:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 3

Amor avacalhado e uma comédia de erros.

Daniella Thompson

17 de abril de 2002


João de Souza Lima
(foto: Aldo de Souza Lima)

Como se consegue identificar melodias citadas em uma composição? A maneira mais imediata é através do método auricular, onde você ouve gravações e confia em seus ouvidos para discernir passagens idênticas em peças diferentes. Isso funciona bem se a composição já foi gravada. Se não foi, mas você sabe ler notação musical e tem acesso a partituras, é possível fazer comparações visuais das passagens. Mas primeiro é necessário saber que a peça existe. Se nada foi publicado sobre ela, você estará no escuro.

Era exatamente onde eu estava, face a face com a terceira citação no Le Boeuf sur le Toit. Tendo confiado exlusivamente no método auricular, eu bati em uma parede branca depois de dezesseis músicas. Felizmente, ao mesmo tempo os musicólogos Aloysio de Alencar Pinto e Manoel Corrêa do Lago estavam atrás do mesmo objetivo. Prof. Pinto é membro da Academia Brasileira de Música, ocupando a cadeira de Ernesto Nazareth. Ele tem 91 anos e foi abençoado com uma memória prodigiosa, além de ter conhecido pessoalmente muitas das mais importantes personagens musicais do Brasil do século XX. Ele já havia identificado 14 das melodias em suas notas de 1980 para o programa de uma produção do ballet Le Boeuf sur le Toit no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. No início de 2000, Manoel Aranha Corrêa do Lago juntou-se a ele, e os dois identificaram mais dez músicas. Algumas delas eu jamais identificaria se dependesse de gravações.

Prof. Pinto posteriormente revisou e republicou seu artigo de 1980 sob o título “Partitura Brasileira com Sotaque Francês” no Vol. XII (dezembro 2001) da Revista da Academia Nacional de Música. Manoel do Lago escreveu um longo artigo analítico que será publicado em breve na Latin American Music Review. Além disso, ele escreveu o prefácio para a partitura do Le Boeuf sur le Toit para piano a quatro mãos, publicada recentemente pela Dover.

Melodia No. 3: “Amor Avacalhado” (1918)

“Amor Avacalhado” é um tango composto pelo célebre pianista João de Souza Lima (1898–1982) sob o pseudônimo de Xon-Xon. Souza Lima foi um prodígio musical que havia composto várias peças já aos dezesseis anos. Em 1919, ele recebeu uma bolsa para estudar na França, onde permaneceu por onze anos. Na maior parte de sua vida, ele foi um compositor clássico, portanto “Amor Avacalhado” é, de certo modo, atípico em sua produção usual. Sua cadeira na the Academia Brasileira de Música é hoje ocupada por Turíbio Santos. O conservatório de música nomeado em homenagem a Souza Lima é associado ao Berklee College of Music.

Na gravação que Louis de Froment fez de Le Boeuf sur le Toit, a parte A de “Amor Avacalhado” aparece a 1min 52s.

Na partitura para piano vendida por Mariano Marlante & Irmão de Porto Alegre, a música está classifica como um maxixe. Ela traz a seguinte dedicatória:

Dedicado aos “Voadô”
Chamboca
J. Príncipe
Xambiquinha
Yan Botucatu
D’Artagnan

Duas outras peças do mesmo compositor foram anunciadas na partitura
“A Voadora” (valsa)
“Os Voadô” (tango)

O entusiasmo por aviadores marcou aquela época, mas como vem a ser, “Os Voadô” não eram aviadores mas sim um grupo de jovens amigos paulistas, segundo contou João de Souza Lima no seu livro de memórias, Moto Perpétuo (São Paulo, IBRASA, 1982):

Tínhamos o hábito, eu e aguns amigos, de nos encontrar à tarde na antiga Casa Sotero, que se situava na Rua Líbero Badaró, para batermos um papo e darmos algumas voltas pelo “Triângulo”, com o fito de apreciarmos o movimento, que era sempre rico de mocidade feminina. Esse “Triângulo” era assim chamado pela formação das três principais ruas: Rua Direita, Rua XV de Novembro e Rua São Bento.


O Triângulo de São Paulo, centro da vida comercial e cultural

O líder do grupo, Mário Macedo, os chamou de “O Grupo dos Voadô” com o significado de ‘águias’, e deu a cada membro um apelido: Souza Lima tornou-se “Xon-Xon”; Waldemar Otero, “Chamboca”; José França (gerente da Casa Sotero), “Príncipe”; e o próprio Macedo, “D’Artagnan”.

