O Pessoal da Velha Guarda

Programa No. 1

Transcrito por Alexandre Dias


Pixinguinha e Benedito Lacerda (Acervo Sérgio Prata)

8-10-1947
(Collector’s AER022 Lado A)

[Vinheta]

Locutor: A Rádio Tupi e a Rádio Tamoio apresentam: O Pessoal da Velha Guarda, um programa para oferecer músicas do Brasil de ontem e de hoje em arranjos especiais de Pixinguinha para a orquestra exclusiva do Pessoal da Velha Guarda. Polcas, xotes, valsas, modinhas, choros, enfim, as músicas tradicionais das serenatas aqui aparecerão tocadas também por um legítimo grupo de chorões, formado de bombardino, flautas, violões, saxofones, violões, cavaquinhos, e entoadas por autênticos seresteiros. Também aqui vocês terão a flauta de Benedito Lacerda em diálogos harmônicos com o trêfego saxofone de Pixinguinha. Tudo isso ouvintes, comandado pela mais alta patente do rádio! Quando essas melodias nos chegam, chegam-nos também lembranças deliciosas de um tempo que já vai longe, de um tempo que pertence à juventude do pessoal da Velha Guarda. E o Pessoal da Velha Guarda, aqui está, comandado por Almirante, para contar coisas do tempo antigo num programa que é oferecido pela organização Vinhos Único. Há 40 anos que a organização Vinhos Único vem impondo a qualidade nos vinhos brasileiros. Únicos na marca, únicos na qualidade, beba Vinhos Único, e Champanhe Mônaco, o melhor champanhe nacional que também é único!

Almirante: Boa noite, ouvintes de todo o Brasil! Quarta-feira, 21 horas, Champanhe Mônaco, Pessoal da Velha Guarda, quatro elementos dispostos para oferecer aos ouvintes meia hora de recordações preciosas e informações curiosas a respeito de jóias da nossa música popular, especialmente de tempos passados. Em cada uma dessas noites de programa, temos, por um processo ou outro, chamado a atenção para a beleza e o valor de nossas coisas, por outro lado, combatemos, na medida de nossas possibilidades, tudo que de ruim existe nas composições populares, desde a pobreza de inspiração musical até os versos inexpressivos e de má linguagem. Por menos influência que tenham tido nossos comentários, não será lícito que se pense que eles não tenham contribuído com uma parcela mínima que seja para que as obras brasileiras venham sendo vistas com mais carinho e interesse pelos próprios brasileiros. Eis aí por que a registramos com enorme entusiasmo o que vem sucedendo nos últimos dias nos nossos meios musicais. Conforme investigação feitas nas casas de piano e discos, três são as músicas de maior aceitação nesta cidade nas últimas semanas, e com o maior prazer o dizemos, estas três são brasileiras: “Fim de Semana em Paquetá”, “Gredo” e “Se Queres Saber”. Parabéns aos brasileiros, e pelo que toca a esses incansáveis batalhadores que são os da Velha Guarda, que entraram com seu grão de areia orientando a preferência do povo, só lhe podemos agradecer aplaudindo com mais força o seu trabalho patriótico. Aplaudindo Pixinguinha! [aplausos] Aplaudindo Benedito Lacerda com seu regional! [mais aplausos] Raul de Barros e o Grupo dos Chorões! [aplausos calorosos] E a orquestra formada exclusivamente do Pessoal da Velha Guarda! [aplausos finais]

Nós podemos quase que afirmar que o Pessoal da Velha Guarda conseguiu ressuscitar um gênero musical completamente esquecido: a polca marcha. Entre as músicas executadas, já podemos observar que são as polcas-marcha que mais entusiasmo tem despertado entre vocês ouvintes. Eis aí porque, para que você fiquem bem predispostos, vamos abrir essa apresentação com o gênero que vocês tanto apreciam. A de hoje é da autoria de Pixinguinha. Chama-se “A Esquecida”, e seu nome está em franco desacordo com o que está lhe acontecendo agora. Sim, pois como é que pode ser esquecida uma música de que nós nos estamos lembrando, não é mesmo? No arranjo de Pixinguinha que a Orquestra do Pessoal da Velha Guarda vai tocar, prestem atenção ao trabalho das flautas na segunda parte, e dos saxofones na terceira parte. Então prontos? Vamos lembrar “A Esquecida”, maestro?

