O Pessoal da Velha Guarda

Programa No. 11

Transcrito por Alexandre Dias


Pixinguinha

10-3-1948
(Collector’s AER027 Lado A)

Almirante: Boa noite, ouvintes de Brasil! Fãs da Velha Guarda, boa noite. Preparem-se mais uma vez para voltar ao passado nas asas dessas melodias cheias de encantamento. Preparem-se para evocar os bons tempos em que não filas, nem comandos, nem a pressa assassina dos nossos dias. Ao organizarmos cada uma dessas audições, nosso pensamento vai todo para você, que nos deve estar ouvindo agora.

Cada música que escolhemos, é objeto de considerações especiais. E por fim, só incluímos nessas meias horas aquelas que nos deixam a certeza de que hão despertar saudades, que hão de encher você de pensamentos bons e de lembranças amáveis.

Naturalmente que não podemos adivinhar a preferência de todos, mas por isso, repetimos sempre o convite para que vocês nos orientem, nos digam que músicas desejam ouvir. Se não houver alguma dificuldade intransponível, podem estar certos de que todos os pedidos de vocês serão atendidos. E quando vocês estiverem se deleitando com as músicas que vocês mesmos nos indicaram, não se esqueçam de aplaudir, mesmo aí de suas casas, como fazem os que se acham nesse auditório, os bambas dessas audições: o Pixinguinha, com o seu saxofone! O Benedito Lacerda com a flauta e o seu famoso regional! O Raul de Barros, seu bombardino e o Grupo dos Chorões! E a Orquestra toda formada do Pessoal da Velha Guarda!

[Paulo Tapajós cantando um trecho de “Clélia” (Luiz de Souza)]

Almirante: Principiava assim uma das mais queridas cantigas de seresteiros da Velha Guarda. Seu autor, Luiz de Souza, foi o pistonista que pertenceu à famosa Banda do Corpo de Bombeiros no tempo do saudoso Anacleto. Luiz de Souza principiou sua vida como músico do exército. Pertenceu ao Ameno Resedá, para o qual escreveu números de grande sucesso. Foi mais tarde diretor da Orquestra do cinematógrafo Paris-[?], que ficava ali na avenida Rio Branco, lembram-se?

É pois de um chorão de respeito a polca-choro que vai abrir essa audição. Trata-se de uma que se chamou “Corroca”, e que vocês ouvirão pela flauta de Benedito e pelo Saxofone do Pixinguinha e acompanhamento do regional.

Pixinguinha, Benedito e regional: “Corroca” (Luiz de Souza)

[Pistões da orquestra fazendo sons de palmípedes]

Almirante: Ei! Sosseguem aí, marrecos! Sosseguem marrecos aí, sosseguem! Esperem um pouco que a vez de vocês vai chegar! Esses marrecos que o Pessoal da Velha Guarda contrata para executar um certo número de Pixinguinha, ouvintes, eles são por demais impacientes. Mal a gente os coloca aqui no palco, eles se põem logo a berrar, e a gente não pode dizer mais nada. Calma aí, marrecos! Hm!

Eles só sossegam um pouco quando vêem o maestro levantar o braço pra dar início à música. Aí então eles se acomodam, sentam-se nas suas cadeiras, e ficam atentamente lendo a música que tem aí na estante. E aí, por incrível que pareça, esses palmípedes, como que se transformam em músicos, em professores de orquestra, vejam só...

Nessa polca-marcha que vão apreciar em seguida, quando vocês ouvirem grasnar, não pensem que são os pistões, não... São os legítimos marrecos, que lá estão firmes, grasnando na hora exata. A música é dedicada a eles, pois o Pixinguinha denominou mesmo “Marreco Quer Água”. A execução está, como disse, confiada aos marrecos e à Orquestra do Pessoal da Velha Guarda.

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Marreco Quer Água” (Pixinguinha)

Almirante: A cançoneta foi um gênero curiosíssimo que, não se sabe por quê, caiu completamente de moda. Foi número indispensável no teatro, nas festinhas familiares, etc. Até bailes eram interrompidos para que em certa altura se formasse roda, e um declamador, acompanhado ao piano pela indefectível Dalila, ou um cançonetista, acompanhado também ao piano, viesse distrair um pouco a platéia. Se isso se desse hoje em dia, de um poema ou um cantor cismado em interromper um baile para declamar ou para cantar, não nem até o meio do número, não é mesmo? Se o negócio se passasse em casa grã-fina, 15 segundos depois de ele começar, já o salão estaria completamente vazio. Se estivesse em casa de gente meio rústica, o camarada seria impiedosamente vaiado e talvez mesmo apedrejado. O mundo de hoje é inteiramente diverso do de ontem. O que se admitia ou que se apreciava ontem, hoje ninguém mais admite ou aprecia.

O número de agora servirá como bom teste. Vai ser recordada agora uma célebre cançoneta de mais de 50 anos. Seu nome é “Seu Anastácio Chegou de Viagem”. Os versos exploram as aperturas de um coronel do interior que veio visitar a capital federal e voltou para o seu vilarejo assombrado, contando como os seus olhos viram e entenderam certas coisas dessa grande cidade daquele tempo. Os moços não conhecerão a cançoneta, é certo. Mas eu duvido que qualquer ouvinte mais avançado em anos não se recorde, e até não cantarole daí mesmo esses versinhos ingênuos do “Seu Anastácio Chegou de Viagem”, que vão ouvir na voz do França.

