:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas

Au Temps du Boeuf sur le Toit
5. Maurice Sachs.

Laurent Gloaguen

24 de julho de 2004

Judeu, homossexual, colaborador: Maurice Sachs.

Primeira edição, 1939 (cortesia de Laurent Gloaguen)

Filho de uma grande família de joalheiros judeus, Maurice Sachs nasceu em Paris em 1906. Seu verdadeiro nome era Maurice Ettinghausen. Aventureiro, sedutor, sensualista, ladrão, charlatão, amoral, diletante, esnobe, beberrão, galanteador, cínico, ingênuo, mentiroso, hedonista, oportunista, irresponsável, este homem não pode deixá-lo indiferente, tudo isto sem levar em conta o fato de ter atravessado toda a vida literária e mundana parisiense entre as duas guerras mundiais.

Escrito às pressas em 1939 por um autor endividado, levado pela promessa de publicação na Nouvelle Revue Critique de Alfred e Fernand Keller, Au Temps du Boeuf sur le Toit é uma miscelânea de anedotas e fofocas maliciosas, disfarçadas na forma de um diário, fictícias em grande parte, subtitulado de maneira pomposa journal d’un jeune bourgeois à l’époque de la prospérité, (14 juillet 1919–30 octobre 1929).

O bar-dançante da moda dos anos 20, Le Boeuf sur le Toit deve seu nome à “farsa pantomima” produzida em fevereiro de 1920 no teatro Comédie des Champs-Élysées por Jean Cocteau, baseada em música de Darius Milhaud, com cenário de Raoul Dufy. O Boeuf, gerenciado por Louis Moysès, abriu em dezembro de 1921 na rue Boissy d’Anglas 28, sucedendo o Gaya da rue Duphot. Neste bar musical podia-se ouvir o pianista virtuoso Clément Doucet, e, claro, muito jazz, sem mencionar os clientes que algumas vezes executavam um improvisado “boeuf” [canja].

No Boeuf podia-se encontrar com Stravinsky, Jean Cocteau, Jean Wiéner, Francis Poulenc, Honegger, Aragon, Breton, Germaine Tailleferre, Raymond Radiguet, Blaise Cendrars, Brancusi, Francis Picabia, Picasso, Marcel Herrant, Coco Chanel, Yvonne Printemps, Derain, Éric Satie, Georges Auric, Fargue, André Gide, o maréchal Lyautey, Gaston Gallimard, Artur Rubinstein, Marcel Jouhandeau, Paul Bourget, Marcel Aymé, Max Jacob, Tristan Bernard, Paul Claudel, Pierre Reverdy... Era o epicentro de Paris durante os Roaring Twenties. O único que jamais aparecia ali era Marcel Proust, devido à sua saúde precária. Seguindo o exemplo de Cocteau, podia-se encontrar lá também o jovem Maurice Sachs, que sonhava com grandeza, e, acima de tudo, em tomar o lugar que Radiguet tinha ocupado no coração do grande mestre de cerimônias surrealistas. E o Boeuf sur le Toit tanto era um símbolo de seu tempo que o título Au temps du... naturalmente presta-se a um livro que parece remontar os memoráveis momentos sociais e artísticos desta década louca, feita de ilusões e facilités.

O livro começa no dia emblemático de 14 de julho de 1919, o primeiro feriado nacional depois da Grande Guerra, aquele do grande desfile no calor do verão, uma explosão de alegria tricolor que conclui com esta afirmação: “Nunca se verá um espetáculo igual. Porque nunca haverá uma outra guerra.” E esta data iria inaugurar a década da apoteose, o mundo estaria permanentemente pronto para desfilar, para embebedar-se, para divertir-se na rua, até a dramática conclusão da grande queda em 1929. É este estranho e criativo parêntese entre massacre mundial e desastre econômico que o livro ilustra com memórias já nostálgicas.

O jovem narrador, janota esnobe e tête à claques, estudante de Ciências Políticas, parte para Deauville, entre a Potinière, jogos de tênis, e passeios na calçada. Estes detalhes de vida colocam-no dentre a alta burguesia diletante. Ele descreve para nós em detalhes a vestimenta feminina: “a sensação na praia era Gaby Deslys; neste verão ela entrou no mar em esplendor, vestindo um maillot lcolante rosa amarrado com cetim preto, sapatos rosas com saltos pretos, e um turbante com penachos rosas. Mas ela escapou das ondas rapidamente enquanto emitia um grito" além de muitos outros detalhes do air du temps.

Em Paris, ele tinha meios suficientes aos 18 anos para preferir alojar-se em um hotel em vez de viver com seus pais. Ele nos conta que joga na bolsa de valores, e isto constitui sua renda. Sua única lucidez está restrita a “Bom Deus, quão frívolo eu sou [...] há champanhe no ar” — “Deus! Como um homem ocioso é ocupado! Eu nunca estive entediado por um instante, o tédio sendo nada mais que o fruto da falta de curiosidade.” Um herói identificado como heterossexual (e até homofóbico), em contraste com seu autor: “Louise e Violette d’Espard são ambas lindas. Infelizmente, a gente pensa em casar-se com Violette, mas queremos ir para a cama com Louise. Um problema moral um tanto sem solução.”