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “A Esquecida” (Pixinguinha)

Almirante: Esses efeitos sonoros de vozes em surdina tem um nome muito bem aplicado, nome que reproduz onomatopaicamente esses sons: cochichando, cochichar, cochichos. Um dos choros de Pixinguinha procura imitar esse efeito vocal, e é isso que você vão ouvir agora pela flauta de Benedito e pelo saxofone do autor. Toda a habilidade dos executantes está em procurar reproduzir com fidelidade o tom de segredos que caracteriza o cochicho. Por outro lado, cabe aos que ouvem, também mostrar a sua habilidade em entender o que uma flauta e um saxofone cochicham. Atenção, pois, ouvintes, procurem entender o que vão conversar por meio de seus instrumentos o Benedito e o Pixinguinha através desse choro que se chama “Cochichando”.

Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional: “Cochichando”* (Pixinguinha/Benedito Lacerda)

[* Esta música não foi gravada pela dupla em disco comercial.]

[Orquestra toca uma valsa]

Almirante: Houve tempo, em que a influência francesa foi muito grande em nossa terra. Sentia-se em tudo um interesse pelas coisas da França. Nas artes, na linguagem, nos costumes, na música, no teatro, nos letreiros das ruas, e até nos títulos das casas. Durante anos e anos, só era considerado bom o que vinha da França. No terreno musical, era dificílimo vencer aquele convencionalismo especialmente com relação às canções ou cançonetas, e as valsas. Valsas francesas de autores francesas eram aqui mais conhecidas do que um níquel de tostão. Entretanto, uma ou outra música de outro país conseguia varar a barreira francesa e tornar-se aqui tão querida a ponto de ninguém mais cogitar em saber se era estrangeira ou nacional. Havia uma que vinha da Inglaterra, pois chama-se “Supplication”, e seu autor era um tal de W.J. Paans.*

Com o incrível sucesso que alcançou aqui, principalmente depois que recebeu versos em português, a música passou a se chamar também “O Último Beijo” ou então também “Não Quero Mais Teus Beijos”. E tão aclimatada ficou, que eu sei que muitos de meus ouvintes hão de estranhar não ser brasileira essa notável melodia de valsa, que foi das músicas mais marcantes da nossa terra há bem uns 30 anos atrás.

[* Na verdade, W.J. Paans era belgo.]

Gilberto Alves e Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Supplication” ou “Não Quero Mais os Teus Beijos” (W.J. Paans/Eustórgio Wanderley)

Não, não quero mais teus beijos
Pois se não eu morrerei
Nessa febre de desejo
O meu coração queimei

Sinto que me põe de [?]
Nesta embriaguez [sensual?]
Deixa-me partir, querida
Para me livrar do mal

Não posso mais viver aqui
Vou talvez fugir de ti
Levando tanta saudade
Dessa imensa crueldade
E vai assim meu coração
Pela ambição [?] ganhar
Pobre coitado chorando
Não, ó nunca mais

Em meu coração violino
[?] imaculado [?]
O seu beijo é um martírio
Para um coração em flor

Deixa-me partir chorando
Deixa-me partir por Deus
Levo à boca transbordando
O sabor dos beijos seus

Almirante: A ida dos Oito Batutas a Paris em 1922 deu motivos ao aparecimento de um punhado de músicas inspiradas no enorme sucesso do famoso conjunto. Lá em Paris, Pixinguinha e outros componentes do grupo foram obrigados a compor músicas apropriadas para determinadas circunstâncias. Por exemplo, para apresentar o grupo aos parisienses frequentadores do Sheherazade, cabaré onde os Oito Batutas se exibiram, foram feitas nada menos que duas composições. Uma delas era para ser cantada, e a outra somente executada. É esta última que vai ser agora recordada pelo Benedito e pelo Pixinguinha. Seu nome é mesmo “Os Oito Batutas”, e vocês verão que é um choro de bulir com frade pedra.

Benedito Lacerda, Pixinguinha e regional: “Os Oito Batutas” (Pixinguinha/Benedito Lacerda)

Almirante: A lembrança dos Oito Batutas em Paris faz também com que nos venha à mente um artista brasileiro que contribuiu enormemente para que a Europa viesse a conhecer alguns dos nossos costumes coreográficos: o famoso bailarino Duque. Quando os Oito Batutas se exibiram na capital francesa, lá estava o Duque, já figura acatadíssima nos meios artísticos e sociais na cidade. Já ele lá estava há muitos anos, ou pelo menos tinha estado por várias épocas seguidas. Fora ele o lançador do tango brasileiro, e mais tarde do maxixe brasileiro na Europa. Criador de uma técnica de dança em que predominava a elegância de movimentos, Duque firmou-se como expoente em sua arte. Entretanto, não era só bailarino o simpaticíssimo Antônio Lopes de Amorim Diniz, que este é o nome de Duque, era e é poeta e compositor e entre suas composições algumas chegaram a constituir legítimo êxito como foi o caso desta que vamos relembrar agora nessa passagem do Grupo dos Chorões. Trata-se de um samba que já tem uns 20 anos de idade. Apareceu em 1927, quando não houve que não o cantasse por toda a parte em festas nos teatros e pelas ruas. Seu nome é “Passarinho do Má” vamos apresentá-la ajudada aqui pelo nosso imenso coro de sempre.