Seu ’Nastácio chegou de viagem
Nós viemos saber como está
[bis]

E de nós o que é mais curioso
Há de ter qualquer coisa a contar
[bis]

Tem razão meu amigo, e [?]
O Roceiro que vai na cidade
[bis]

Se não morre de febre amarela
Vai na certa trazer novidade
[bis]

Ô capitarzinha boa
Lá na casa em que eu fui hospedado
O cumpadre [?]
Seu Antônio, que é moço sabido
Me levou no [?]
[bis]

Pra dizer que a igreja não é
Mas aquele que morre matado
[bis]

A polícia encafua lá dentro
Como um porco vai ser retalhado
[bis]

Pois o caso que vou lhes contar
Faz a gente ficar sucumbida
[bis]

Só inteiro se enterra na cova
Os que morrem de morte morrida
[bis]

Deu nas costas da praia do mar
Um defunto, cadáver já morto

Afirmaram então os presentes
Que o sujeito era filho do porco

Veio o Teba mandando informar
E foi logo cortando o freguês
[bis]

Fez exame nas tripas do [?]
Descobriu que o homem era inglês
[bis]

É curioso observar a influência que nossa música vem sofrendo periodicamente dos ritmos e das melodias estrangeiras. A valsa, por exemplo, já depois de aclimatada entre nós, já depois de ter se fixado por aqui sob uma forma nitidamente nacional, possuindo modalidades só nossas, só brasileiras; a valsa, há uns 30 ou 40 anos, começou a revelar uma forte influência Ibérica. Compositores daquele tempo especialistas em valsas, esmeravam-se em produzir por aqui peças com todas as características das que nos chegavam da Espanha com a sua forma bimbalhante, peciva, em cuja melodia e em cujo ritmo andava todo o reboliço e estridor das castanholas. É desse período a célebre valsa que irão ouvir em seguida. Seu autor foi um popularíssimo pianista dessa cidade, o Aurélio Cavalcanti. Reparem quando saleiro conseguiu ele introduzir nessa valsa que ele denominou “Buenos Dias”, e que aqui vai ser executada por El Personal de la Vieja Guardia, Olé!

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Buenos Dias” (Aurélio Cavalcanti)

[Percussão]

Almirante: >O samba, a notabilíssima forma musical brasileira, que teve a bem dizer seu início nessa cidade há trinta anos atrás, já tem sua existência marcada por milhares de exemplos que provam sua riqueza de possibilidades. No gênero já surgiram verdadeiras jóias, que ficaram marcando etapas na existência da gostosíssima modalidade musical. E é um exemplo famoso do passado que trazemos agora para você. Tem somente vinte anos, pois surgiu em fins de 28. Tendo sido o maior sucesso do Carnaval do ano seguinte, seu autor já era então compositor consagrado, seu nome, José Francisco de Freitas. Fora autor da celebérrima “Zizinha”, da “Eu Vi [Você Beliscar] Lili”, etc., etc., etc.

Para relembrar o samba que se segue, fomos buscar um novo chorão, o Jorge Veiga. Quando apareceu o samba em questão, ele foi gravado pelo Mario Reis. Sua inconfundível maneira de cantar será aqui num pequenino trecho lembrada pelo Jorge Veiga. Atenção, pois, ouvintes, vai passar o Grupo de Chorões recordando o lindíssimo samba “Dorinha, Meu Amor” de José Francisco de Freitas.

Jorge Veiga, coro, Raul de Barros e Grupo de Chorões: “Dorinha, Meu Amor” (José Francisco de Freitas)

[“Dobrado Brasil”, cantado por coro]

Almirante: O autor desse notável hino que ouvem, é um advogado campista de nome Tiecio Cardoso. Compositor inspirado, Dr. Tiecio Cardoso tem escrito também outras músicas que, por modéstia, por despreocupação, por desinteressem mesmo em mover questões fora da sua verdadeira atividade, vão ficando desconhecidas do grande público, uma vez que o autor não a [?].

Felizmente, temos agora a possibilidade de dar a vocês uma prova da inspiração do competente advogado. Quando Pixinguinha esteve em Campos em 1917, conseguiu escrever uma de suas músicas, um choro alegre que se denominava “Que Perigo”. Não se sabe bem se o título é uma advertência aos acompanhadores ou aos próprios solistas. O choro é realmente um perigo, e exige de todos um declarado virtuosismo. Com esse choro fica provado o ecletismo de seu autor. Que tanto compõe vibrantes canções patrióticas, como escreve choros brejeiros para flauta e violão. Vamos lá, Pessoal da Velha Guarda. Vamos lá, Benedito e Pixinguinha e regional. Vamos á música do autor do “Dobrado Brasil”, vamos ao “Que Perigo”!

Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional: “Que Perigo” (Tiecio Cardoso)

 

Programa No. 12

O Pessoal da Velha Guarda


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