Tradução: Alexandre Dias

 

Tesouros nos cofres da Columbia

As matrizes de Native Brazilian Music
ainda existem (e tem mais).

Daniella Thompson

4 de novembro de 2003
Tradução: 24 de novembro de 2005


Zé Espinguela e Villa-Lobos (direita) durante um ensaio do
Sôdade do Cordão na casa de Espinguela, 1940 (foto cortesia de
Ermelinda A. Paz).

Este artigo não fará nenhum sentido a menos que você tenha lido Caçando Stokowski.

Em 11 de Setembro de 2003, publiquei em meu weblog um item intitulado Survivors (Sobreviventes). Abaixo do subtítulo Maybe, one of these days (Talvez, algum dia desses), listei as seguintes músicas:

Tristeza (samba do morro de Cartola)
Cartola & pastoras da Mangueira

Afoché (candomblé de Zé Espinguela)
Zé Espinguela & Grupo do Pai Alufá

Samba do Urubu (variações de Pixinguinha)
Pixinguinha & conjunto regional de Donga

Apanhá Limão (samba de Jararaca)
Conjunto regional de Donga

Samba da Lua (batucada de Donga & David Nasser)
Conjunto regional de Donga

Quando uma Estrela Sorri (marcha-rancho de Donga, Villa-Lobos & David Nasser)
Conjunto regional de Donga

Primeiro Amor (samba do morro de Cartola & Aloísio Dias)
Cartola & pastoras da Mangueira

Meu Amor (samba do morro de Cartola & Aloísio Dias)
Cartola & pastoras da Mangueira

Ninguém prestou a menor atenção.

Esperei alguns dias e anunciei um concurso em um comentário abaixo do artigo, prometendo um prêmio para o primeiro leitor que descobrisse do que tratava esta lista.

Nada.

Então ofereci um estimulo adicional, revelando que o prêmio seria muito bom. Isto finalmente atraiu um único concorrente, que postou a resposta correta em um comentário (ele recebeu o CD Ary Amoroso de Elizeth Cardoso).

Pouco depois eu dei mais algumas dicas. Mesmo resultado.

É de se pensar que tal notícia importante como esta oferecida no artigo iria causar um tumulto em círculos de música brasileira (e se não um tumulto, pelo menos uma balbúrdia). Mas não. Todo o episódio passou totalmente despercebido.

Parece que uma abordagem menos sutil faz-se necessária.

Ei-la aqui.

A Columbia Records (atualmente uma subsidiária da Sony) não só retém as gravações originais de Native Brazilian Music em seu cofre mas também está guardando oito lados adicionais que nunca foram lançados. São os títulos que você vê acima. Eles incluem o famoso “Samba do Urubu” (ou “Urubu Malandro”), que o jornal O Globo destacou em sua reportagem na primeira página da edição de 8 de agosto de 1940:

Passou-se então ao número de maior sensação da noite: o solo de flauta de Pixinguinha em Urubu Malandro. Todos os presentes ficaram entusiasmados não só com o pitoresco da música, como pela execução primorosa de Pixinguinha, a ponto de um dos chefes da orquestra dizer: “Este é um dos melhores flautistas que eu já ouvi.”

Além do Pixinguinha, há três sambas compostos e interpretados por Cartola, um candomblé de Zé Espinguela (as gravações a bordo do S.S. Uruguay são as únicas que ele fez na sua vida), e algumas músicas interpretadas por Donga e seu conjunto regional.

Seguindo suas práticas anteriores, a Columbia listou as faixas assim:

30162 TRISTEZA – Mangueira Chorus
30164 A FOCHE – Grupo Do Rae Aluja
30186 SAMBA DO URUBU – Regionale Orchestra
30187 APANHA LIMAO – Regionale Orchestra
30188 SAMBA DO LUA – Regionale Orchestra
30189 QUANDO UMA ESTRELA SORVI – Regionale Orchestra
30191 PRIMEIRO AMOR – Mangueira Chorus
30192 MEU AMOR – Mangueira Chorus

Com estas oito faixas somadas às 16 lançadas em 1942, a Sony possui material suficiente para um CD de tamanho generoso. Então por que ela não produziu um?

Talvez porque ninguém tenha pedido.

Quer ser um ativista em nome da música brasileira? Então faça um pouco de barulho. Quem sabe? Alguém pode estar disposto a ouvir.

 


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