O Pessoal da Velha Guarda

Programa No. 3

Transcrito por Alexandre Dias


Jacob do Bandolim

29-10-1947
(Collector’s AER023 Lado A)

Almirante: Boa noite, ouvintes de todo o Brasil! Aqui está novamente o Pessoal da Velha Guarda com mais um punhado de músicas encantadoras, músicas representativas de todas as épocas, e que ficariam perdidas inteiramente se esses bambas como Pixinguinha e Benedito Lacerda não as fossem desencavar todas as semanas para a alegria daqueles que as conheceram no passado.

Em outras irradiações, comentamos aqui o modo como certos cantores desvirtuam as nossas músicas e os nossos ritmos. Hoje queremos fazer um reparo quanto à maneira como alguns cantam os versos. Temos notado que muitos cantores, sem o menor respeito para a obra original, alteram as palavras, tirando o sentido exato dos versos, e, às vezes, até deturpando-os completamente.

Há poucos dias ouvimos um cantor famoso interpretando a linda canção Guacira, e ao fazê-lo, corrigia os versos que são e devem ser em linguagem simples de caboclo do sertão. Colocava ‘R’s e ‘S’s finais onde não devia haver. Por exemplo, onde se deve cantar assim: Eu vou m’embora mas eu vorto nesse dia. Virge Maria, tudo há de permiti, Ele aí cantava permitiR claramente. Mais adiante, onde deve ser E se ela não quisé, ele colocava o ‘R’, dizendo E se ela não quiseRRRRR, bem claro. Ora, esquecia-se ele, de que só naquela linguagem sertaneja a cantiga ficaria perfeita, por causa das rimas, que são: permiti para rimar com ti, e quisé para rimar com fé. Em todo caso, ouvintes, dos males o menor, pois imaginem vocês se o artista resolve cantar correto, arranjando rimas perfeitas para tudo que dizia. Neste caso então, ele teria que cantar assim: Virgem Maria tudo há de permitir, e se ela não quiser, eu vou morrer cheio de féR, pensando em tiR! [risadas]

O fato de ser arte popular não significa que não deva ser perfeita, quer na apresentação de sua parte musical, quer na poética, não é mesmo? Este cuidado, que é o que preserva o nosso patrimônio artístico todos reconhecem, é a preocupação constante desses batutas que realizam essas audições da Velha Guarda. E isto somente já é razão para que sejam aplaudidos cada vez com mais calor! O grande Pixinguinha! O alegre Benedito Lacerda com seu regional! O animado Raul de Barros com o Grupo dos Chorões! E os afinados componentes da Orquestra do Pessoal da Velha Guarda!

É interessante como certas músicas agradam imediatamente a maioria dos ouvintes. Na semana passada fechamos a audição do Pessoal da Velha Guarda com uma polca que na certa quase 100% dos ouvintes nunca ouviram antes. Foi uma polca de Aristóteles de Magalhães Fleury denominada “Fecha a Carranca”, música ligada a acontecimentos de veras pitorescos de nossa cidade. Pois vocês não imaginam, meus amigos, a quantidade de pedidos que recebemos para a repetição daquela interessantíssima música. Acreditamos que a música tenha agradado tanto, um pouco também devido à história que contamos explicando a sua origem. E nesse caso, para aqueles que não ouviram a irradiação passada, agora que vamos repetir, atendendo a tantos pedidos, aquela grande polca. Vamos dar uma explicação rápida. Há alguns anos, o comércio do Rio de Janeiro, que fechava as suas portas às 8 horas a noite, foi obrigado a fechar às 7. Alguns comerciantes caturras acharam que não deviam obedecer às posturas municipais, e não fechavam na hora marcada pela lei. Como não houvesse bastante fiscalização, não lhes acontecia. E seus pobres empregados eram obrigados a permanecer trabalhando presos por patrões tão desumanos. Foi quando um indivíduo providencial apareceu intimando com um grito que logo se popularizou de “Fecha a carranca” os patrões recalcitrantes. Ele passava pelas portas das casas que não fechavam às 7 e gritava para dentro agressivamente assim “Fecha a carranca!” Aos poucos, outros empregados do comércio vieram em auxílio dos prisioneiros e, percorrendo as ruas depois das 7 horas, gritavam também o “Fecha a carranca” de porta em porta. O processo deu resultado, tanto que, em pouco tempo, já não se ouvia pelas ruas o grito providencial. Essa curiosa passagem da vida de nossa cidade ficou registrada numa polca que tomou o nome de “Fecha a Carranca”. Pixinguinha instrumentou para O Pessoal da Velha Guarda, e isso que vamos ouvir novamente. Ouvir e ajudar, gritando numas paradas que há na primeira parte um alegre “Fecha a Carranca!”

