O Pessoal da Velha Guarda

Programa No. 9

Transcrito por Alexandre Dias


Augusto Calheiros

25-2-1948
(Collector’s AER026 Lado A)

Almirante: Boa noite, ouvintes de todo o Brasil! Aqui está de novo o Pessoal da Velha Guarda. Como em todas as quartas-feiras, aqui está reunido um grupo seleto de chorões dos velhos tempos para conduzir vocês ao país dos sonhos e da saudade nas asas de músicas imortais do tempo de nossos avôs.

Num tempo em que quase tudo é swing, quase tudo é bolero, conga ou rumba, deve ser consolador um programa como este para os que gostam de evocar os bons tempos que se foram. Bem ouvintes, essa frase aqui não é nossa hein. Tirâmo-la de uma carta de um ouvinte. Naturalmente fazemos votos para que não só ele pense assim, para que muitos outros estejam também de acordo com aquela opinião. Queremos agora aproveitar esse intróito para um agradecimento especial àqueles que têm nos enviado músicas velhas. Podem estar certos de que, esmo velhas e maltratadas pelo tempo, como se acham algumas, elas constituem por vezes verdadeiras preciosidades. Por isso tudo muito obrigado, hein. Convido agora a vocês todos, os do auditório e os que se acham em casa a aplaudir, os daqui com palmas e os de casa com o espírito e o coração esses bambas que realizam essas audições: o Pixinguinha com o seu saxofone! O Benedito Lacerda com o seu famoso regional! O Raul de Barros com o seu bombardino e o Grupo de Chorões! E a orquestra toda formada do Pessoal da Velha Guarda!

[“1x0” de fundo musical]

Há um estudo ainda por fazer nos títulos de nossas músicas populares. Fixando por vezes expressões que o povo consagrou, os nomes de certas músicas são como que um registro de maneiras de falar de cada época. Como todos sabem, é o povo afinal de contas que faz a língua. As corruptelas das palavras na construção gramatical, na prosódia, etc., acabam sendo registradas pelos léxicos e depois são admitidas por toda gente sem a menor repulsa ou preconceito. Todas essas considerações vêm a propósito do título desse choro do Pixinguinha: “Segura Ele”. Só esse título determina uma época. Pois é mais que certo que se o seu batismo se desse uns 10 ou 20 anos antes, em vez dessa forma popularíssima de “Segura Ele”, o choro se chamaria castiçamente e empoladamente “Segura-o”. Felizmente na época em que Pixinguinha o compôs, já o povo adoçara tanto a língua, que foi possível ao autor batizá-lo daquela forma popularíssima: “Segura Ele”. Pois é isso que vocês vão apreciar agora na flauta do Benedito e no saxofone do Pixinguinha. “Segura Ele”!

Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional: “Segura Ele” (Pixinguinha)

Almirante: Foi de todo o coração e espontaneamente que fizemos na semana passada a defesa do grande cantador nordestino Augusto Calheiros muito justificadamente apelidado de “o Patativa do Norte”. Calheiros, que é da Velha Guarda, e que não perde um desses programas, conforme nos confessou hoje, ouviu cheio de surpresa e mesmo comovido o que nós dissemos dele, que veio aqui trazer-nos seu abraço de agradecimento. Mas, porém, estamos resolvidos a só aceitar agradecimento de Calheiros por meio de música. Ele terá que cantar, nós o prendemos aqui para cantar, provando assim, não só a nós, como aos ouvintes, quanta razão tivemos naquele comentário. É pois com enorme alegria que o Pessoal da Velha Guarda recebe aqui o grande cantor, o Patativa do Norte, que vai recordar na sua maneira personalíssima uma famosa cantiga que ele lançou em 1927 quando aqui chegou com os Turunas de Mauricéia. A linda “Na Praia”, de Raul C. de Moraes. Calheiros!

Augusto Calheiros e regional de Benedito Lacerda: “Na Praia” (Raul C. de Moraes)

[“Apanhei-te Cavaquinho” de fundo]

Almirante: Nunca será demais que em todos os programas da legítima música brasileira, que prestem homenagem ao grande pianista e compositor que foi Ernesto Nazareth. Sua obra vastíssima ainda não foi integralmente desvendada para as gentes da geração atual. Ainda na sua imensa bagagem, um sem número de tangos, polcas, valsas, etc., estão praticamente inéditas para a gente de hoje. Nós aqui no Pessoal da Velha Guarda já temos desencavado inúmeras composições de Nazareth que andavam completamente esquecidas. Hoje queremos confiar à orquestra a execução de um tango brasileiro que vocês já teriam apreciado de várias formas, em solo de piano, em flauta, em violão, etc. O tango, cujo nome é “Turuna”, aparecerá aqui num arranjo especial de Pixinguinha para a Orquestra do Pessoal da Velha Guarda.

