:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 7

O primeiro ciclo chega ao fim.

Daniella Thompson

16 de maio de 2002


Olha o abacaxi!

Descrevendo em sua autobiografia a estréia de Le Boeuf sur le Toit em fevereiro de 1920, Darius Milhaud recordou:

Tendo esquecido que eu havia escrito Les Choëphores, ambos o público e a crítica concordavam que eu era uma figura cômica e um músico de feira... Eu, que odiava qualquer coisa cômica e, compondo Le Boeuf sur le toit, havia apenas almejado a criar um divertimento feliz, despretencioso, em memória dos ritmos brasileiros que prenderam a minha imaginação mas que certamente nunca me fizeram rir...!

Por mais despreocupado que possa parecer, Le Boeuf sur le Toit de modo algum é descuidado. Pelo contrário, é uma peça construída cuidadosamente. Eu sou grata ao musicólogo Manoel Aranha Corrêa do Lago por sua análise estrutural detalhada, publicada no número de Primaveira/Verão 2002 da revista Latin American Music Review.

Como Manoel do Lago ilustra na Tabela 4 de seu artigo (veja uma adaptação da tabela neste site), Le Boeuf sur le Toit é composto de três ciclos acrescidos de uma recapitulação e um coda. Cada um dos ciclos compreende quatro iterações do tema do rondó, com um par de citações recheando as iterações. O tema do rondó aparece mais duas vezes na recapitulação e uma vez no coda, formando um total de 15 iterações. As citações podem ser diferentes partes da mesma música (em qualquer ordem), seleções de diferentes músicas por um ou mais compositores, ou contrapontos de duas ou três músicas. No Ciclo III, um dos pares de citações consiste em um contraponto de duas, seguido de um contraponto de três, compondo um total de cinco músicas citadas entre duas iterações do rondó.

É assim com que uma visão geral do primeiro ciclo de Le Boeuf se parece:

Ciclo I

Rondó 1
1. “São Paulo Futuro” (parte A)
2. “São Paulo Futuro” (parte B)
Rondó 2
1. “Viola Cantadeira” (parte B)
2. “Viola Cantadeira” (parte A)
Rondó 3
1. “Amor Avacalhado” (parte A)
2. “O Matuto” (parte B) + “O Boi no Telhado” (parte A)
Rondó 4
1. “Ferramenta” (parte A)
2. “Olh’ Abacaxi!” (parte A)

Em seus comentários para o disco Milhaud: Music for Two Pianists, Robert Matthew-Walker—aparentemente parafraseando as notas de Edward Tatnall Canby para a gravação do Le Boeuf regida por Milhaud e lançada pelo Nonesuch em 1966—escreve:

O tema do rondó é politonal em modulação, e cada música sucessiva ascende uma terça menor a partir de sua antecessora em grupos de quatro, depois que cada idéia module a música todo um tom abaixo para começar a seqüência novamente em uma nova tonalidade. Portanto, as terças menores seguem Dó - Mi bemol - Sol bemol - Lá, então o tema de transição modula de modo descendente para Ré, de onde a música ascende em terças menores: Ré - Fá - Lá bemol - Si. O tema de transição modula de Si para Lá, e uma quarta seqüência começa, ascendendo de Lá para Dó. Mas como Dó foi o ponto de partida, a obra agora progrediu por todas as tonalidades. Um pequeno coda termina essa partitura vivaz [...]


Capa da partitura original

Melodia No. 7: “Olh’ Abacaxi!” (1918)

O primeiro ciclo de Le Boeuf sur le Toit encerra com o samba “Olh’ Abacaxi!” de F. Soriano Robert—uma das músicas mais obscuras citadas no rondó. Segundo Manoel do Lago, F. Soriano Robert foi um compositor, pianista e maestro ativo no Rio entre 1916 e 1923. Suas atividades extendiam-se desde o teatro de revista até interpretações da obra de Villa-Lobos.

A parte A de “Olh’ Abacaxi!” aparece aos 3min 08s na gravação do Louis de Froment. Notem como a orquestra toca uma nota a mais na melodia aos 3min 17s.

A base de dados da Fundação Joaquim Nabuco lista a única gravação conhecida, novamente pela Banda do Batalhão Naval:

Título: Olha o Abacaxi
Gênero: Samba
Intérprete: Banda do Batalhão Naval
Gravadora: Odeon
Número: 121560

Nós ouviremos um trecho tocado pelo pianista Alexandre Dias.

A partitura para piano, dedicada ao Dr. Eduardo França, fornece a seguinte letra, que pegou sua inspiração dos pregões dos vendedores de abacaxi nas ruas:

Olh’ Abacaxi!
Samba
F. Soriano Robert

Olh'abacaxi...!
Olha! Olha!
Olh'abacaxi
qu'é de Villa Nova

Abacaxi
Abacaxi
Abacaxi
Abacaxi

Há muitas cidades no Brasil chamadas Vila Nova, mas eu prefiro pensar que aquela referida na canção é Vitória, capital do Espírito Santo (Vila Nova é seu nome histórico). Por que Vitória? Porque a 27 km está situada a cidadezinha de Serra, conhecida como Terra do Abacaxi devido ao seu extenso cultivo desta fruta.

Mais recentemente, o termo Olha o abacaxi! tomou um sentido pejorativo, significando qualquer esquema sedutor de venda. No Brasil, Troféu Abacaxi é o equivalente do Golden Raspberry Award nos EUA.

A partitura de “Olh’ Abacaxi!” foi fornecida em CD-ROM com
o livro A Casa Edison e Seu Tempo de Humberto Franceschi
(Rio de Janeiro, Petrobras/Sarapuí, 2002).

Outra curiosidade em torno de “Olh’ Abacaxi!” é a semelhança do seu início ao começo da polca “Dengo Dengo”, um grande sucesso do carnaval de 1913. Pelo menos um estudioso insiste que “Olh’ Abacaxi!” é uma citação de “Dengo Dengo”. Sem ter ouvido a canção na íntegra, não posso confirmar esta teoria. Enquanto sua influência sobre “Olh’ Abacaxi!” é debatível, a polca inspirou, sim, um choro de Pixinguinha, também intítulado “Dengo Dengo”, que permaneceu inédito até 2002. O trecho seguinte da polca “Dengo Dengo” foi tirado de uma apresentação radiofónica do Almirante em 1946.

Esta letra (assim como o trecho sonoro) foi publicada por Roberto Lapiccirella no site Ao Chiado Brasileiro:

Dengo Dengo
(Emília Duque Estrada Farias/Cardoso de Menezes)

Dengo, dengo, dengo
Ó maninha
Tá chegada a hora
Dos Capicurus
Ó maninha
Ganhar a vitória

Dengo, dengo, dengo
Ó maninha
É de caruru
Quem matou baeta
Ó maninha
Foi carapicu

Eu bem dizia baiana
Dois metros sobrava
Saia do balão
Babadão
Metro e meio dava

Nota: Gatos, Baetas e Carapirus eram os apelidos das grandes sociedades carnavalescas Fenianos, Tenentes do Diabo e Clube dos Democráticos.

 

 

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