O Pessoal da Velha Guarda

Programa No. 4

Transcrito por Alexandre Dias


Anacleto de Medeiros

5-11-1947
(Collector’s AER023 Lado B)

Almirante: Boa noite, ouvintes de todo o Brasil. Apostos a turma que aprecia o Pessoal da Velha Guarda. Gratos pelas manifestações de vocês aos comentários com que sempre iniciamos as nossas audições, comentários que só tem a finalidade de ajudar um pouco a nossa desprezada música popular. É nesse intuito que vimos hoje chamar a atenção de vocês para a maneira como certos cantores deturpam as melodias. Ao invés de cantarem as melodias exatamente como os compositores as escreveram, eles, os cantores, ou por serem duros de ouvido ou por acharem de colaborar alteram as notas que o autor imaginou. Uma única nota que se altera em uma melodia é tanto erro como a mudança de uma letra numa palavra. Façamos aqui uma demonstração com uma palavra qualquer, por exemplo, a palavra estrela. Se alguém, por espírito inovador, achar que em vez de e inicial deva ser a, já a palavra não será mais estrela, não é mesmo? E sim astrela. Se mudar o l para b fica estreba, e assim por diante, assim como qualquer letra que fosse mudada por outra. Pois isso mesmo acontece com as melodias o cantor não deve de maneira alguma trocar as notas originais, é por isso que muitas vezes ouvem-se pelo rádio versos que a gente conhece como sendo das melodias tais e quais, mas cantados dentro de músicas inteiramente diversa, diversas daquelas que a gente conhece. Foi ouvintes, o cantor que cismou de cantar a melodia que resolveu de inventar naquela hora. Por esse processo um dia vocês ainda vão ouvir músicas célebres apresentadas assim. Vão ouvir a baixa do sapateiro, e vem o cantor e canta uma coisa assim [Almirante canta uma melodia completamente torta]:

Na baixa do sapateiro encontrei um dia a morena mais frajola da Bahia

Aqui na Velha Guarda vocês notarão sempre que há um respeito absoluto pelas melodias originais. E isto faz com que a gente deva aplaudir mais vivamente esses bambas que por todos os meios preservam o nosso patrimônio artístico. O grande Pixinguinha! O Benedito Lacerda com o seu regional! O Raul de Barros com o Grupo de Chorões! E a orquestra formada exclusivamente do Pessoal da Velha Guarda.

Coro: A Europa curvou-se ante o Brasil, e clamou parabéns em meio tom

Almirante: Os mais importantes acontecimentos aviatórios de brasileiros ou ocorridos no Brasil vieram a marcá-los uma ou outra música popular. A mais famosa de todas foi sem dúvida a que Eduardo das Neves apresentou para cantar a glória de Santos Dumont quando contornou a Torre Eiffel em 1901. Um quarto de século depois, registrando o feito heróico de outros patrícios, popularizava-se por aqui outra marchinha alegre, esta de Salvador Correia:

Salve o Jahú, às de [?], as tuas asas representam a bandeira brasileira!

Almirante: Muitas outras músicas porém surgiram para exaltar os nossos feitos aeronáuticos. Nenhuma, entretanto, teve a felicidade daquelas duas. Mas como todas correspondiam a um registro histórico, não deixavam de ter por isso um grande valor. A música que vai abrir a audição de hoje do Pessoal da Velha Guarda, foi uma homenagem que Ernesto Nazareth prestou a um dos primeiros aeronautas que subiram em balão nesse Rio de Janeiro. O capitão português Antônio da Costa Bernardes, o famosíssimo Ferramenta. Que riscou os nossos ares com o seu falado balão Nacional. Tanto sucesso fez, e tão popular ficou, que logo mereceu da musa anônima das ruas um estribilhozinho pitoresco que andou de boca em boca e que era a sua definitiva glorificação: Olá seu Ferramenta, você sobe ou arrebenta! O capitão Ferramenta tinha espírito yankee de propagandista. Em sua primeira ascensão em maio de 1905, mal o seu balão se elevou depois de se soltar das amarras, os espectadores, que eram as milhares ali no campo de Santana, começaram a ver que da barquinha se desprendiam os objetos. Ei, que seria aquilo hein?. Eram prospectos de propaganda de uma casa de guarda-chuvas em forma de pára-quedas. Eram balas às centenas, e eram partes de piano impressas em papel de ceda. é, pois, música de grande valor histórico essa de Ernesto Nazareth que vocês vão ouvir agora pela Orquestra do Pessoal da Velha Guarda. É o tango-fado português denominado o “Ferramenta”.

