e dava aulas de piano, o que garantia o seu sustento.

A partir de 1847, surgiram vários convites para compor e reger operetas e peças do teatro de revista. Sua popularidade crescia cada vez mais, sendo chamada de “Offenbach de saias”. Seus maxixes e polcas eram muito elogiados pela imprensa, o que lhe garantia uma melhor aceitação em diversos meios sociais e o status de maestrina. Chiquinha conquistava assim, através de seu trabalho para teatro, um verdadeiro título honorífico. “A condição de maestrina, para ela, era equivalente ao cobiçado anel de doutor.” (Diniz, op. cit. p. 136) Cada partitura assinada por ela era certeza de sucesso imediato, teatros lotados e muitas edições vendidas. Na récita da peça A Filha do Guedes, por exemplo, “foi muito aplaudida, e recebeu de seus muitos admiradores vários mimos de valor, muitos ramalhetes e uma bonita coroa...”

Em 1889, organizou uma “festa artística” em homenagem ao maestro Carlos Gomes. O anúncio da récita dizia:“ Francisca Gonzaga regerá todas as suas composições musicais. Assistirão a este concerto SS.MM e AA Imperiais.” A festa foi um sucesso, iniciando-se o programa com O Guarani. Em seguida, Chiquinha levou para o palco suas composições populares, sempre acompanhada por instrumentistas amadores, algo totalmente novo para o público elitista do Teatro São Pedro.

Já prestigiada no meio musical, em 1903 Chiquinha inicia a luta pela defesa dos direitos autorais e em 1913 lança a campanha para a legalização da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT). Tudo começou quando a maestrina viu, numa loja em Berlim, várias composições suas gravadas e editadas por Fred Figner sem a sua autorização. A compositora após diversas tentativas de reaver seus direitos fez um acordo com o editor e recebeu 15 contos de réis pelas músicas editadas sem sua autorização. Esta contenda deu ensejo às primeiras discussões sobre direito autoral no Brasil. “Em 1916 o Congresso Nacional aprovava o projeto do Código Civil Brasileiro, cuja lei nº 3.071 dispunha sobre a propriedade literária e artística e, desta forma, fortalecia os direitos autorais. Logo depois, o Brasil reconhece oficialmente os direitos dos autores franceses que passavam a exigir 10% sobre a receita bruta” (Diniz, op. cit. p. 213). O autor nacional começava a ter suas leis protetoras e seus direitos. Era o momento de Chiquinha Gonzaga concretizar sua antiga idéia: criar um órgão representante dos autores nacionais. “Aos 27 de setembro de 1917, na sede da ABI...foi instalada a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais...sendo aclamada a Diretoria Provisória compostas dos Senhores Oscar Guanabarino, Viriato Corrêa Gastão Tojeiro e Chiquinha Gonzaga” (Diniz, op. cit. p. 214). A SBAT consolidou-se como forte instituição protetora dos autores teatrais e Chiquinha Gonzaga foi sempre lembrada como símbolo dessa luta.

 

 

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