:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 10

Sobre caboclos, matutos, caipiras,
roceiros, sertanejos &
outros palhaços.

Daniella Thompson

3 de junho de 2002


“Violeiro na Janela” por Almeida Júnior

Caminhando pelas primeiras nove melodias citadas em Le Boeuf sur le Toit, nós encontramos Marcelo Tupinambá (1889–1953) três vezes. Como previamente mencionado em Doutor Tanguinho, sete de suas músicas podem ser achadas no Le Boeuf. A décima citação de Milhaud é também a quarta composição de Tupinambá no rondó. “São Paulo Futuro”, “Viola Cantadeira” e “O Matuto” eram todas canções nordestinas com sotaque caipira, e a música que estamos prestes a discutir não foge à regra.

Em 1978, no 25º aniversário da morte de Tupinambá, a cantora e pesquisadora Léa Vinocur Freitag escreveu:

O pseudônimo de Fernando Lobo sintetiza uma aculturação bem brasileira, misto de ópera italiana e cultura cabocla: Marcelo, de La Bohème, e Tupinambá, homenagem sertaneja.

Cinqüenta e quatro anos antes de Vinocur, Mário de Andrade escreveu:

O que exalta a música de dança de Marcelo Tupinambá é a linha melodica, muito pura e variada. O compositor encerra nela a indecisão heterogênea da nossa formação racial. Ora tem o espevitamento do quase branco da cidade, ora a melancolia do nosso interior. Às vezes é de um fatalismo desesperado, de uma saudade imensamente nostálgica, que faz ouvir, como nesse extraordinário “MATUTO”, canção cearense que atinge aquela tristeza dorida de certas melodias russas. [...] E é desse gênero de melodia cabocla, que Marcelo Tupinambá se tornou admirável. Nesse gênero, a que ele chama tanguinho, com lamentável desdém pelos demais gêneros.

O dicionário Michaelis oferece várias definições para 'caboclo'. As primeiras três são:

ca.bo.clo adj (tupi kariuóka)
1. Da cor de cobre; acobreado. sm 1. Indígena brasileiro de cor acobreada.
2. Mestiço de branco com índio.
3. Caipira, roceiro, sertanejo.

É a terceira definição que importa para nós. Caipiras do sertão sempre tiveram razões de sobra para estarem tristes, incluindo secas periódicas, pobreza excruciante, patrões despóticos, e discriminação agressiva. Mesmo assim, apesar da tristeza inerente de muitas melodias de caboclo, o caboclo, matuto ou roceiro na cultura popular brasileira tipicamente é uma figura hilariante, um jeca para se gozar.

Os aspectos cômicos do povo da roça eram temas centrais das revistas de teatro nas quais as canções inciais do Tupinambá foram lançadas: a revista de costumes São Paulo Futuro (1914), a opereta sertaneja Scenas da Roça (1917), e Flor do Sertão.

A imagem do preguiçoso e malicioso simplório rústico foi divulgada por Monteiro Lobato, que era fazendeiro antes de se tornar um célebre escritor. Em 1914, Lobato dispachou duas cartas para o jornal O Estado de S. Paulo, reclamando dos caboclos primitivos e revoltosos de sua região. A segunda carta criticava:

A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho da terra, peculiar ao solo brasileiro... Este funesto parasita da terra é o cabloco, inadaptável à civilização...
Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca...
Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele, no meio de tanta vida, não vive...

Foi nessa segunda carta que Monteiro Lobato criou a figura do requintado caboclo Jeca Tatu, desde então imortalizado em inúmeros filmes pelo afamado ator Amácio Mazzaropi.


Jeca Tatu, caboclo imortalizado na música popular, em palco e cinema

Melodia No. 10: “Tristeza de Caboclo” (1919)

“Tristeza de Caboclo” é um tanguinho, a primeira música que Tupinambá compôs sob o contrato com Campassi & Camin, editores de São Paulo. Com letra de Arlindo Leal, ela se tornou um sucesso instantâneo, vendendo o número fenomenal de 120.000 partituras para piano em um ano.

Em Le Boeuf sur le Toit, as partes A e B de “Tristeza de Caboclo” podem ser ouvidas a partir dos 4min 58s na gravação de Louis de Froment.