Déo, coro e Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Passarinho do Má” (Antônio Lopes do Amorim Diniz)

Passarinho do má tava cá
Não havia maneira de enxotá

Meu roçado de mio, secô
Meu cavalo de sela, mancô
Meu cachorro de caça, danô
Minha sogra de longe, vortô

[refrão]

A corrente de prata, partiu
O relógio na pedra, caiu
O dinheiro do borso, sumiu
A muié que eu gostava, fugiu

[refrão]

A geada os legume secô
O alambique do monte, quebrô
Vento sul deu nas cana, estragô
A cachaça na roça, acabô

[refrão]

Água suja do monte, desceu
O riacho num instante, cresceu
O porquinho que tinha, morreu
A muié a vergonha, perdeu

[refrão]

Passarinho do má já vuô
Ninguém sabe onde pousô
Passarinho do má se vortá
Espingarda taí pra matá

[refrão]

Almirante: Aquele que disse que não gosta dos nossos ritmos é porque na verdade nunca ouviu nossos ritmos. Não sabe a gostosura que vem da junção da pancadaria dos pandeiros, dos ganzás, dos tamborins, dos reco-recos, das cuícas, dos surdos, dos omelês, dos pratos, dos surdos, dos chocalhos, etc. Temos visto muita gente que diz detestar o som bárbaro desses instrumentos de percussão acompanhar horas e horas pelas ruas no carnaval os grupos ou escolas de samba quando desfilam com o seu material completo tangido por mão de legítimos virtuoses. Foi para provar a riqueza dos nossos ritmos, e a possibilidade de certos instrumentos de percussão que Pixinguinha compôs para orquestra a peça que ele denominou “Concerto para Bateria”. Depois que foi executada a primeira vez, essa composição tem sido insistentemente pedida pelos ouvintes. Como se trata de um curto completo de ritmos brasileiros, ela vai servir para encerrar a audição de hoje do Pessoal da Velha Guarda. Os temas melódicos usados pelo Pixinguinha são de sambas legítimos do partido alto. Além do arranjo, entra Benedito Lacerda com o seu regional em variações espetaculares do Urubu Malandro. A parte principal desse concerto está confiada ao nosso baterista da Velha Guarda, o Sutinho, que vai ter a oportunidade de fazer solos a descoberto em que poderá mostrar todas as suas faculdades de ritmista. Ouçam pois o notável “Concerto para Bateria”.

Orquestra Pessoal da Velha Guarda, Sutinho, Benedito Lacerda e Regional: “Concerto para Bateria” (Pixinguinha)

Locutor: Ora meu amigo, não discutamos sobre vinho. Para que discussões, se só há um Vinho Único? Sim, só há um Vinho Único. E isso quer dizer que Único é a marca que define um grande. Eis aqui a parada dos tipos do Vinho Único: clarete, grande vinho branco doce, moscatel licoroso, malvasia tipo porto, espumante tinto, e ainda há muitos outros vinhos notáveis da famosa marca único. E como excelência entre os champanhes excelentes, está o champanhe Mônaco, o melhor champanhe nacional. Champanhe Mônaco, o Aristocrático. Produto da marca Único.

[Vinheta]

Almirante: E aqui se despede por hoje o Pessoal da Velha Guarda, que conta com a participação especial de Benedito Lacerda e seu regional, e de Pixinguinha. Na audição de hoje vocês tiveram os arranjos especiais de Pixinguinha para a Orquestra do Pessoal da Velha Guarda. Os números de bossa do Grupo de Chorões que conta com o bombardino de Raul, os acompanhamentos do famoso regional de Benedito Lacerda, os cantores foram Déo e Gilberto Alves, o locutor Reinaldo Dias Lemes. Na próxima quarta-feira às 21 horas, aqui estará novamente o Pessoal da Velha Guarda. E novamente oferecido pelo Champanhe Mônaco, da organização dos Vinhos Único!

[Vinheta final]

 

Programa No. 2

O Pessoal da Velha Guarda


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