O Pessoal da Velha Guarda

Programa No. 6

Transcrito por Alexandre Dias


Regional do Benedito Lacerda

19-11-1947
(Collector’s AER024 Lado B)

Almirante: Boa noite, ouvintes de todo o Brasil! Boa noite amigos da tradição e das boas coisas de nosso passado. Especialmente da música, que é o que apresenta esse Pessoal da Velha Guarda. Ao iniciarmos essa audição, queremos um minuto para fazermos um pequeno comentário sobre um hábito mau, que põe em cheque nossa atual música popular, deixando a impressão de que ela é inferior à de outras terras. É o seguinte. Costumam os fanáticos pela música estrangeira comparar a nossa produção com a de outras terras baseando-se no que aqui aparece gravado me discos. Esquecem, porém, de que nós recebemos, digamos, mais ou menos 50 discos de fora a cada mês. Estes 50, são o que existe de melhor pelo mundo afora. Uma nata de perto, talvez, de 1.000 discos editados no estrangeiro, e que não vêm todos para cá. Para cá só nos mandam o que lá consideram o melhor. Não só como música, mas também como gravação técnica e como qualidade sonora. Pelo nosso lado aqui, as três fábricas que aqui existem apresentam a cada mês uns 50 discos de música brasileira. Ora, esses 50 são o total. Total de coisas boas e de coisas ruins. A rigor, e nem podia deixar de ser, só umas 4, 5, 6 ou 8 no máximo gravações estariam em condições de serem comparadas àquelas 50 boas estrangeiras que nos chegam a cada mês. Essa é que é a lógica. Se nós aqui recebêssemos de fora todos aqueles 1.000 discos que lá se imprimem, vocês viriam quanta porcaria também existe por lá por esses países, onde muitos pensam que tudo é perfeito. Mas o que acontece é isso: comparam aqueles 50 discos brasileiros, dos quais nós mesmos sabemos que só 5, 6 ou 8 se podem prestar a confrontos, com os 50 excelentes que nos chegam da estranja. Ora, assim como diz a anedota, não há bicho que resista.

Mais benevolência exagerada aos fanáticos da música de fora. Mais amor às coisas de sua própria terra, olhando com olhos mais patrióticos para os que nós aqui produzimos. Tomem umas aulas de brasilidade com esses bambas como Pixinguinha (muitos aplausos), como Benedito Lacerda com o seu Regional (aplausos calorosos), o Raul de Barros com o Grupo dos Chorões (muitos aplausos e gritos), e a orquestra toda do Pessoal da Velha Guarda (aplausos).

Vamos iniciar a audição de hoje com um dos mais curiosos choros de Pixinguinha. Trata-se de uma música com obrigações destacadas para todos os elementos que participam da execução. E como sua execução está confiada ao Benedito na flauta, ao Pixinguinha no saxofone ao Dino e Meira nos violões, ao canhoto no cavaquinho, ao Gilson do Pandeiro e ao Pedro no Ganzá, isso é que vale dizer que todos vão ter muito trabalho nesse choro. Ele é portanto bom para a abertura de um programa como esse porque vai servir para desenferrujar os dedos de todos esses bambas. Apreciem as misérias que todos vão ter que fazer nesse notável choro que se chama “Sofres Porque Queres”.

Pixinguinha, Benedito e Regional, Dino, Meira, Canhoto, Gilson do Pandeiro, Pedro: “Sofres Porque Queres” (Pixinguinha)

[Marcha Fúnebre de Chopin]

Almirante: Há 50 anos atrás, uma morte trágica ocorrida no antigo arsenal de guerra enchia de consternação essa cidade. Estávamos a 5 de novembro de 1897, era Presidente da República Prudente de Moraes, e seu Ministro da Guerra o Marechal Carlos Machado Bittencourt. Naquele dia, ia o Presidente fazer uma visita de inspeção a tropas que chegavam da Bahia. Quando desembarcava do escaler no arsenal de guerra, de volta de sua missão, ao se encaminhar para seu carro, repentinamente o soldado Marcelino Bispo de Melo avança apontando-lhe uma arma. Prudente de Moraes desviou o corpo ao mesmo tempo que com o chapéu alto fazia um movimento instintivo para afastar o cano da arma. Pessoas que acompanhavam o Presidente avançaram para o agressor, que não pôde logo ser dominado tal a ferocidade de que estava possuído. Depois de lutar encarniçadamente, em certo instante sorrateiramente estacou de uma faca e golpeou aqueles que o tentavam subjugar. O Marechal Bittencourt, Coronel Mendes de Moraes, e os alferes Mendes de Faria e Oscar de Oliveira. Só o Ministro da Guerra foi ferido mortalmente. Socorrido logo, não resistiu porém aos golpes, e morreu instantes depois. Foi sentidíssima sua morte. E como naquele tempo todos os acontecimentos que impressionavam o carioca acabavam infalivelmente registrados por uma cantiga qualquer, o assassinato do Marechal Bittencourt não fugiu à regra. O palhaço negro, Eduardo das Neves cantou o doloroso acontecimento numa composição que marcou época. Os versos descrevem a cena trágica, e dão uma idéia do que foi o pesar de toda a gente. Ouçam.