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Fecha a Carranca” (Aristóteles de Magalhães Fleury)

[O coro começa a cantar um samba]

Almirante: Num desses programas, apresentamos a vocês o sambinha que agora ainda está sendo lembrado pelo coro. Dissemos então que seu autor era o famoso Leopoldo Froes. Naquela ocasião, fizemos referência à música mais célebre do saudoso ator: a “Mimosa”. Leopoldo Froes, se bem quisto hoje esteja completamente esquecido, foi também compositor. “Mimosa” foi seu maior sucesso. Veio depois do sambinha que ouviram há pouco, cujo nome é “Samba Choroso”. Mas além desses, Leopoldo compôs ainda um chanson chamado “Aimer l’Amour” [Amar o Amor], uma cançoneta chamada “Quem Não Tomou Chá Pequenino?” e um lundu de nome “Samba Fidalgo”. Creio que não deixa de ser uma essa informação de que Leopoldo Froes compôs tantas músicas, não é mesmo? Sua composição mais célebre, a “Mimosa” não pode deixar de figurar numa dessas audições da Velha Guarda. E isso acontecerá hoje mesmo, agora mesmo. Apreciem nesta passagem do Grupo de Chorões a imortal “Mimosa”, a canção, que no dizer de Alfredo Tomé, biógrafo de Leopoldo Froes, de tal modo evocava o seu autor, que mais parecia um hino à sua pessoa.

Paulo Tapajós e Grupo de Chorões: “Mimosa” (Leopoldo Froes)

[Jacob começa a tocar seu bandolim]

Almirante: Jacob Bittencourt, o nosso queridíssimo Jacob do Bandolim, figura marcante da música popular de nossos dias, campeão de brasilidade, batalhador incondicional pelas nossas músicas de hoje e de ontem, acaba de fazer sua primeira gravação ouvintes. Vocês que tanto procuraram em vão até hoje os discos das músicas com que Jacob se exibe em seus programas semanais da Rádio Mauá, agora poderão satisfazer seu desejo. Jacob acaba de gravar o seu primeiro disco. E nós o trouxemos hoje ao microfone da Velha Guarda para dar ciência a todos os seus admiradores de que já o podem ter em suas casas graças ao discos que registram sua virtuosidade. Jacob é o novo da Velha Guarda. E é pois com alegria sincera que desejamos o sucesso de suas gravações. E para conhecimento de vocês que o admiram, queremos anunciar as duas músicas que lá estão no primeiro disco de Jacob: de um lado, esta formosa valsa-serenata de Bonfiglio de Oliveira: “Glória”.

Jacob do Bandolim, e Grupo de Chorões: “Glória” [trecho] (Bonfiglio de Oliveira)

Almirante: E do outro lado, ouvintes, Jacob oferece o seu extraordinário choro “Treme-Treme”! Que tanto agradou a vocês todos quando aqui foi tocado já por duas vezes. Na gravação, Jacob se apresenta solando com um arranjo próprio. Mas aqui na Velha Guarda, vai aparecer agora, acompanhado de Benedito e Pixinguinha, que, como donos da casa que são, estarão aqui no papel de cicerone do hóspede de honra. Atenção pois para o “Treme-Treme” de Jacob.

Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Benedito Lacerda, e Grupo de Chorões: “Treme-Treme” (Jacob Pick Bittencourt)

Almirante: Um dos gêneros mais encantadores da música popular brasileiro é o que se chama choro. Denominação recente que tomou a velha polca, o choro brasileiro já possui representantes que provam de sobejo a veia inspirada dos que os compuseram. Entre os mais legítimos chorões, compositores do gênero, contava-se o Nelson Alves, exímio tocador de cavaquinho, e que já foi citado várias vezes nesse programa da Velha Guarda. Aqui está hoje mais uma vez seu nome como garantia da superioridade de um grande choro. Trata-se do alegre choro Serpentina escrito para cavaquinho. E que vocês ouviram pelo Benedito na flauta pelo Pixinguinha no Saxofone, Canhoto, Dino e Meira em cavaquinho e violões.

Benedito Lacerda, Pixinguinha, Canhoto, Dino, Meira e Grupo de Chorões: “Serpentina” (Nelson Alves)

Vão acabar com a Praça 11...

Almirante: A musa das ruas mostrava assim a sua tristeza quando correu a notícia de que iria desaparecer o reduto famoso do povo no carnaval: a Praça Onze. A cantiga popular era um lamento, e encontrava eco e todos os corações amantes das tradições dessa Muito Leal e Heróica Cidade do São Sebastião do Rio de Janeiro [nome oficial do Rio]. Era consciência do povo que mostrava naquele verso triste encaixado em melodia mais triste ainda. Vão acabar com a Praça Onze... Já não era a primeira vez que a gente das ruas revelava o seu pesar pelas modificações que os urbanistas operavam ou pretendiam operar no corpo formoso desta cidade. Alguns anos antes, quando o [urbanista] francês [Alfred] Agache aqui estivera, pondo em povorosos humildes moradores da favela com a ameaça de que ia abaixo o morro histórico, também o povo cantou pela voz de Sinhô todo o seu pesar pelo que se projetava.

Minha caboca, a favela vai abaixo
Quanta saudade tu terás desse torrão

Tudo isso, ouvintes, vem a propósito do seguinte fato: vai acabar o Largo da Carioca. O largo histórico do chafariz, que desapareceu já há quase 20 anos. O largo onde existiu o quartel da guarda velha. O caminho obrigatório dos boêmios e das elegantes que rumavam da zona norte para a zona sul ou vice-versa, quando ainda não existia a Avenida Central. O largo de onde saía a Rua da Vala, e onde os crentes se aglomeravam antes de subir as escadinhas do vetusto convento de Santo Antônio. Vai desaparecer o encantador refúgio dos pardais. Máquinas possantes já revolvem o asfalto, e arrancam do solo as velhas raízes daquelas árvores cuja resistência em se despregar do solo prova a obstinação da alma daqueles vegetais que sabem que têm mais direito àquela terra que é a sua terra natal, que todos esses barulhentos automóveis estrangeiros que serão de agora em diante os donos daqueles brasileiríssimos pedaços de chão. Já ninguém mais ouvirá pela tardinha o chilreio alegre dos passarinhos que se aninham pelas árvores seculares. Já ninguém mais atravessará ali receosos das encomendas que possam vir do alto e que pareciam ter preferência especial pelas roupas brancas. Vai desaparecer o Largo da Carioca. E será que nenhum dos nossos compositores não encontrará nesse fato inspiração o bastante para escrever um lamento igual ao que já mereceram a Praça Onze e a Favela? Compositores do Brasil, aí está um tema magnífico ligado a acontecimento histórico! Vai desaparecer o Largo da Carioca. Tudo isso nos faz lembrar uma célebre música. Sucesso de há vinte e tantos anos atrás, que decantava os maus modos dos passarinhos daquele largo. Foi escrito pelo Luiz Nunes Sampaio Careca, e vai aqui ser apresentada numa curiosa instrumentação de Pixinguinha em que aparecem os pipilos dos passarinhos da Carioca numa imitação perfeita de violinos, flautim e flauta. Para finalizar o arranjo, numa transição de marcha viva para lenta, marcha de rancho, em forma saudosa, fica aqui toda a intenção de despedida do Pessoal da Velha Guarda ao tradicional Largo da Carioca.

Almirante e Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Os Passarinhos da Carioca” (Luiz Nunes Sampaio)

 

Programa No. 4

O Pessoal da Velha Guarda


Copyright © 2003–2012 Daniella Thompson. All rights reserved.