O Pessoal da Velha Guarda

Programa No. 2

Transcrito por Alexandre Dias


Chiquinha Gonzaga

15-10-1947
(Collector’s AER022 Lado B)

[Vinheta inicial]

Almirante: Há uma observação que me ocorre fazer agora nessa abertura de programa. Tenho cá comigo que alguns de nossos cantores são os culpados pela forma incaracterística que vai tomando a nossa música. Eu me explico melhor. Música, qualquer que seja, também se caracteriza pelo ritmo contido na sua linha melódica. A melodia de uma música qualquer, deve seguir passo a passo o movimento rítmico de seu acompanhamento. Isso tudo ouvintes está sendo dito assim de forma bem popular para que todos compreendam facilmente. Somente pela linha melódica deve ser reconhecido o ritmo, seja de um samba, de uma valsa, de uma marcha, etc. Pois bem, o que acontece atualmente, com o nosso samba principalmente é o seguinte: os cantores, na ânsia de uma interpretação que toca as raias do exagero, vivem se espremendo pelas melodias afora, numa forma gemente, antecipando ou atrasando as frases musicais fugindo completamente às regras de música que determinam os tempos fortes e os tempos fracos.

O resultado é que, pela maneira como cantam a linha melodia, ninguém reconhece se aquilo é samba, ou é valsa, ou é marcha. Vou dar um exemplo objetivo.

Um samba assim, cujo ritmo pode ser reconhecido somente pela sua melodia assim: Meu amor partiu, e me deixou saudades [cantando]. Na voz desses cantores do balanceio, vamos dizer assim, não tem o menor caráter de samba. Pois quem é que reconheceria como samba esta confusão de gemidos assim: Hmmmeu Amooorr partiuuu e meee deixouu saudadess.

Cantores e cantoras de música popular, o maior benefício que vocês podem fazer à música brasileira é cantar o samba como samba, a marcha como marcha, a valsa como valsa, etc., etc.! Nada de andar imitando Bing Crosbys e Frank Sinatras! Os efeitos que eles fazem nos fox-trots podem ser bons nos fox-trots, mas não para as nossas músicas. Nesse ponto, honra seja feita ao Pessoal da Velha Guarda, que toca as nossas músicas com a maior exatidão e maior respeito às suas características incompungíveis! Isso somente já é boa razão para que a gente aplauda ainda mais os que realizam essas audições: o Pixinguinha! [aplauso] O Benedito Lacerda com seu regional! [aplauso] O Raul de Barros com o Grupo de Chorões! [aplauso] e a orquestra formada só do Pessoal da Velha Guarda! [aplauso]

Se nunca vi em mundo algum uns olhos como os teus,
Eu não sei mesmo como hei de comparar não sei
Eu já tentei cantar o teu divino olhar...

Chama-se Irineu de Almeida o autor dessa linda xótis que está sendo lembrada neste momento. Entre as muitas músicas que Irineu deixou, uma delas tinha o nome de um famoso carnavalesco. O nome bem, não, mas o apelido: “Morcego”.

Morcego era cronista carnavalesco, fazia parte da roda de chorões, e era democrático ferrenho. A polca que Irineu de Almeida lhe dedicou, possui uma curiosidade: na terceira parte, a música interrompe para que todos gritem “Ô Morcego!”. O arranjo que vão ouvir é de Pixinguinha, e é especial para a Orquestra Pessoal da Velha Guarda.

