:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 9

A fantástica flor do abacate.

Daniella Thompson

28 de maio de 2002


Flor do Abacate

Enquanto eu procurava por uma foto apropriada para embelezar esse artigo, minha curiosidade botânica despertou, e aprendi que o cultivo comercial de abacate se tornou viável somente após o Dr. Arlow Burdette Stout (1899–1956), o pioneiro em uvas sem semente, ter descoberto em 1927 que o comportamento da flor do abacate é único no reino plantæ. A flor possui ambos os órgãos femininos e masculinos, mas eles não funcionam ao mesmo tempo. Cada flor é fêmea quando desabrocha, seu estigma recebe pólen de outras flores de abacate, mas ela permanece aberta por apenas duas ou três horas. No dia seguinte, ela abre de novo como uma flor masculina, dispersando pólen. Após ficar aberta por algumas horas no segundo dia, a flor fecha novamente, dessa vez para sempre.

É improvável que os fundadores do rancho carnavalesco Flor do Abacate conhecessem o comportamento sexual da sua flor escolhida, tendo organizado seu clube décadas antes de o Dr. Stout ter feito sua descoberta. O momento exato em que os ranchos carnavalescos apareceram pela primeira vez no Rio é polêmico. O Dicionário da MPB de Ricardo Cravo Albin fixa a data em 1872, enquanto que Gilberto Freyre e Mário Souto Maior colocam-na entre 1906 e 1911.

No artigo Carnaval: De Onde Veio? Como Era? Como Evoluiu?, Freyre e Souto Maior escreveram:

Os ranchos são quase uma decorrência do pastoril com os traços totêmicos introduzidos no Brasil pelos negros sudaneses, assegura Nina Rodrigues. Os nomes dos ranchos são vegetais, evocando sua ascendência totêmica: Flor do Abacate, Recreio das Flores, Flor da Lira, Lírio Clube, Rosa de Ouro, Ameno Resedá, Rosa Branca, Papoulas, Flor de Romã. Os primeiros ranchos apareceram entre 1906 e 1911, e foram o Dois de Ouro, da Tia Dadá e João Câncio; o Jardineira, de Hilário; o Botão de Rosa, de Dudu e o Rei de Ouros, de Tia Asseata.

Os membros de ranchos geralmente tinham origens humildes. A inspiração e os temas principais dessas associações festivas viajaram de Portugal para a Bahia, onde procissões folclóricas religiosas (Pastoril ou Folia de Reis) eram uma tradição entre a Véspera de Natal e o Dia de Reis (6 de janeiro).

Os ranchos utilizavam temas pastoris (os coros femininos das escolas de samba ainda são chamados de pastoras, um vestígio dos ranchos), e muitos levavam nomes de flores. O mais famoso entre eles possui o divertido nome de Ameno Resedá. Chiquinha Gonzaga compôs sua famosa marcha-rancho “Ô Abre Alas” para o rancho Rosa de Ouro. Flor do Abacate, na sua vez, foi o homenageado de uma famosa polca.


Rancho Flor do Abacate (Careta, Carnaval 1921)

Melodia No. 9: “Flor do Abacate” (1915)

A polca “Flor do Abacate” foi composta por Álvaro Sandim (1862–1919), trombonista e diretor de harmonia na Sociedade Dançante Carnavalesca Ninho do Amor que, em 1913, abandonou esse clube e se juntou ao rancho Flor do Abacate. Esse rancho tinha o seu lugar no Largo do Machado no Catete, o mesmo bairro que acolheu seu rival, o grande Ameno Resedá. Sandim tornou-se diretor musical do rancho e desfilou à frente de sua orquestra no carnaval. Essa orquestra era repleta de músicos de primeira linha da época, incluindo o jovem saxofonista (futuramente mestre de orquestra) Romeu Silva (1893–1958), que seguiu Sandim desde o Ninho do Amor. A mãe de Dona Ivone Lara era uma pastora no rancho (D. Ivone a chamou de “crooner”).