Roberto Silva, Benedito Lacerda e Regional, Pixinguinha: “Cinco de Novembro” (Eduardo das Neves)

[Orquestra começa a tocar]

Almirante: Ei! Ei! Ou! Ei, pessoal! Peraí, calma. Ora essa, que pressa é essa. Calma! Vocês estão tocando sem esperar que eu anuncie o que vai, esperem um pouco! Eu sei que vocês estão com vontade de aparecer o Pessoal da Velha Guarda, esperem, mas calma!

Mas é fácil, ouvintes, a gente compreender por que é que vocês estão atacando assim a música que têm nas estantes. Meus ouvintes quando souberem hão de os compreender também. É que a música que a orquestra tem para tocar é de tal modo animada, tão saborosa como melodia e como ritmo, que aqui os professores da orquestra ficam aflitos enquanto não transportam para seus instrumentos vivas e movimentadas as notas que ali estão imobilizadas nas pautas. Mas calma gente, calma porque os ouvintes precisam ser avisados do que vem por aí. Assim eles poderão apreciar melhor a execução de vocês todos, ora essa!

A Orquestra do Pessoal da Velha Guarda quer mostrar a vocês, ouvintes, como é que se toca um legítimo maxixe brasileiro. Escolheu para esta exibição uma gostosíssima peça de Paulino do Sacramento. O maxixe denomina “Bebê”, cuja terceira parte, numa violenta baixaria confiada ao trombone, há de fazer com que vocês sintam vontade de cair no fandango, querem ver? Ouçam!

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Bebê” (Paulinho Sacramento)

Almirante: Eis aí o estribilho famoso de uma famosa canção brasileira. Poucos serão aqueles que no Brasil não conheçam a melodia e os versos bucólicos da linda canção chamada “O Pinhal”. O Grupo dos Chorões e o Pessoal da Velha Guarda escolheram para hoje essa notável canção de música de Armando Percival e versos da poetisa Maria da Cunha. Canção que foi coqueluche durante muito tempo, tem andado esqueci, apesar do que ela representa para o nosso populário. Confiados em que todos os brasileiros devem conhecer a tradicional cantiga, os versos foram distribuídos pelo auditório para que todos aqui cantem o pequeno estribilho que se segue a cada estrofe. Ouçam pois, e cantem “O Pinhal”

Moraes Neto, Grupo dos Chorões e Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “O Pinhal” (Armando Percival/Maria da Cunha)

[Nota: o grupo interpreta só as partes I, II e V da canção.]

I

Recendendo aroma e graça,
A aurora, sorrindo, passa,
Vem do banho matinal;
E, compondo os véos doirados,
Torce os cabelos molhados,
Nas clareiras do pinhal.

Toucam-se os ramos
De oiro e rubis;
O pinhal canta,
Moço, feliz.

II

Manhã clara: sol no oriente;
O lenhador diligente
Ouve-se ao longe a cantar...
E os pinheiros mais antigos
Curvam-se para os amigos
Num dolente ramalhar.

O pinhal geme,
Geme de dôr,
Ante o machado
Do lenhador.

III

Meio-dia rutilante:
O sol é como um brilhante
Na fronte de um deus pagão;
Hora vermelha da sésta:
No ramalhar da floresta
Há murmúrios de oração.

Verdes agulhas
Postas em cruz
O pinhal reza
Preces de luz...

IV

Nasce uma estrela: trindades:
São teorias de saudades
Que o sino desprende no ar...
Velam sombras oportunas,
O pinhal, depois, as dunas
E, além das dunas, o mar...

O pinhal chora...
Silencio... paz...
A tarde é cinza
Que se desfaz.