Orquestra Pessoal da Velha Guarda, arranjo de Pixinguinha: “Ferramenta” (Ernesto Nazareth)

Almirante: Os assuntos sertanejos sempre influíram na inspiração dos nossos poetas e dos nosso compositores. Tema infinito em encantamento, o sertão forneceu aos compositores e poetas da cidade algumas de suas melhores e mais enternecidas obras. Dentre as muitas produções musicais que decantaram a terra, a gente e os costumes do interior, destaca-se uma canção considerada hoje a mais famosa canção do gênero, da autoria de Hekel Tavares e Luiz Peixoto, denominada casa de caboclo. Essa notável canção brasileira será recordada agora para matar as saudades de inúmeros de vocês, ouvintes.

Paulo Tapajós: “Casa de Caboclo” (Hekel Tavares/Luiz Peixoto)

[Trecho de “André de Sapato Novo”, na interpretação de Pixinguinha e Benedito]

Almirante: Vocês espertos já identificaram esse choro que Benedito e Pixinguinha e o Regional estão lembrando agora, não é mesmo? É o “André de Sapato Novo”. Ele aparece aqui a propósito de um outro choro que vocês irão ouvir daqui a pouco.

É muito velho entre os chorões o hábito de dar às músicas um título que signifique bem a amizade que os ligava a certos indivíduos.

Os títulos por vezes na sua gaiatice revelavam as circunstâncias em que tinham surgido as músicas. Eram títulos assim: “Sustenta a Nota Seu Bandeira!”, “Agüenta Seu Fulgêncio”, “Nascimento”, “Segura Ele”, “Gadu Namorando”, “André de Sapato Novo”, etc., etc.

Pixinguinha e Benedito há tempos foram recebidos na casa de um amabilíssimo negociante de vinho. Ali provaram mil e uma qualidades de vinhos numa deliciosa mistura que fez com que ambos em poucos instantes passassem a verificar o acerto da famoso frase latina In vino veritas. O querido anfitrião lhes ofereceu uma tão profusa variedade de bebidas que Benedito e Pixinguinha acabaram iluminados pela verdade. Pela verdade que lhes ditava que a única maneira de agradecer àquela amabilidade única* era por meio de uma música que fixasse o que eles viam naqueles momentos alegres.

É essa composição que tem um significado de um agradecimento que vocês ouvirão agora e o seu nome é: “Seu Lourenço no Vinho”.

Pixinguinha e Benedito Lacerda: “Seu Lourenço no Vinho” (Pixinguinha)

Almirante: Longe vão os tempos em que proliferavam nesta cidade as academias de dança. Ouvindo falar em academias de dança, muitos poderão pensar que tinham alguma semelhança com isso que hoje se chama escola de dança. Não, ouvintes, eram completamente diferentes. Escola de dança hoje é lugar onde vão as pessoas, isto é, só vão os homens, porque as damas já estão lá, só vão os homens que já sabem dançar e querem dançar um pouco. As antigas academias, porém, eram inteiramente diferentes. Eram verdadeiros cursos onde cavalheiros e damas iam para aprender a dançar. Para exibir depois suas artes coreográficas, havia os bailes, as festas, etc. Ou também com os professores particulares, que eram muitos, os dançarinos aprendiam os passos e os meleixos de todas as danças da época. Em tamanha conta eram tidos os professores de dança, que segundo os cronistas do tempo, os alunos mandavam buscá-los às suas casas em carruagens luxuosamente atreladas e lhes pagavam pingues ordenados.