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “O Morcego” (Irineu de Almeida)

Almirante: Antigamente quando uma música fazia sucesso, durava anos e anos no cartaz. Não havia os processos de divulgação ampla como hoje, e cada música, quando se tornava conhecida de toda a gente, tinha chegado àquele ponto graças aos chorões e seresteiros, que viviam a divulgar pelas ruas ou pelos salões nos saraus familiares as melhores composições do seu repertório. Músicas havia cuja maior duração se devia ao fato de terem surgido a princípio somente para serem tocadas, e depois para serem cantadas com os versos que lhes aplicavam os poetas do tempo. Foi esse por exemplo, o caso de uma certa polca denominada Eugeni, Eugênia em francês. E que teria surgido logo nos princípios deste século. Em 1903, num concurso realizado por um jornal humorístico chamado “O Tagarela”, alcançou o quinto lugar. Já era então bem conhecida. Mais tarde, com os versos que recebeu, e cujo autor é hoje desconhecido, ganhou ainda mais popularidade passando a ser conhecida não mais só pelo seu nome de Eugênia, mas pelo que foi tirado do primeiro verso de sua letra: Meu Deus, que noite sonorosa. Havia até então, nem tenho certeza se era uma paródia, ou mesmo outros versos outros cujo início era assim: Meu Deus, que noite sonorosa, sapato branco e meia cor-de-rosa! Não sei o resto, nem mesmo se havia resto. Agora, numa passagem do Grupo de Chorões, vocês vão recordar a velha polca, sucesso de perto de cinqüenta anos atrás, cujo autor chamou-se José Belisoário de Santana.

Onéssimo Gomes, e Grupo de Chorões: “Eugênia” (José Belisoário de Santana)

[Trecho de música]

Almirante: O autor desse popular estribilho carnavalesco, parceiro aí de Assis Valente, é um brilhante militar que se oculta sob o pseudônimo de Zequinha Reis. O rigor da vida de caserna não lhe alterou a inspiração. Tanto que volta e meia ele nos surge com uma outra melodia em que se reflete sua alma de artista. Há algum tempo, obrigado por imposições de sua carreira militar, viu-se afastado do Rio de Janeiro, cidade que ele tanto adora. O afastamento da capital, encheu-lhe o coração de saudades sem conta. E elas se extravasaram numa linda melodia de choro que Zequinha Reis compôs e entregou a Benedito e a Pixinguinha para que gravassem. Para que também no título de sua música ficasse o sentimento que a inspirou, Zequinha Reis deu-lhe um nome perfeito: “Saudades do Rio”. É isso que vocês ouvirão em seguida pela flauta de Benedito e pelo saxofone de Pixinga com os acompanhamentos do regional.

Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional: “Saudade do Rio” (Zequinha Reis)

Ô abre alas, que eu quero passar,
Ô abre alas, que eu quero passar,
Eu sou da lira não posso negar
Eu sou da lira não posso negar!

Almirante: A famosa marcha de rancho, a marcha vovó dos nossos carnavais, está prestes também a comemorar o seu cinqüentenário, anuncia os momentos desse Programa da Velha Guarda em que nos associamos às comemorações da data aniversária da famosa compositora brasileira Chiquinha Gonzaga. Cem anos faria ela depois de amanhã se estivesse viva. Considerada, com a maior justiça, como a maior e melhor de nossas compositoras populares, Chiquinha Gonzaga vive ainda hoje na saudade daqueles que a conheceram pessoalmente e também na daqueles que somente puderam sentir a pujança de sua inspiração através das jóias melódicas que ela nos deixou. É pois, comovidamente, que o Pessoal da Velha Guarda dedica esta parte do seu programa à memória daquela criatura excepcional cujo talento ficou registrado nas incomparáveis páginas musicais que escreveu. Para abrir essa seção de saudades, Benedito e Pixinguinha escolheram uma das polcas mais lindas de Chiquinha Gonzaga, tão linda, que mereceu das que a ouviram pela primeira vez, o nome que a autora aceitou e conservou logo: “Atraente” Escrita em 1877, conta hoje, pois, 80 anos. Foi o primeiro grande sucesso de Chiquinha Gonzaga.

Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional: “Atraente” (Chiquinha Gonzaga)

[Música de fundo: “Água de Vintém” (Chiquinha Gonzaga)]

Almirante: Começando a compor muito cedo, já aos 10 anos de idade, Chiquinha apresentava seções a sua família de uma cantiga que escrevera para os festejos de natal. Casando-se aos 13 anos, viu-se, não muito depois, afastada do esposo e obrigada a manter-se, o que conseguiu valendo-se de aulas de piano e das vendas de suas músicas que mandava imprimir e vender de porta em porta pelas ruas pela mão de negros escravos. Com [?] invencível, atravessou galhardamente o longo período em que o convencionalismo de amigos e pessoas de sua família tentava ostensivamente não só impedir seu trabalho honrado, como ainda cercar seu nome de uma auréola difamatória. Compondo incessantemente, e oferecendo periodicamente ao público músicas saborosíssimas de caráter brasileiríssimo, Chiquinha Gonzaga conservou em toda sua longa existência a faculdade inalterável de imprimir às suas melodias um som enfeitiçador que as levava sempre ao fundo da alma dos que as ouviam. Por isso, cada nova música sua era um êxito seguro. Vale lembrar até como bom exemplo uma certa canção que apresentou numa revista de Luis Peixoto e Carlos Bittencourt chamada “Forrobodó”, e que foi a canção marcante de uma peça em que dezenas de outras músicas se destacavam de modo especial. Mas a que perdurou por anos e anos foi a “Lua Branca” de Chiquinha Gonzaga.

Moraes Neto (canto) com Benedito Lacerda e regional: “Lua Branca” (Chiquinha Gonzaga)

Almirante: Em 1897, o ator Machado Careca tinha em cena num dos nossos teatros uma peça de nome Zizinha Maxixe. A peça explorava muito o sucesso que então fazia por aqui uma dança de origem misteriosa que diziam ter vindo dos passos e dos movimentos escandalosos de um indivíduo apelidado Maxixe, habituê dos bailes da Cidade Nova. Para aquela peça, Chiquinha Gonzaga compôs um tango que denominou “Gaúcho” e que servia para acompanhar uma dança conhecida como corta-jaca, popular em alguns lugares do Brasil. A música alcançou logo enorme sucesso e aumentou muito depois que recebeu uns curiosos versos que diziam:

[Neste ponto o piano começa a fazer o acompanhamento do “Corta-Jaca” da Chiquinha, e o Almirante canta a primeira parte]

Neste mundo de misérias quem impera
é quem é mais folgazão
é quem sabe corta-jaca nos requebros,
De suprema perfeição, perfeição
é quem sabe corta-jaca nos requebros,
De suprema perfeição

Durante anos seguidos, a notável música foi a coqueluche nesta cidade, e em 1914, andava ainda tão na moda, que serviu para ser executada em solo de violão, numa recepção oficial no Palácio do Catete executado pela esposa do então presidente da República [Hermes da Fonseca], fato que causou enorme escândalo no seio da sociedade. É com esta famosa composição de Chiquinha Gonzaga, que vamos encerrar esta audição de hoje do Pessoal da Velha Guarda nestes momentos que dedicamos à memória da célebre maestrina. Pixinguinha escreveu para a orquestra um arranjo especial que valoriza detalhadamente cada passagem da célebre música. Atenção, pois, para o “Gaúcho”, o “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga.

[Vinheta final]

Almirante: E aqui se despede por hoje o Pessoal da Velha Guarda que conta com a participação especial de Benedito Lacerda e seu regional e a de Pixinguinha. Na audição de hoje vocês tiveram os arranjos especiais de Pixinguinha para a Orquestra do Pessoal da Velha Guarda, os números de bossa do Grupo de Chorões que conta com o bombardino de Raul, os acompanhamentos do famoso regional de Benedito Lacerda. Os cantores foram Onéssimo Gomes, Moraes Neto, Paulo Tapajós e Coro. O locutor, Carlos Frias. Na próxima Quarta-feira, às 21 horas, aqui estará novamente o Pessoal da Velha Guarda!

Locutor: E novamente oferecido pelo Champanhe Mônaco, da organização Vinhos Único.

 

Programa No. 3

O Pessoal da Velha Guarda


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