Uma transcrição para piano da mesma passagem foi publicada separadamente como Le Tango des Fratellini, Op. 58c e desde então tem sido gravada por músicos eruditos e populares como Françoise Choveaux, Polly Ferman, Marcel Worms, Mari Kumamoto, Jeff Cohen, Alberto Neuman, I Salonisti e um trio no disco Tango Total (veja a discografia de Le Boeuf sur le Toit).

Os irmãos Fratellini eram os palhaços do Cirque Médrano, inovadores na arte, e tão adorados por Milhaud, seus colegas do Les Six e seus amigos artistas. Quando Jean Cocteau encenou Le Boeuf sur le Toit em 1920 como a farsa balé-pantomima The Nothing Happens Bar (mais tarde intitulado The Nothing Doing Bar), ele contratou Paul, François e Albert Fratellini para desempenharem papéis-chave na produção. A François foi dado o papel da Mulher de Cabelo Ruivo, e a Albert o da Mulher de Vestido Decotado. Durante o desenvolvimento do balé, as duas mulheres dançam um tango na música “Tristeza de Caboclo”. O desenho de Raoul Dufy das personagens do balé, incluindo as mulheres que dançam tango, ilustra a capa da edição para piano a quatro mãos do Boeuf pela Dover.


Cena de “The Nothing Doing Bar” por Dufy (cortesia de Laurent Gloaguen)

Em sua versão original, “Tristeza de Caboclo” foi gravado pelos cantores O Francês (em um programa de rádio) e Roberto Fioravante (1968) e pelos pianistas Mário de Azevedo (Sinter SLP-1090; 1956), Marcelo Guelfi (1983) e Eudóxia de Barros (1999).

A gravação mais antiga e a única listada na base de dados da Fundação Joaquim Nabuco é a pelo duo vocal Os Geraldos:

Título: Tristeza de Caboclo
Gênero: Tango
Intérprete: Os Geraldos
Gravadora: Gaúcho
Número: 4043

O autor não é especificado, mas uma partitura para piano publicada pela Sasseti & Cia. em Lisboa—igualmente anônima, mas com as notas musicais e letra corretas—anuncia a música como sendo do Repertório dos Geraldos.


Os Geraldos

Nós ouviremos tanto um trecho cantado por Roberto Fioravante em seu LP de 1968 Mensagem de Saudade

como a gravação completa de 1983 pelo pianista Marcelo Guelfi.

Nas partituras da época, “Tristeza de Caboclo” era arranjado para piano ou para piano & sexteto. Um exemplar brasileiro da partitura para piano em minha posse (resgistrada como P5383, enquanto que a partitura portuguesa foi registrada como P5380) traz a manchete Cine-Orchestra e lista na capa piano, violino A, violino B, clarineta, violoncelo e baixo.

Ambas as partituras fornecem a seguinte letra:

Tristeza de Caboclo
Tanguinho
Letra de Arlindo Leal
Musica de Marcello Tupynambá

Quando na roça anoitece
Fico sempre a meditá!..

      (Côro) Fica sempre a meditá!.. [bis]
Meu coração, que padece,
Não me deixa socegá!...
      (Côro) Não o deixa socegá!.. [bis]

Estribilho:
Minh'arma, com fervô,
Quando ha luá
Chora o seu amô
E sem podê se aconsolá
Garra logo a suspirá!..
      (Côro) Quem ama, com fervô, etc.

Meu coração, com tristeza,
Quando surge o bom luá.

      (Côro) Quando surge o bom luá... [bis]
Sabe, com muita firmeza,
Seus queixumes disfarçá!..

      (Côro) Seus queixumes disfarçá!.. [bis]

Estribilho:
Minh'arma, com fervô, etc.

Quem sabe amá, com ternura,
Nunca deixa de sonhá...

      (Côro) Nunca deixa de sonhá! [bis]
Não soffre a negra amargura
Que me anda a acabrunhá!

      (Côro) Que o anda a acabrunhá!.. [bis]

Estribilho:
Minh'arma, com fervô, etc.

Quando eu pego na viola,
Com vontade de cantá,
      (Côro) Com vontade de cantá!... [bis]
Meu coração se aconsola,
Alliviando seus pená!...
      (Côro) Alliviando seus pená!... [bis]

 

 

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