:: The articles in this series were originally published
:: in the online magazine Daniella Thompson on Brazil.


 

Praça Onze in Popular Song, Pt. 7

Another wave of remembrance in the Eighties.

Daniella Thompson

16 July 2003


Praça Onze c. 1930

In 1980, Henrique Cazes, who’s better known as a virtuoso cavaquinho player and music scholar than as lyricist, wrote a samba lamenting not only the demise of Praça Onze but of all the historic districts—most of them in central Rio de Janeiro—where blacks and mulatos resided and played samba. There are echoes of Cartola and Carlos Cachaça’s “Tempos Idos” in the lyrics, but with an additional touch of bitterness. Whereas the older black sambistas were proud of samba’s newly acquired respectability (“Conseguiu penetrar no Municipal/ Depois de percorrer todo o universo/ Com a mesma roupagem que saiu daqui/ Exibiu-se pra Duquesa de Kent no Itamarati”), the younger and white Cazes reminds us that samba today can be heard only on the radio, and that while it’s a hit in palaces, the cradles of samba had been destroyed in the name of progress.

Berços do Samba
(Henrique Cazes; 1980)

O berço do samba foi a Praça Onze,
que hoje é apenas um canteiro
não fornece mais batuque
para o mundo inteiro.
Derrubaram a Lapa
foi-se a Cidade Nova
e o samba de pirraça permanece
até parece pra ficar de prova.
A Saúde não vai muito bem da saúde
A Gamboa também não tá numa boa.
Santo Cristo, Cristo no céu
olhai por isto.
Harmonia vai morrer de asfixia.
Tempos idos, hoje prédios demolidos
Catumbi, eu vim aqui
foi pra falar é do Estácio
E hoje o samba só toca no rádio
frequenta palácio
(e faz sucesso)
mas seus berços foram destruídos
pelo progresso.

Samba recorded by conjunto Coisas Nossas in the independent LP Coisas Nossas (1980). Lyrics provided by Marcus Fernando.



Street carnaval parade of old times

The carnaval parade of 1980 took place in Avenida Marquês de Sapucai, situated next to the former Praça Onze, where the Passarela do Samba was built a few years later. G.R.E.S. União da Ilha do Governador reached second place with their theme “Bom, Bonito e Barato,” which was a statement of pride in the escola’s ability to produce a good samba and a beautiful parade at little cost, unlike some of the other competing schools. The lyrics boast: “A Praça Onze delirei.”

Bom, Bonito e Barato
(Robertinho Devagar/Jorge Ferreira/Edinho Capeta; 1980)

Colori
Com toda minha simpatia
Um visual de alegria
Cante comigo essa canção de amor
Sou a comunicação
Não tenho luxo e nem riqueza
Há simplicidade e beleza
Na festa do seu coração
Muito bom
O meu bonito é barato
[bis]
Da simpatia, o retrato
Do povo no carnaval
Obrigado madrinha Portela
Que me ajudou a caminhar
(Caminhei)
E onde andei
Pelos caminhos meu nome deixei
Nos confins de Vila Monte
Eu decantei
Com um sorriso de esperança
A Praça Onze delirei
Domingo, na sutileza do amanhecer
Meu colorido encantou você
O Amanhã,
O que será?, O que será?
E outra vez na passarela
Colorida e tão singela
O sangue novo faz toda gente vibra
Sou eu, sou eu
Trazendo felicidade
[bis]
Sou eu

G.R.E.S. União da Ilha do Governador’s samba-enredo,
second-place winner in the 1980 carnaval.



Zé Ketti

Also from the ’80s is Zé Ketti’s nostalgic tribute to a world that is gone forever. Favela is Morro da Providência, Rio’s first hilltop shantytown, populated by Bahian veterans of the war of Canudos (1896–97), who renamed it Morro da Favela in memory of Alto da Favela in Canudos. These Bahians brought to Rio the batuque, which made its way to Tia Ciata’s house and helped define samba as we know it today. Camisa Preta and Sete Coroas were famous malandros of the early 20th century. The former rubbed shoulders with Villa-Lobos and Manuel Bandeira in the bars of Lapa. The latter was the subject of Sinhô’s 1922 samba “Sete Coroas,” recorded by Lira Carioca.