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Turuna” (Ernesto Nazareth)

[Seresta ao fundo]

Almirante: Quantos de vocês, ouvintes da Velha Guarda, não estarão lembrados dessa música. Quantas saudades ea não estará despertando por aí. Seu nome, lembra-se? Era “Os Olhos Dela”. E seu autor, um saudoso chorão do oficleide chamado Irineu de Almeida. Irineu deixou poucas músicas, mas todas elas de enorme beleza e inspiração. Irineu de Almeida vai ser agora mas uma vez evocado nesses programas. Aqui estão Benedito e Pixinguinha para executar uma de suas polcas-choro a que se chamou “Mariana”.

Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional: “Mariana” (Irineu de Almeida)

[“Jura” de Sinhô ao fundo]

Almirante: Sinhô foi uma figura impressionante no nosso cenário musical do passado. Sua vida andou marcada por [?] curiosíssimos, muitos dos quais ficaram registrados nas composições da época. Antes de ser pianista e violonista, Sinhô aprendeu flauta. Dizem os viveram naquele tempo que foi um péssimo flautista. Sinhô era feio, era magro e era alto. E houve época em que deu para janota, e como o padrão de elegância era o colarinho alto, ele, até se habituar à moda sofreu o diabo. Toda essa descrição vem aqui para que vocês compreendam o espírito dos versos que irão ouvir em seguida. Trata-se de um samba de Pixinguinha e de seu falecido irmão China. O samba, aparecido em 1919, foi a resposta que os dois deram a Sinhô, quando [ele deu] esses o desafio num título de um samba seu chamado “Quem São Eles?”. A pergunta era motivada pela fervura que os adeptos do samba naquele tempo faziam, repetindo na cara de Sinhô que ele não era o rei do samba como o chamavam todos. Quem havia pela cidade outros também merecedores daquele título. Orgulhoso, Sinhô quis saber quem eram aqueles outros. E para dar maior curto à tua curiosidade, deu a uma de suas músicas aquele título interrogativo “Quem São Eles?”. Sim, quem eram os tais outros que mereciam também naquela época o título glorioso de reis do samba? O desafio, ouvintes, não ficou sem resposta, tanto que logo depois, como já disse, Pixinguinha e China lançaram a réplica num samba que se chamou “Já te Digo”. Sinhô perguntava “Quem são eles?”, não? E os dois respondiam “Já te digo!”. E nos versos, conforme vocês vão ouvir, mesmo sem estar o nome do Sinhô, ficou a crítica feroz de sua figura. E é esse interessante exemplo de composição satírica que vamos oferecer aos ouvintes da Velha Guarda nesta rápida passagem que do Grupo dos Chorões. “Já te Digo”.

Almirante e Grupo dos Chorões: “Já te Digo” (Pixinguinha/China)

[Trecho de O Guarani]

Almirante: Se hoje em dia alguém se aproveitasse de um trecho assim d’O Guarani para uma adaptação musical de uma peça popular, todo mundo protestaria, não é mesmo? Haveria logo quem dissesse, como é comum a gente ouvir, que antigamente ninguém fazia essas coisas não. Pois olhem que estariam todos muito enganados dizendo isso, a grita que fizeram recentemente porque Benedito adaptou o minueto de Beethoven para a marcha carnavalesca, fez com que muitos dissessem, sem nenhum motivo, como vocês verão adiante, que antigamente eram respeitadas as músicas consideradas sérias. Ora que já esse negócio de música séria é uma maneira muito exótica e despropositada de classificar qualquer gênero. Como se um samba ou uma marcha não pudesse ser tão sérios quanto uma sinfonia, ora essa. O hábito de utilizar trechos de músicas clássicas para essas pessoas populares, ouvintes, não é de hoje. É mesmo muito velho. É que antigamente havia da parte de todos mais compreensão nesse sentido. Todos sabiam perfeitamente que não seria o inocente aproveitamento de qualquer trecho clássico que iria inutilizar a obra original. Pois bem, ouvintes, há quase 50 anos, fizeram aqui uma adaptação d’O Guarani, e ninguém esbravejou, não. E no entanto, a adaptação fez furor e correu o mundo. Ela foi feita por um compositor francês de nome Borel Clerc, que pretendendo compor um maxixe brasileiro, foi se utilizar de um dos temas mais populares de Carlos Gomes. E na falta de melhores dados sobre ritmos brasileiros, ele utilizou o ritmo do passo-doble espanhol. Viu-se então essa impropriedade, uma música classificada como maxixe brasileiro e em ritmo de passo-doble espanhol. Bem, mas fosse como fosse, a peça fez um enorme sucesso até mesmo entre nós. Sua popularidade foi muito ajudada pelos versinhos populares que aplicaram aqui, e que registravam o tenebroso crime de Carleto e Roca, lembram-se?

Durante o arranjo que vocês vão apreciar agora pela orquestra, serão cantados alguns dos versinhos mais populares feitos para a célebre música, inclusive os originais em francês. Ataca aí mais “La Matchitche”!

Paulo Tapajós, Almirante e Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “La Matchitche” (Charles Borel Clerc)

 

Programa No. 10

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