“Rue de Lappe, 1932” por Brassai

Esse jovem burguês freqüenta de boa vontade zonas de meretrício como a rue des Martyrs ou a rue de Lappe, em busca de flores menos nobres, pois as garotas da alta sociedade não estão disponíveis para uma travessura. “Ela era um pouco mais 'do povo' do que as minhas namoradas habituais e era apenas mais apetitosa por causa disso.” Um jovem saboreando esta capital, que se oferece aos ambiciosos. “Os parisienses que saíram de férias não estão cientes de que sua capital é infiel a eles até a madrugada, e como uma mulher louca, com toda sua força: ela ri, chora, beija e se deixa ir; ela nem sequer tem tempo para dormir. Quando seu coração está cochilando em la Concorde, suas têmporas batem em Montmartre.”

1º de outubro 1919. As garotas são engraçadas; eu segurei Louise tão forte enquanto dançávamos que era impossível que ela não notasse o entusiasmo que ela provocou em mim, e sem nenhuma intenção de se distanciar, seu corpo deliciosamente se ajustava ao meu; mas quando a acompanhei na volta para casa em seu carro, eu tinha vontade de colocar meu braço em volta dos seus ombros, e ela se desvencilhava como se eu tivesse manifestado a mais notória falta de vergonha, como se, bem!, fosse para estuprá-la em vez de roçar sua nuca, enquanto que ainda agora... (e com dez pessoas olhando) enquanto dançávamos, nós estávamos tão próximos intimamente, separados apenas por finos tecidos, através dos quais o calor de nossos corpos se misturava tão livremente que, em vez de ir para casa jantar, eu corri para as jovens senhoritas da rue des Martyrs para pedi-las que jogassem um pouco de água nesse fogo, e uma delas agiu de tal maneira que me deixou morto de cansaço, bastante soturno, não muito satisfeito comigo mesmo e terrivelmente apaixonado por Louise

O narrador freqüenta salões, e seu caminho se cruza com os de Paul Claudel, Jean Cocteau, Francis Jammes, Max Jacob. Ele lê a Nouvelle Revue Française, de onde extrai inúmeras citações, como esta de Paul Valéry:
Nós outras civilizações, nós sabemos agora que somos mortai.
E vemos agora que o abismo da história é grande o suficiente para todos.
As grandes virtudes dos povos germânicos engendraram mais males do que toda a ociosidade criada pelo víci.

[...] A paz é talvez o estado das coisas no qual a hostilidade natural entre os homens se manifesta por criação, em vez de ser traduzida em destruição, como acontece na guerra.

Gostos literários contaminados pela sórdida ganância enchem-no de indignação, e ele aproba um autor que publicava às suas próprias custas, um certo Marcel Proust. Ele descobre com um entusiasmo circunspecto as novidades que começam a virar a época de cabeça para baixo: cubismo, jazz, arte negra, cinema. E o formato de diário fornece a oportunidade para mencionar manifestações artísticas, livros, peças de teatro, concertos, exposições, que sacudiram a estética desta era pós-guerra em uma espécie de agenda das Artes, para pairar sobre o período, retendo dele apenas a espuma histórica e anedótica. Claude Monet morreu em 1919, mas sua era já estava morta. Os anos 20 são aqueles de todas as audácias, todas as revoluções. Sachs registra suas principais datas por meio da intervenção de seu leve cronista imaginário, distanciado dos eventos, de preferência. O fato de ele escrever em 1939 também o permite fazer várias falsas predições, canalhices do autor.

O diário é também uma oportunidade para Maurice Sachs desforrar-se de seus amigos e ex-amigos e para atirar algumas flechadas mortais. Max Jacob é apresentado como um excêntrico M. Punch, Picasso como um calculista perverso, Cocteau como um maquinador hipócrita: “Como ele me pediu, fui ver Jean Cocteau em sua casa; achei-o bastante diferente de como ele estava na peça: alegre, encantador, familiar, e constantemente divertido. Mas a partir do momento em que o telefone toca, a mentira é liberada nele junto com o timbre vivaz. Não conheço sua vida o suficiente para julgar positivamente se ele diz a verdade ou não—mas eu ouço sua voz mentindo.” “Não escreveu nada que valha meia hora de sua conversa.” “Ele tem um je ne sais quoi de verniz e falsidade.” Tendo tempo e repetidamente tirando vantagem da bondade de Cocteau, Maurice Sachs demonstra ressentimento secreto em relação a ele. Ele descreve a admiração sem limites que um dia nutriu pelas personagens de Alias e Blaise, amigos do narrador.