Praça 11, Berço do Samba
(Zé Ketti; 1982)

Favela do Camisa Preta
Do Sete Coroas
Cadê o teu samba, Favela?
Era criança na Praça Onze
Eu corria pra te ver desfilar

Favela, queremos teu samba
Teu samba era quente
Fazia meu povo vibrar
Até a lua, a lua cheia
Sorria, sorria

Milhões de estrelas brigavam
Por um lugar melhor
Queriam ver a Portela
Mangueira, Estácio de Sá
E a Favela com suas baianas tradicionais
Brilhava mais
Que a luz do antigo lampião a gás
Fragmentos de brilhantes
Como fogos de artifícios
Desprendiam lá do céu
E caíam como flores
Na cabeça das pastoras
E dos sambas de Noel
Correrias, empurrões
Gritarias e aplausos
E o sino da capela
Não parava de bater
Os malandros vinham ver
Meu samba estava certo, sim

Enquanto as cabrochas gingavam
No seu rebolado
No ritmo da batucada
De olho comprido, que nem bobinho
Eu terminava dormindo na calçada
De olho comprido, que nem bobinho
Eu acabava dormindo na calçada

Samba recorded by Zé Ketti in the LP Zé Ketti (Itamaraty 1982),
reissued on CD by CID.



Império Serrano’s 1982 parade
(photo: Reginaldo Moraes)

Praça Onze contributed to yet another carnaval success in 1982, when G.R.E.S. Império Serrano captured the championship with its samba-enredo “Bum Bum Paticumbum Prugurundum.” As befits a carnaval tune, the emphasis here is on the glorious history of carnaval, with samba as its beating heart.

Bum-Bum Paticumbum Prugurundum
(Beto sem Braço/Aluísio Machado; 1982)

Enfeitei meu coração
De confete e serpentina
Minha gente se fez menina
Num mundo de recordação
Abracei a coroa Imperial
Fiz meu carnaval
Extravasando toda minha emoção
Oh, Praça Onze, tu és imortal
Teus braços embalaram o samba
A tua Apoteose é triunfal

De uma barrica se fez uma cuíca
De outra barrica um surdo de marcação

Com reco-reco, pandeiro e tamborim
E lindas baianas
O samba ficou assim
[bis]

E passo a passo no compass
O samba cresceu
Na Candelária construiu seu apogeu
As burrinhas que imagem para os olhos um prazer
Pedem passagem p’ros moleques de Debret As Africanas, que quadro original
Iemanjá, Iemanjá enriquecendo o visual

Vem meu amor...
Vem meu amor manda a tristeza embora
É carnaval, é folia neste dia ninguém chora
[bis]

Super Escolas de Samba S/A super alegorias
Escondendo gente bamba, que covardia

Bum, Bum Paticumbum Prugurundum
O nosso Samba minha gente é isso aí, bum, bum
Bum, Bum Paticumbum Prugurundum
Contagiando a Marquês de Sapucaí

G.R.E.S. Império Serrano’s samba-enredo,
first-place winner in the carnaval of 1982.



Baianas in the carnaval parade

The following year, Império Serrano captured third place with a samba from the same authors, exalting the Baianas who nourished and maintained Afro-Brazilian culture through centuries of slavery and adversity. Among these emblematic mothers is Tia Ciata of Praça Onze, whose breast nurtured samba (“Tia Ciata Mãe Amor/ O teu seio o samba alimentou”).

Mãe Baiana Mãe
(Aluísio Machado/Beto Sem Braço; 1983)

Abre as portas, oh folia
Venho dar razão à minha euforia
A musa se vestiu de verde e branco
E o pranto se fez canto
Na razão do dia a dia
Mãe Baiana Mãe
Empresta o teu calor
Eu quero amanhecer no teu colo
Onde deito, durmo e rolo
E isolo a minha dor
Eu quero, quero te saudar nesta avenida
P'ra valorizar a vida
Que a vida valorizou

Mãe negra sou a sua descendência
Sinto tua influência
No meu sangue e na cor
Iêêê, Abará, Acarajé
Capoeira, filho da mãe
Pregoeiro, homem da mulher
Okolofé Mamãe Kolofé Lorum
[bis]

Ai! É eu ai! É eu Mamãe Oxum

Baiana, baianinha boa
Teu requebro me enfeitiçou
Enfeitiçado, samblando eu vou
Baiana Mãe Baiana
É belo teu pedestal
Eu te adoro e adorando imploro
Teu carinho maternal

Tia Ciata Mãe Amor
O teu seio o samba alimentou
E a Baiana se glorificou
[bis]

G.R.E.S. Império Serrano’s samba-enredo,
third-place winner in the carnaval of 1983.