Em 1915, Sandim compôs a polca que imortalizou o nome do Rancho e seu próprio nos anais do choro (há até um grupo de choro chamado Flor de Abacate).

A parte A de “Flor do Abacate” aparece aos 4min 05s na gravação que Louis de Froment fez do Le Boeuf sur le Toit.

Na base da dados da Fundação Joaquim Nabuco, as gravações mais antigas listadas da polca são as seguintes:

Autor: Álvaro Sandim “Santini”
Título: Flôr do Abacate
Gênero: Polca
Intérprete: Solo de Trombone pelos Chorosos do Abacate
Gravadora: Phoenix
Número: 70711

Autor: Álvaro Sandim
Título: Flôr do Abacate
Gênero: Polca
Intérprete: Grupo Faceiro
Gravadora: Phoenix
Número: 001
Matriz: 2001

Essa gravação é provavelmente a mais famosa, talvez ofuscada apenas pela interpretação de 1960 do próprio Jacob do Bandolim:

Autor: Álvaro Sandim
Título: Flor do Abacate
Gênero: Choro
Intérprete: Jacó (bandolim)
Gravadora: RCA Victor
Número: 80.0623-A
Matriz: S-078883
Data gravação: 12.05.1949
Data lançamento: Out/1949

Muitas outras gravações foram feitas, incluindo algumas pelos mestres do choro Waldir Azevedo, Ademilde Fonseca, Altamiro Carrilho e Baden Powell, com uma contribuição recente de Zé da Velha e Silvério Pontes.

A partitura original para piano pela Casa Beethoven não incluiu a letra, mas em algum momento Felipe Tedesco a escreveu (e o acento circunflexo em ‘Flôr’ caiu). Essa é a letra cantada por Hebe Camargo em 1958, por Solon Sales em 1959 e por Ademilde Fonseca em 1960.


Hebe Camargo

Autor: Álvaro Sandim - Felipe Tedesco
Título: Flor de Abacate
Gênero: Maxixe
Intérprete: Hebe Camargo
Gravadora: R G E
Número: 10130-B
Matriz: RGO-812
Data lançamento: Nov/1958

No programa popular de Rádio do Almirante O Pessoal da Velha Guarda, apresentado no final da década de 40 e início da de 50, a música foi uma das mais requisitadas pelos ouvintes. Em um dos programas, o locutor introduziu uma apresentação ao vivo de “Flor do Abacate” assim:

Agora que adotamos aqui no O Pessoal da Velha Guarda o sistema de atender a quaisquer pedidos de nossos ouvintes, podemos avaliar perfeitamente a decidida preferência que há por certas músicas. Uma das que são mais pedidas, é a mais que famosa “Flor do Abacate”, de Álvaro Sandim. Álvaro Sandim foi um trombonista de merito, e é por essa razão, como uma homenagem ao autor, que Pixinguinha entregou partes destacadas desse arranjo que escreveu aos trombones da Velha Guarda. “Flor do Abacate” é que a vai agora, por insistentes pedidos de ouvintes, entre os quais queremos citar D. Almeirinda Rocha, Coronel Arthur Borges, Dr. Ricardo Sul, Mario Mendonça, e Luiza Fonseca, aqui do Rio.

O trecho sonoro apresentado aqui é a parte A da gravação coquete e deliciosa de Hebe Camargo no lado B de um disco 78 rpm.

Dijalma M. Candido, que me enviou esta gravação, também forneceu a letra:

Flor do Abacate
(Álvaro Sandim/Felipe Tedesco)

Você veio comigo falar (porquê?)
Pra comigo você namorar (sentei)
E num lindo jardim todo em flor, depois
Nós trocamos juras de amor

Um abraço você quis me dar (não dei)
Um beijinho você quis roubar (neguei)
De mãos dadas ficamos a contemplar
A Lua, que insistia em nos provocar

Mas como a noite estava linda
E o luar, também
Nós dois sentados entre as flores
Sozinhos, e mais ninguém
Num momento em que a lua se escondeu
Meu bem, o meu coração lhe pertenceu

 

 

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