V

Mas dizem que, à meia noite,
Range a mata sob o açoite
De fantástico tropel
Que os mêdos e almas penadas
Vagueiam sob as ramadas
No seu fadário cruel...

O pinhal sonha
No encantamento:
Restea de lua...
Sópros do vento...

 


Cortesia de Dr. Francisco J. Bueno de Aguiar


Cortesia de Dr. Francisco J. Bueno de Aguiar


Cortesia de Dr. Francisco J. Bueno de Aguiar

Almirante: Vai água! Vai água! Quem vive nos dias de hoje nesse regime fácil de encanamentos que levam água a domicílio, não pode imaginar o que era essa cidade no tempo em que a provisão do precioso líquido era feita por meio de aguadeiros que percorriam as ruas portando carrinhos dentro dos quais ia vasilhas, pipas, barrigas, e tudo mais que se prestasse ao abastecimento da água. Aqui e ali, pela cidade, nas bicas, nas fontes, nas nascentes. Uma multidão formigava constantemente recolhendo a água que ia as vezes ser entregues nos pontos mais longínquos a compradores que possuíam a assinatura daquele indispensável serviço. Havia então organizações completas para o fornecimento de água em domicílio, e dentre elas, ficou célebre, e durou até relativamente há pouco tempo, a que empresava a venda da água da Chácara do Vintém, que era situada no fim da Rua Aguiar, perto do largo da Segunda-feira.

A água daquela chácara era posta à venda pelas ruas em carroças que, a partir de janeiro de 1876, traziam nas pipas que transportavam, um dístico negro sobre um fundo branco onde se lia: “Água do Vintém”. Magalhães Corrêa em seu notável livro Terra Carioca, Fontes e Chafarizes, registra o boato que corria sobre tal água, e que dizia que o líquido vinha menos da chácara do que das bicas e fontes públicas da cidade. Os aguadeiros, para se fazerem anunciar, usavam o grito de Vai água!, e na sua prosódia lusitana soava como Vaiágua, vaiágua, grito que até hoje perdura entre o pessoal do Corpo de Bombeiros, simplificado somente para Iáiá, que é lançado no quartel, mal soa o alarme de incêndio. A água da Chácara do Vintém foi coisa popularíssima nessa cidade, e certamente acabaria completamente esquecida se não fossem as crônicas dos historiadores e se não fosse a música popular. Sim, ouvintes, a música popular. E é como prova do valor histórico da música popular brasileira, que eu venho apresentar a vocês aquela que fixou esse curioso aspecto da vida do carioca dos velhos tempos. Chiquinha Gonzaga, registrando o aparecimento da popularidade da água da Chácara do Vintém, compôs um tango brasileiro que dedicou àquele importante serviço. Chama-se o tango “Água de Vintém”, e é isso que vocês irão apreciar agora num curioso arranjo de Pixinguinha, para a Orquestra Pessoal da Velha Guarda.

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Água do Vintém” (Chiquinha Gonzaga)

Almirante: Sim, ouvintes! Aqui está de novo ao nosso lado figurando na Velha Guarda o grande Jacob. Diversas vezes o Jacob já esteve aqui entre nós. Ou para atender o nosso desejo, ou para atender o de vocês, ouvintes. Dessa vez ele aqui está porque vocês novamente o exigem. E quanta alegria isso nós dá porque assim nós não temos que gastar nosso argumento para fazer com que ele saia da sua quietude para nos vir aturar aqui. Nestes últimos tempos, recebemos um bom número de pedidos por carta, por telefone, por telegrama, ameaçando-nos, sim ouvintes, ameaçando-nos com a perda daqueles ouvintes se não trouxéssemos aqui o Jacob para que ele executasse um novo choro de sua autoria e que acabará fazendo tanto ou mais sucesso do que esse buliçoso “Treme-Treme” que ele começou a tocar aí. Chama-se o novo choro “Remeleixo”, e aqui vai ser apresentado pelo autor aparteado pela flauta de Benedito, e pelo Saxofone de Pixinguinha. O nome “Remeleixo”, ele o tirou dos gestos que viu umas pessoas fazendo numa das primeiras vezes que tocou o choro em público. É que ninguém pode ficar insensível, ninguém pode deixar de fazer remeleixos ouvindo este “Remeleixo” do Jacob.

Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional: “Remeleixo” (Jacob Pick Bittencourt)

 

Programa No. 7

O Pessoal da Velha Guarda


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