= = =

Salgueiro paraded with a similar theme in 1986, drawing on a long history of black identity that includes both samba in Praça Onze and worship of the Orixás in Tia Ciata’s terreiro.

Tem que se tirar da cabeça aquilo que não se tem no bolso—
Tributo a Fernando Pamplona

(Jorge Melodia/Paulo Emílio/Bicho de Pena/Marcelo Lessa; 1986)

Um dia eu fui Zumbi
Rei de Palmares
Araponga na voz
Estandarte na mão
Tiê-Sangue no olhar
E o meu cinzel raiava a aurora
Jeremias, João, Daniel, Abraão
Fiz em pedra sabão
Já bebi, sambei com Chico Rei
Ouro nos cabelos
E no Carnaval com Tenentes do Diabo
Cavalguei o alazão da liberdade
Vamos gingá, camará
Vamos gingá
[bis]
Tira da cabeça
O que do bolso não dá
Ô Ana...
Ô Ana Jacintha
Eu quero te beijar
Turmalina feiticeira de Araxá
Me leva pra Bahia
Saravá Ogum, Kaô Xangô, Ave Iemanjá
Fui sambar na Praça Onze
Lá no terreiro da Ciata
Fui parar bem longe
Com o rei negro no congá
As bandeiras no varal, no varal
Manga rosa mangueiral, mangueiral
Do angú à saideira
Gostosa é a cozinha brasileira
O Salgueiro chegou
Na terra de Iorubá
[bis]
O Salgueiro brilhou
No céu de Oxalá

G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro’s samba-enredo in 1986.


In the same year, João Bosco released his album Cabeça de Nego, focusing on Afro-Brazilian traditions, in which Praça Onze naturally takes pride of place.

Da África à Sapucaí
(João Bosco/Aldir Blanc, 1986)

Livre,
Na mãe africana,
Louvado o meu tantã!
Preso,
Marca a rebeldia,
Traz pra senzala
A luz do amanhã
Negro,
Meu São Benedito,
Tô nessa procissão
Ó Senhora do Rosário,
Vê meu calvário e minha aflição
Já guardei andor,
Já fui “burrinha” e Rei,
Já dancei
Lá da Praça Onze à Sapucaí,
Do Deixa Falar do Estácio ao Bafo do Catumbi
Samba é a voz que me guarda
Enquanto eu aguardo
A procissão se espraiar
De Santo Cristo a Oswaldo Cruz,
Esperando a vez do Morro
Se unir pra arrebentar.

= = =

A more defiant note was taken in Império Serrano’s enredo for the carnaval of 1988. In this samba, the people demand everything they had lost, including Rio as it used to be and Praça Onze, “onde o samba tinha abrigo.” The escola acheived only 7th place in the parade that year.

Pára com Isto Dá Cá o Meu
(Luís Carlos do Cavaco/Lula/Jarbas)

O Rio não é mais como era antes
Pois acabaram com a nossa Guanabara
Fundiram toda nossa competência
E já não somos a cidade jóia rara
Que saudades que eu tenho
Da bandeira com golfinhos e brasão
Do nosso Rio Antigo
Praça Onze onde o samba tinha abrigo
Rio grande centro cultural
Patrimônio da riqueza nacional

Dá cá o meu
Dá cá o meu
[bis]
O povo carioca
Cobra aquilo que perdeu

Quero novamente ver meu Rio
Dono do samba e do grande futebol
Ter um forte banco aqui na praça
E que não seja um comitê eleitoral Chega de ter nossa casa comandada
Por malandro e coisa e tal

O Rio é negro e negro luta pelo Rio
Buscando a liberdade, enfrentando desafios
O Rio é negro e é negra essa Nação
[bis]
Vamos firme nessa luta
Proclamando a Abolição

G.R.E.S. Império Serrano’s samba-enredo in 1988.

 


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