Éditions Grasset & Fasquelle, Les Cahiers Rouges, 1987

Feito à imagem do autor, o narrador é um diletante e um irresoluto. Se ele escreve em 20 de dezembro de 1920 “Vamos manter esses jornais diariamente”, a data seguinte é 28 de junho de 1928, com quase oito anos tendo descido pelo ralo. E na segunda metade do livro, o formato de diário é esquecido para dar lugar a colagens de memórias e fragmentos, como uma tentativa de ressuscitar estes anos não-documentados, como uma série de copy-pastes desconexos feitos de bricabraque, uma coleção (assim chamada) indigesta, consistindo de notas emprestadas ao amigo Blaise Alias; seja porque a vida do herói era muito animada e repleta para manter um diário entre 1920 e ’28, ou porque o autor, tomado pela urgência e cansado do empreendimento, atamancou o formato, usando a turbulência da vida como uma desculpa.

Sachs relembra a formidável revolução de costumes deste período pós-guerra, a frivolidade e o apetite das pessoas para o prazer fácil, as farsas surrealistas que impressionavam e divertiam os burgueses. O triunfo do gênero, foi posteriormente Dal: “Eu urino em vocês”, ele gritou em uma conferência. “Bravo! Bravo!” exclamaram as mulheres, deleitadas pela inteligência. É inútil tentar chocar mais. Nada choca. Ele também fala sobre o mercado de arte e de especulação, domínios que conheceu bem. Ele examina a folia dos Ballets Russes, logo seguidos dos Ballets Suédois, evoca Les Mariés de la Tour Eiffel, Relâche, La Création du Monde...

Ao final do livro, o narrador assume um tom melancólico, como se tomado por um estranho pressentimento do fim de um reino, em uma atmosfera de baile caminhando para seu fim. Nós estamos em 1929. “YOntem houve uma terrível queda monstruosa em Wall Street.” As luzes do palco diminuem, a cortina de ferro cai, e não há nada além da fraca e trêmula luz de serviço para iluminar os enfeites desbotados que restaram de antigas festas.

Au Temps du Boeuf sur le Toit foi publicado em 1939, e toda uma nova história começa. Os anos 20 já são um paraíso perdido. Para Maurice Sachs, resta pouco tempo para viver desregradamente.

O fim de Maurice Sachs lembrou sua vida inteira. Empregado pela Gestapo de Hamburgo como espião nos círculos franceses da STO (Service du Travail Obligatoire), ele levou em 1943 a vida de um aventureiro e dedo-duro na esfera sombria de negociantes do mercado negro, fazendo travessuras com jovens franceses da LVF (Légion des Volontaires Français), iintoxicado por prazeres fáceis, vivendo em intrigas e fraudulências, denunciando sem descanso para ganhar bônus. Logo conhecido pelo apelido “Maurice la tante” [Maurice a tia], muitos juraram matar a “balance” [dedo duro] no momento certo. Ele viveu com dois colaboradores franceses homossexuais, Philippe Monceau e Paul Martel. Em novembro de 1943, foi preso pela Gestapo, que tinha se cansado de seus maus caminhos, sua imprudência, e seus relatórios falsos. Ele foi preso em Fuhlsbüttel, para onde ele tratara de enviar muitas pessoas. Em 1950, Philippe Monceau alegou em seu livro Le dernier sabbat de Maurice Sachs que Sachs havia sido linchado por outros prisioneiros após a saída do diretor em 1945, e que seu cadáver fora jogado aos cachorros. Mas seu final foi menos espetacular e novelístico. Na primavera de ’45, com o avanço das tropas britânicas, o presídio de Fuhlsbüttel foi evacuado para Kiel, uma longa marcha de muitos dias. No terceiro dia, 14 de abril de 1945, às 11 horas, Sachs estava exausto e não podia continuar marchando. Ele foi assassinado com uma bala em sua nuca, e seu corpo abandonado em um dos lados da rua juntamente com o de um companheiro de infortúnio.


Maurice Sachs

Maurice Sachs citado:

“A maioria dos homens no acampamento francês é de uma estupidez e vulgaridade lamentáveis. Pode-se perceber em todos eles uma terrível degeneração de propósito. [...] Quando se pensa que eles votaram graças ao sufrágio universal, obviamente é de se ficar horrorizado.”
(Carta de Hamburg)

“O Nacional Socialismo me parece interessante dentre outras razões porque ele tirou o brilho do comércio e o colocou em seu nível justo e medíocre.”

“Os Judeus, povo escolhido. Escolhido por maldição.”

“O pessoal da Gestapo é mágico; com um telefonema eles transformam o destino de um homem.”

“Minha vida não foi nada além de uma longa cumplicidade com a culpa. Eu sempre estive do lado dos párias de minha família e desde minha infância tenho sentido o maior culpado de todos, pois seus maiores pecados (dos quais eu não sabia nada, mas cujo peso eu sentia) eram aumentados pelos meus, cujos detalhes eu conhecia muito bem.”
Le Sabbat


Leitura recomendada:

Biografia de Maurice Sachs em onze capítulos
por Emmanuel Pollaud-Dulian, publicada em Les Excentriques.

 

 

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