:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 1

Como o boi subiu no telhado:
Darius Milhaud e as
fontes brasileiras do
Le Boeuf sur le Toit.

Daniella Thompson

6 de abril de 2002

Em 1992, o compositor Osvaldo Lacerda publicou um artigo na Revista da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea. Intitulado Três amigos da música brasileira, o artigo homenageia três compositores estrangeiros—Louis Moreau Gottschalk, Darius Milhaud e Ottorino Respighi—que “escreveram obras que podem ser consideradas como fazendo parte do nosso patrimônio cultural”.

O capítulo sobre Milhaud focaliza Saudades do Brazil, cujas melodias Lacerda caracterizou como sendo mais “Milhaud” do que “Brasil”. Encerrando esta parte, o autor acrescenta:

Outra composição “brasileira” de Darius Milhaud é o bailado orquestral “Le boeuf sur le toit” (“O boi no telhado”), op. 58, datado de 1920. Consiste ele numa série alegre e entusiástica de maxixes e tangos brasileiros. Neste caso, porém, as melodias provêm da música popular brasileira da época em que Milhaud residiu no Brasil, entremeadas de um insistente refrão que, segundo dizem, é da autoria do próprio Milhaud. Para analisar-se “Le boeuf”, seria necessário ter-se em mão a partitura, mais alguém que tivesse condições de identificar todas as inúmeras melodias da obra. Pergunta-se, então: – ainda estará vivo esse “alguém”?...

Em agosto de 2000, comecei uma investigação sobre as melodias brasileiras citadas, porém não nomeadas ou atribuídas, por Darius Milhaud em sua composição mais famosa, o rondó Le Boeuf sur le Toit (O Boi no Telhado, 1919). Como todas as músicas eram necessariamente antigas, a busca foi longa e, na verdade, ainda não terminou. Ao longo do caminho, troquei informações e me beneficiei do conhecimento de muitas pessoas, as mais importantes dentre elas sendo os musicólogos Aloysio de Alencar Pinto e Manoel Aranha Corrêa do Lago (que publicaram artigos sobre o assunto); a jornalista Anja-Rosa Thöming (que escreveu um ensaio acadêmico em alemão); o jovem pianista Alexandre Dias, dono da lista de discussão O Malho (que procurou incansavelmente por gravações antigas e criou outras para as músicas não gravadas); o colecionador de discos Roberto Lapiccirella, webmaster do excelente site Ao Chiado Brasileiro (que forneceu uma riqueza de gravações de Marcelo Tupinambá) e o casal Anna Paes e Mauricio Carrilho (que me presentearam com cópias de muitas partituras antigas).

  Este é o primeiro de uma série de artigos, cada um destacando uma melodia brasileira citada em Le Boeuf sur le Toit e seguindo a mesma ordem em que as citações aparecem no rondó do Milhaud. As indicações de tempos usadas para orientar o ouvinte são baseadas na gravação da Orquestra da Rádio de Luxemburgo sob a batuta de Louis de Froment (VoxBox CDX 5109). Em sua maioria, os trechos sonoros do Le Boeuf que colocarei nesta série foram tirados desta gravação.

Em sua autobiografia de 1949, Notes sans musique (Notas sem música), Milhaud escreveu:

Ainda perseguido pelas memórias do Brasil, reuni algumas melodias populares, tangos, maxixes, sambas, e até um fado português, e as transcrevi com um tema rondó recorrente entre cada par sucessivo. Eu chamei esta fantasia de Le Boeuf sur le toit, que era o título de uma canção popular brasileira.


O Viaduto do Chá em São Paulo liga a Rua Barão de Itapetininga (antiga Rua do Chá) à Rua Direita.

Melodia No. 1: “São Paulo Futuro” (1914)

No geral, é aceito pelos estudiosos que o tema rondó recorrente é criação do Milhaud (ouça um trecho).

Portanto, a primeira melodia brasileira a ser ouvida em Le Boeuf sur le Toit é o maxixe “São Paulo Futuro”, de Marcelo Tupinambá (1914). A parte A desta música começa aos dezessete segundos na gravação do Froment, imediatamente seguida da parte B aos 35 segundos.

Parte A será repetida no final do Le Boeuf, aos 13min 59s.