Os professores e as academias tinham grande influência nos ritmos dançantes. Se eles ainda existissem até hoje, procurando influir na preferência de seus alunos, talvez não tivessem desaparecido dos salões os ritmos encantadores da mazurca, da polca e do xótis. Este último então é lamentável que tenha desaparecido de todo no Brasil.

Vamos exibir aqui, executada pela Orquestra, um dos esplêndidos que nos deixou Anacleto de Medeiros, a de nome “Implorando», para que todos, ouvindo-a, possam avaliar que bons momentos repletos de graça e delicadeza teriam os bailes de hoje se ainda fosse dançadas músicas como esta.

Orquestra Pessoal da Velha Guarda, arranjo de Pixinguinha: “Implorando” (Anacleto de Medeiros)

Almirante: Nós vamos trazer agora para vocês uma música que surgiu numa época muito pitoresca desta cidade. Era uma crítica às inúmeras instituições da cidade que, a partir de 1925, mandavam para as ruas centrais senhoras e senhoritas a vender flores munidas de um cofre onde o público ia colocando os seu óbolos.

A coisa começou com a venda das margaridas, vieram depois outras flores, cada instituição de caridade inventava um dia dedicado a uma flor. Depois, por originalidade, vieram os dias de medalhinhas, de emblemas, de penas, e até houve o dia do pão. Tudo muito louvável, mas é que o povo já andava escabriado de tanto peditório e já ninguém mais enfrentava de boa vontade as amáveis, e por vezes lindas vendesses. Foi como crítica de tantos dias de flore e legumes e como um eco das suposições que o povo fazia a respeito daquelas coletas, que surgiu um samba chamado “Caridade” da autoria de Sebastião Neves e Anísio Mota. É isso que vamos relembrar agora nessa passagem do Grupo dos Chorões, e para o qual eu peço que seja auxiliado pelo imenso coro do nosso auditório.

Almirante, Grupo dos Chorões, Raul de Barros, Pixinguinha, Benedito Lacerda e Coro: “Caridade” (Sebastião Neves/Anísio Mota)

Já é demais tanta caridade
Já não se pode transitar pela cidade
[bis]
Segunda-feira é do repolho
Terça-feira é do abacate
Quarta-feira é do pepino
Quinta-feira é do tomate
Sexta-feira elas preparam
Mais um golpe inteligente
E no sábado saem à rua

[?] toda a gente

Refrão

O domingo é o de santo
As moedas são contadas
Vai-se então o dividendo
Numa conta de chegadas
Os jornais dão o produto
Com a nota triunfante
E à tarde comparecem
Pra gozar o chá dançante

Refrão

Almirante: Não tem conta os ouvintes que pedem para que o Benedito e Pixinguinha executem nesses programas as formidáveis variações que o Pixinguinha um dia escreveu sobre o popular “Urubu Malandro”. Nesse número, em que a flauta e o saxofone se defrontam medindo forças [Benedito começa a improvisar] como num legítimo desafio, vocês vão poder apreciar demoradamente a virtuosidade e a força de espírito e a audácia desses dois queridíssimos artistas. Em certa altura das variações, quando a luta é mais acesa, vocês irão apreciar um curiosíssimo diálogo entre a flauta e o saxofone. Eu daqui convido vocês a fazerem um esforço para entender o que um instrumento está dizendo ao outro. Serão desaforos hein? Serão nomes? Serão amabilidades? Sei lá, vocês que entendam essa linguagem sonora.

Benedito Lacerda, Pixinguinha e Regional: “Urubu Malandro” (Louro/Pixinguinha)

= = =

* Uma brincadeira que Almirante fez em homenagem aos patrocinadores do programa, a empresa Vinhos Único.

 

Programa No. 5

O Pessoal da Velha Guarda


Copyright © 2003–2012 Daniella Thompson. All rights reserved.