O Pessoal da Velha Guarda

Programa No. 8

Transcrito por Alexandre Dias


Raul de Barros

21-1-1948
(Collector’s AER025 Lado B)

Locutor: Mais uma vez voltam as melodias do passado. Volta O Pessoal da Velha Guarda sob o comando de Almirante. E esses 30 minutos de viagem ao país da saudade são oferecidos pelo Iofoscal. Iofoscal é a mais completa composição de iodo, fósforo e cálcio, elementos indispensáveis no organismo humano. Iodo para o sangue, fósforo para o cérebro, e cálcio para os ossos. Os adultos têm no Iofoscal um notável restaurador de energias. As crianças têm no Iofoscal um maravilhoso tônico que prepara homens fortes e sabidos. Iofoscal!

Almirante: Boa noite, ouvintes de todo o Brasil! Novamente aqui estão, prontos para atacar, esses bambas que se reúnem semanalmente sob o título de O Pessoal da Velha Guarda. Hoje, meus amigos, não venho falar contra coisa alguma. Por estranho que pareça, venho falar a favor. Por estranho que pareça, com relação à música popular, há alguma coisa que vai bem, muito bem mesmo. É que nas investigações que podemos fazer semanalmente sobre as preferências de nosso público, estamos verificando que no presente momento quatro músicas são as mais procuradas. Quatro músicas são as mais vendidas em partes de papel e em discos para gramofone. Quatro músicas estão sendo as mais escolhidas pelos cantores. E ouvintes, o que nos faz estranhar, e nos traz aqui neste alarde, é que essas quatro músicas são todas brasileiras! São quatro sambas. A saber: “Marina”, “Segredo”, “Nervos de Aço” e “Incerteza”. Parece incrível hein? Pelo caminho que nós vínhamos vindo, é muito estranhável que isto esteja acontecendo. Chega a dar a impressão de que não estamos no Brasil! Não é possível! Logo quatro músicas brasileiras fazendo sucesso no Brasil! E nenhuma estrangeira? Nenhum fox-trot? Nenhum Bolero? Nehuma conga? Papagaios! Isto é um bom exemplo ouvintes. Se o povo se dispuser a apreciar o que é nosso, saberá descobrir e dar valor às produções boas que sempre aparecem. Bastará um movimento de simpatia pelas nossas músicas populares para que sejam notadas as boas entre as ruins.

A constatação desse fato, fiquem pertos hein, encheu de alegria o Pessoal da Velha Guarda. Pois isto fê-los sentir que não estão batalhando em vão. E ainda há ouvintes e ainda há amigos de nossas músicas. Nós aqui sabemos perfeitamente que esses bambas têm contribuído para conduzir a preferência de todos para as nossas músicas. E vocês também sabem disso, ouvintes. Por isso maiores devem ser os aplausos de todos a esses batutas, como Pixinguinha, o maestro da Velha Guarda, como Benedito Lacerda e seu famoso regional, como Raul de Barros e seu Bombardino e o Grupo de Chorões, e como esses da Orquestra do Pessoal da Velha Guarda.

Temos hoje para abrir essa audição do Pessoal da Velha Guarda uma música de um gênero que tanto tem agradado nossos ouvintes: uma polca-marcha. A de hoje, também da autoria do Pixinguinha tem seus trinta anos, e recebeu o seu nome só muito depois de composta. Pixinguinha escreveu e em seguida guardou entre outras músicas suas. Muito mais tarde a encontrou e então batizou-a com um nome bem significativo: “A Esquecida”. Vale a pena notar nesse novo arranjo de Pixinguinha o solo de flauta na segunda parte e o saxofone da terceira parte. Vamos pois, ouvintes, começar lembrando “A Esquecida”, pela Orquestra do Pessoal da Velha Guarda.

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “A Esquecida” (Pixinguinha)

Dentro d’alma colorida eu tenho um [?] seu.
Meu amor.

Almirante: Vocês de certo conhecem essa linda valsa, que é um sucesso relativamente recente, não é mesmo? Os seus versos, se vocês estão lembrados, chamaram a atenção de todos pelo rebuscar de suas palavras, e também pelo conflito astronômico que eles anunciavam descobrindo um eclipse do Sol, não com a Lua, mas com o próprio luar.

[?] ilusão do astral. [?] iluminar. Um eclipse do sol ao luar.

O autor dessa música, ouvintes, Uriel Lourival, pode ser considerado como um dos mais curiosos compositores dos gêneros de versos rebuscados. Quando era modesto funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil, compôs seu primeiro grande sucesso, uma triste canção que correu o Brasil inteiro, e cujo nome era “Ceguinha”. É isso que vocês vão ouvir agora, recordado pelo Grupo de Chorões do Pessoal da Velha Guarda.

Onéssimo Gomes, Raul de Barros e Grupo de Chorões: “Ceguinha” (Uriel Lourival)

Almirante: No centro da escravidão, os negros dançavam aqui, entre outras, uma dança que se denominava batuque. No fundo, era um legítimo samba de roda com a infalível umbigada dançada ao som de tambores, alguns dos quais teriam provavelmente o nome de batuque, donde teria vindo a denominação daquela coreografia.

