:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 12

Um carioca de antigamente.

Daniella Thompson

17 de junho de 2002


Cartão postal da Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro

Ernesto Júlio de Nazareth (1863–1934) era um carioca. Nasceu em uma casa modesta no Morro do Nheco—agora chamado Morro do Pinto—no bairro de Santo Cristo, e perto da Cidade Nova, onde nasceram o maxixe e o samba.

No Dicionário Ricardo Cravo Albin da MPB, Vasco Mariz nos conta que Nazareth foi um dos compositores de maior importância para a cultura brasileira:

Suas composições, apesar de extremamente pianísticas, por muitas vezes retrataram o ambiente musical das serestas e choros, expressando através do instrumento a musicalidade típica do violão, da flauta, do cavaquinho, instrumental característico do choro, fazendo-o revelador da alma brasileira, ou, mais especificamente, carioca.

Vasco Mariz adiciona a sua crítica:

Na verdade, Nazareth foi um compositor essencialmente carioca pela brejeirice e malícia, um precursor do maxixe. [...] Nazareth retratou com muita graça e sabor o ambiente tranqüilo e gostoso do Rio Antigo, do início do século XX, época em que toda a gente andava de bonde, ia ao Centro da cidade assistir a uma sessão de cinema e depois tomar algo numa casa de chá da Cinelândia. Ele soube captar aquela atmosfera romântica das festinhas burguesas, das passeatas dos seresteiros e dos ranchos carnavalescos.

Melodia No. 12: “Carioca” (1913)

Em seu CD-ROM Ernesto Nazareth, Rei do Choro, Luiz Antonio de Almeida, o biógrafo do compositor, discute o nascimento de “Carioca”:

Tango primeiramente editado por Sampaio Araújo & Cia. em 1913, foi escrito na forma do rondó de cinco seções A-B-A-C-A. Foi dedicado ao ator Olympio Nogueira, então muito popular por sua interpretação de “Jesus” na peça O Mártir do Calvário. Olympio havia se tornado amigo de Diniz de Nazareth, filho do compositor, porque ambos, estudantes de violino, conheciam algumas pessoas em comum, o que acabou por aproximá-lo de Ernesto.


Cartaz dos anos 30 para “O Mártir do Calvário”

O Mártir do Calvário foi escrito por Eduardo Garrido em 1902 para atender ao pedido de seu amigo Eduardo Victorino, que queria uma peça sobre a paixão de Cristo. Ambos Garrigo e Victorino foram dramaturgos e produtores teatrais. A peça tornou-se um repertório básico de todas as companhias brasileiras de teatro, teatro de revista e circo, que a encenaram toda Páscoa por mais de duas décadas. Desde 1993, uma adaptação moderna retitulada de Rua da Amargura tem sido parte do repertório do Grupo Galpão de Belo Horizonte, de Gabriel Vilella. Essa versão foi transmitida na TV Globo em 2001 como Paixão Segundo Ouro Preto.

A dedicatória de Nazareth a Olympio Nogueira na partitura para piano de “Carioca” diz: “Ao talentoso e inspirado artista Olympio Nogueira.” O ator, nascido em 1878, morreria cinco anos depois aos 40 anos.

Em Le Boeuf sur le Toit, a parte A de “Carioca” (veja a partitura) pode ser ouvida aos 6min 16s na gravação de Louis de Froment. Enquanto os violinos estão tocando “Carioca”, os sopros tocam a parte A de “Escovado”, também de Ernesto Nazareth, em contraponto.

A base de dados da Fundação Joaquim Nabuco lista essa única gravação:

Autor: Ernesto Nazareth
Título: Carioca
Gênero: Tango Brasileiro
Intérprete: Heriberto Muraro (piano)
Gravadora: Victor
Número: 34689-A
Matriz: 52031
Data gravação: 29.10.1940
Data lançamento: Dez/1940

Desde os anos 60, um ressurgimento de Ernesto Nazareth tem ocorrido, liderado inicialmente pela pianista Eudóxia de Barros com o lançamento do LP Ouro Sobre Azul (1963), onde ela toca Nazareth da maneira que ele escreveu, sem arranjos ou alterações. Eudóxia foi seguida na década de 70 por Arthur Moreira Lima, que gravou quatro LPs dedicados à obra de Nazareth para Discos Marcus Pereira. A maioria das gravações de “Carioca” datam do último quarto de século. Dentre elas, pode-se encontrar interpretações pianísticas de Moreira Lima, Dominique Cornil, Yukio Miyazaki, Eúdóxia de Barros e Marcelo Verzoni, e transcrições por violonistas: Laurindo Almeida e Charlie Byrd (1980) e Spencer Doidge (fim dos anos 90).

Esse trecho sonoro faz parte da gravação de Arthur Moreira Lima que pode ser encontrada no CD Brazilian Tangos & Waltzes (Pro-Arte CDG 3144).

 

 

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