“Amor Avacalhado” nasceu apressadamente devido à necessidade. Quando os jovens rapazes estavam prontos para saírem da loja e irem para o centro da cidade tomar um chope ou mais, quase sempre eles encontravam seus bolsos vazios. Em tais ocasiões, “Xon-Xon” pedia ao “Príncipe” um papel de música, e em poucos minutos escrevia um tanguinho ou um maxixezinho, que na mesma hora vendia ao Sr. Sotero de Souza (a quem pertenciam os direitos de “Viola Cantadeira” e “Maricota, Sai da Chuva”, ambas de Marcelo Tupinambá) por 20 mil réis. Lembra o compositor:

Assim aconteceu por várias vezes. Quero contar aqui (sempre nas nossas brincadeiras), que a um dos tais tanguinhos batizei com o nome pouco elegante de “Amor Avacalhado”. Imaginem só! Pois bem. Esse tanguinho foi impresso, tendo alcançado muito sucesso, tanto assim que o grande compositor francês, Darius Milhaud, que residiu no Rio de Janeiro por alguns anos como Secretário da Embaixada Francesa, compôs, mais tarde, um bailado de nome Le Boeuf sur le Toit, servindo-se de temas de nossa música popular, inclusive do meu tanguinho na íntegra. Esse bailado alcançou enorme sucesso em Paris.


Rua Líbero Badaró, São Paulo

O tanguinho “Amor Avacalhado” está ligado indiretamente a outra história de aviador como nós logo veremos.

Tendo sido informada sobre o “Amor Avacalhado” pelo Prof. Pinto e pelo Manoel do Lago, eu procurei por gravações na base de dados da Fundação Joaquim Nabuco. Para minha surpresa e deleite, encontrei uma:

Título: Amor Avacalhado
Gênero: Canção
Intérprete: Eduardo das Neves
Gravadora: Odeon
Número: 121026

A razão para o meu deleite era dupla. Primeiro, a partitura para piano não contém letra, todavia aqui estava uma gravação com voz. Segundo, o cantor era ninguém menos que o lendário Eduardo das Neves (1874–1919), uma das poucas estrelas genuínas da época. Foi ele que compôs em 1902 a famosa marcha “A Conquista do Ar” em homenagem ao aviador Santos Dumont:

A Europa curvou-se ante o Brasil
E Clamou parabéns em meigo tom
Brilhou lá no céu mais uma estrela
Apareceu Santos Dumont


Eduardo das Neves

Alexandre Dias não poupou esforços para obter a gravação (que possivelmente é datada de 1915) de um conhecido colecionador. Como muitas gravações da época, ela começa com um anúncio falado: “Amor Avacalhado, cantado por Eduardo das Neves para Casa Edison, Rio de Janeiro”.

No entanto, quando o cantor abre sua boca, a melodia que sai não é “Amor Avacalhado” mas sim o tango “Favorito” (1895) de Ernesto Nazareth. Contudo, a letra muito engraçada fala de um amor avacalhado, então eu vou incluí-la mesmo assim. O autor é desconhecido, e eu devo a Dijalma M. Candido a transcrição.

Quanto à melodia correta, ela foi gravada por Alexandre Dias a partir da partitura para piano fornecida pelo Manoel Aranha Corrêa do Lago. Esse trecho sonoro representa a parte A do tango, que foi citada por Milhaud.

Aqui Alexandre Dias toca a música inteira.


Amor Avacalhado
Letrista desconhecido
Música (“Favorito”) de Ernesto Nazareth

Meu amor se tu queres saber
Qual a razão deste meu padecer
Por que motivo me ausento de ti
Vem me escutar aqui
Não é medo meu bem, qual o que!
Eu te digo qual é a razão
Eu gosto muito de você
Mas dou o fora nesta ocasião.

Tens um pai que é de tremer
E é quem me faz sofrer
Perder o tempo até
Bem sabes como ele é...
Se descobre que eu vou lá
Tenho mesmo que fugir
Pois não dou pra fubá
Na porta não posso ir.

Esse seu pai é uma fera
Se você ainda espera
Que eu caia nesse arrastão
Mas eu não vou nisso não
Nestas contas, eu vou por mim
Pois não tem graça, meu bem
Eu perder o meu latim
Nestas contas, vou por mim.

Tua mãe, ai Jesus, não tem mais!
Porque eu hei de dizer de teus pais
Tem por mãe uma víbora feroz
Que do inferno caiu entre nós!
É maldosa, cruel, é um azar
Pois não me dá uma folga sequer
Que [viro], que paixão, que contrariedade!
Isto não é mulher!

Tens um pai que é de tremer...

Teus maninhos me pedem tostões
Sujam-me a roupa, me arrancam os botões
Tu achas isso muito natural
Eu sei que não é por mal!
Mas não posso, a despesa é demais
Cair no Mangue é melhor, minha flor
Crio alma nova, me vou para embora
Saúde e fica, [Deusinho] meu amor

Tens um pai que é de tremer...

= = =

Em 1929, Francisco Alves viria a gravar uma versão modificada da mesma letra sob o título de “Favorito”. Mário Pinheiro gravou “Favorito” anteriormente (cerca 1908), com letra atribuída a Catulo da Paixão Cearense. Esta letra é diferente dos versos mais tarde gravados por Eduardo das Neves.


Partitura por cortesia de Manoel Aranha Corrêa do Lago

(scan de Alexandre Dias)

 

 

Copyright © 2002–2016 Daniella Thompson. All rights reserved.