A percussão brutal daquele acompanhamento inspirou inúmeros compositores que escreveram batuques notáveis. Transformada em música audível, o batuque porém perdeu todas as suas asperezas, e se tornou um gênero agradável, em que um ritmo pertinaz apoia uma melodia de caráter geralmente lamentoso.

Um dos batuques mais célebres do passado foi o da autoria do maestro Henrique de Mesquita, pistonista exímio, compositor de óperas, [?], e outras peças de grande envergadura. Na música do batuque de Mesquita, foram aplicados uns versos que popularizaram bastante e que tinha um estribilho que não deve ser tido esquecido, esse assim: “Marta, meu amor, ouve o seu candor”. Lembram? Pixinguinha escreveu para a Orquestra Pessoal da Velha Guarda um curioso arranjo do batuque de Mesquita, em que vai ser ressaltada a beleza de sua melodia e a insistência da percussão dos tambores dos batuques africanos.

Orquestra Pessoal da Velha Guarda: “Batuque” (Henrique Alves de Mesquita)

Almirante: Já me referi aqui várias vezes ao tempo em que nossa música popular andou grandemente influenciada pelos assuntos sertanejos, que então predominavam principalmente nos meios teatrais e nos meios musicais. Nos teatros, a exaltação do que é nosso era insistente em peças famosas como Terra Natal, O Marroeiro, Onde Canta o Sabiá, e tantas outras. Na música, inúmeros sucessos também se destacaram “O Matuto”, “A Rolinha do Sertão”, “Vamo Maruca, Vamo”, “Que Sodade”, e mil outras.

É uma toada que apareceu durante aquela efervescência sertanista, música que constituiu um sucesso marcante, que vai ser relembrada agora pelo Grupo dos Chorões. Seus versos e sua música, da autoria de Angelino de Oliveira, constituem um hino de saudade às [?] sossegadas de nosso interior. Enfim, uma verdadeira ode ao sertão brasileiro. O nosso auditório, como já é de hábito, vai colaborar cantando o estribilho intercalado entre as estrofes. Ouçam, pois, “Tristeza do Jeca”, a linda toada de Angelino de Oliveira.

Moraes Neto e Grupo dos Chorões: “Tristeza do Jeca” (Angelino de Oliveira)

Almirante: Ora essa, hein? Benedito e Pixinguinha ainda não deram o ar de sua graça hoje, hein. É, mas é que eles se reservaram para esse final porque pretendem dar a todos ouvintes uma informação que é ao mesmo tempo uma resposta a centenas de perguntas que os fãs lhes fazem diariamente. Ouvintes que apreciam os choros executados por Benedito e Pixinguinha vivem a perguntar se esta ou aquela música está gravada e onde é que ela pode ser encontrada, etc. Eu aproveito então, agora que eles vão tocar as músicas que compõem seu último disco, que saiu hoje, para fazer um retrospecto das gravações dessa dupla brasileiríssima. Há um ano que os dois se uniram num movimento defensivo das jóias da nossa música popular, e de então para cá, já conseguiram eternizar em discos, em execuções notabilíssimas, choros e valsas que representam o que nós temos de melhor no gênero. No primeiro disco que eles gravaram, vocês, se tiverem interesse, vão encontrar o alegre “1x0” [trecho], e o lindo “Sofres Porque Queres” [trecho]. No segundo disco lá está a melodia saudosa do “Naquele Tempo” [trecho], combinada com irrequieto “Segura Ele” [trecho]. Há um terceiro disco em que vocês terão o buliçoso “Cheguei” [trecho], ao lado daquele tristonho “Vou Vivendo” [trecho]. A coleção de vocês, porém, não ficará completa sem o quarto disco, onde de um lado está gravado o “Descendo a Serra” [trecho aceleradíssimo], ao lado de outro, já universal, o “Tico-Tico no Fubá”, em arranjo original [trecho]. Num quinto disco, Benedito e Pixinguinha gravaram o movimentado choro “Pagão” [trecho], e queridíssima e brasileiríssima “Saudades de Matão” [trecho]. Vocês, que gostariam de ter essas jóias da Velha Guarda não precisam ter mais dúvidas nem perguntar, tudo isso está gravado em discos, e estes discos, nem é preciso que eu diga, estão por aí, estão por aí. Ainda hoje, os que freqüentam essas casas de discos tiveram a surpresa de encontrar ali uma [?] do Pixinga e do Vito. Vito é o Apelido familiar do Benedito. Como eu não quero que vocês deixem de ter a primazia nas audições desses dois bambas, trago-os agora aqui para que toquem as duas músicas desse seu último disco, uma delas chama-se “Proezas de Solon”, e é um gostoso choro que Pixinguinha dedicou a um seu amigo, um dentista chamado Solon. Ouçam.

Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional: “Proezas de Solon” (Pixinguinha)

Almirante: E a outra música, ouvintes, o outro lado do disco tem um nome africano. É uma espécie de jongo que o Pixinguinha escreveu inspirado no ritmo de um batuque de candomblé. É música de execução difícil, tanto para a flauta como para o saxofone, como também para violões e cavaquinhos, e como até para o próprio ritmo. Não se trata de novidade, pois até já foi executava aqui pela nossa orquestra. Mas o arranjo para a gravação sim é que é novo. Seu nome, ouvintes, é “Urubatan”.

Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional: “Urubatan” (Pixinguinha)

 

Programa No. 9

O Pessoal da Velha Guarda


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