Como eu mencionei em Doutor Tanguinho, o maxixe “São Paulo Futuro” foi apresentado pela primeira vez em uma revista de teatro epônima. Em seu livro Marcelo Tupinambá, Obra Musical de Fernando Lobo (São Paulo, 1993), Benedicto Pires de Almeida reproduz um cartaz do Teatro São José, anunciando a “Primeira representação da grande revista de costumes paulistas de Danton Vampré e J. Nemo, música do maestro F. Lobo” em uma sexta, 24 de abril de 1914. Em ambos os dias 24 e 25 de abril, O Estado de São Paulo publicou artigos detalhados sobre a peça.


“Maxixe” by Kalixto

A reivindicação de fama da canção está em ser o primeiro maxixe com letra gravado no Brasil, embora José Ramos Tinhorão informe-nos em seu artigo “As Primeiras Gravações” que esta reivindicação é baseada em um mero tecnicismo, e o título deveria pertencer a “O Forrobodó” de Chiquinha Gonzaga, que é mais antigo, e que foi desqualificado devido ao subtítulo Tango do Guarda Noturno no selo do disco.

Minha fonte de informações favorita para gravações de 78 rpm, a base de dados da Funarte na Fundação Joaquim Nabuco, lista as seguintes gravações:

Autor: Marcelo Tupinambá
Título: São Paulo Futuro (Os Cavalheiros do Luar)
Gênero: Serenata
Intérprete: Bahiano
Gravadora: Odeon
Número: 120.991

[Tinhorão fornece o número de disco 120.986, que não aparece na base de dados.]

Autor: Marcelo Tupinambá
Título: Maxixe Curtindo (São Paulo Futuro)
Gênero: Maxixe
Intérprete: Grupo Odeon
Gravadora: Odeon
Número: 120.995

Há gravações mais recentes feitas por Roberto Fioravante no LP de 1968 Mensagem de Saudade (Chantecler) e por Maricenne Costa no CD de 1999 Como Tem Passado!! (CPC-UMES CPC 026).

O trecho sonoro fornecido aqui

inclui as partes A e B, editadas da gravação do Roberto Fioravante. A mesma gravação também está disponível na íntegra.


São Paulo antigo

A partitura para piano publicada pela Casa Bevilacqua em 1915 como Musica para Dança [sic] incluia esta letra:

S. Paulo Futuro
Maxixe Curtindo
Versos do Dr. A. A.
Musica de F. Lobo

Vem cabocla na ponta dos pés
que uma coisa eu te quero dizer
Si malvada cabocla não és.
Não me deixe de sede morrer.

Ai! quero sim.
Dos teus labios licór.
Ai! quero em fim
cahir bebado de amôr.
[bis]

Vem cabocla; ligeira a correr
mitigar das saudades a dôr!
Não me deixe de frio morrer
Que teus olhos tem vida e calor.

Ai! quero em fim
do teu collo o fogareiro.
Ai! quero sim
quero ir quente para o céo.
[bis]

Esta é a letra gravada por Roberto Fioravante e Maricenne Costa. O encarte deste último CD informa que sua data é de 1917 e dá crédito apenas a Tupinambá:

Vem morena
pro teu furrié [furriel]
tu não tens pena
do teu Mané.
Eu te espero
gemendo de dô
e desespero sem o teu amô>

Ai, vem meu bem,
tu já deu teu coração...
Ai, tu não vem,
pois eu morro de paixão.
[bis]

Vem marvada
este pranto secá
nas labaredas do teu olhar
Tu parece não ter coração
porque tu some, faz ingratidão.

Ai, vem meu bem...

Eu te imploro
pela última vez:
fica lá em casa
somente um mês,
e depois que esse amô tu prová
tu nunca mais
há de me abandoná

Ai, vem meu bem...

A autoria da letra geralmente é atribuída a Danton Vampré. A Enciclopédia da Música Brasileira lista a música três vezes: uma com letra de Dr. A. A. and duas com letra de Danton Vampré (uma delas com o subtítulo “Cavalheiros do Luar”), todas de 1914. Seria Dr. A. A. o Danton Vampré? Pode-se questionar se o Vampré realmente escreveu a letra. Assim como Marques Pôrto—que recebeu crédito autoral por “Linda Flor” [Ai, Ioiô] simplesmente por ter sido o escritor da revista de teatro em que a música foi apresentada—Vampré pode estar nadando nas águas de alguém. Minha suspeita não é baseada em nenhuma informação além da ausência de seu nome nas gravações do Bahiano e do Grupo Odeon.


Partitura por cortesia de Manoel Aranha Corrêa do Lago

(scan de Alexandre Dias)

 

 

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