:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 6

O misterioso fado português
que não era.

Daniella Thompson

9 de maio de 2002


Ernesto Nazareth em 1903

Em relação ao seu encontro com a música brasileira, Darius Milhaud escreveu:

Os ritmos dessa música popular me intrigavam e me fascinavam. Havia uma suspenção imperceptível nas síncopes, uma respiração despreocupada, uma pausa leve que achei muito difícil de dominar. Comprei então uma quantidade de maxixes e de tangos; fiz um esforço para tocá-los em seus ritmos sincopados que passam de uma mão para a outra. Meus esforços foram recompensados e eu podia finalmente expressar e analizar esse “pequeno nada” tão tipicamente brasileiro. Um dos melhores compositores desse gênero musical, Nazareth, costumava tocar piano na frente da porta de um cinema na Avenida Rio Branco. Sua maneira fluida, impalpável e triste de tocar também me ajudou a conhecer melhor a alma brasileira.

Em 1918, enquanto Milhaud estava no Rio, Ernesto Nazareth tocava no Cinema Odeon, para o qual ele dedicara seu mais famoso tango. Milhaud não foi o único europeu a ouvir Nazareth e se maravilhar com suas criações. O pianista Artur Rubinstein visitou o Brasil no mesmo ano (veja uma foto de Rubinstein e Milhaud no Rio), e ficou igualmente impressionado.


Cinema Odeon, Rio de Janeiro

Mesmo assim, quando Milhaud mencionou as fontes de Le Boeuf sur le Toit, não houve nenhuma palavra sobre Nazareth. O compositor se referiu, sim, brevemente à música que nós estamos prestes a discutir: “E reuni algumas poucas melodias populares, tangos, maxixes, sambas e até um fado português [...]”

Melodia No. 6: “Ferramenta” (1905)

“Ferramenta” (veja a partitura) não é nem português nem um fado. É um tango composto por Ernesto Nazareth, que o concedeu essa denominação. Por quê? Porque a música foi dedicada ao célebre aeronauta português, o capitão António da Costa Bernardes, popularmente conhecido como Ferramenta, que subiu em seu balão “Nacional” sobre o Rio de Janeiro em maio de 1905. A partitura para piano publicada pela Vieira Machado (V. M. 1268 & Cª) ilustra um homem em um balão que traz a legenda “Nacional”, próximo à dedicatória Homenagem ao arrojado areonauta [sic] Antonio da Costa Bernardes.*

* Em seu livro Ernesto Nazareth na Música Brasileira, Baptista Siqueira identifica Ferramenta erradamente como João da Costa Bernardes e nota que ele foi “inventor de um aerostato que o matou em 1907. (Ver Revista da Semana, 4-8-1907.)”.

As indicações para a interpretação de “Ferramenta” são Gingando, Sapateado, Bem ligado, Com doçura, Desafiando, Com enthusiasmo, e Resoluto.

“Ferramenta” é única entre as músicas citadas em Le Boeuf sur le Toit, pois ela aparece três vezes e desempenha um papel-chave na estrutura do rondó. A parte A do tango fecha cada um dos principais ciclos do Le Boeuf, seguindo quatro iterações do tema do rondó. A segunda aparição acaba no centro temporal do Le Boeuf. Na gravação de Louis de Froment, “Ferramenta” pode ser ouvida aos 2min 49s, 7min 07s, e 12min39s.

A base de dados da Fundação Joaquim Nabuco lista as seguintes gravações antigas:

Autor: Ernesto Nazareth
Título: Ferramenta
Gênero: Tango
Intérprete: Banda do 52° de Caçadores
Gravadora: Columbia
Número: B-64
Matriz: 11789

Autor: Ernesto Nazareth
Título: Ferramenta
Gênero: Tango
Intérprete: Banda Phoenix
Gravadora: Phoenix
Número: 70729

Nós ouviremos um trecho do programa de Almirante na Rádio Tupi, O Pessoal da Velha Guarda, gravado em 1947. A música foi arranjada por Pixinguinha, que rege a Orquestra Pessoal da Velha Guarda.

Neste trecho não está incluído o longo preâmbulo de Almirante, em que ele nos conta que o aviador Ferramenta tornou-se tão famoso e popular, que inspirou este estribilho das ruas:

Olá, seu Ferramenta,
Você sobe ou arrebenta.

 

 

Copyright © 2002–2016 Daniella Thompson. All rights reserved.