:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 17

Uma donzela do campo e roubos múltiplos.

Daniella Thompson

8 de julho de 2002

O Pequeno Jornaleiro
O vendedor de jornais é o tipo mais despreocupado e alegre do mundo.
Tem uma alma de pássaro. [...]
Fuma, bebe aguardente, pragueja, solta pilhérias torpes, pisca os olhos maliciosamente à passagem das mulheres, canta trovas obscenas com a música da “Cabocla de Caxangá”.
— Graciliano Ramos, Paraíba do Sul, 1915

Praticamente desde o tempo de sua publicação, Le Boeuf sur le Toit tem sido o alvo de acusações de plágio, muitas delas infundadas.

O poeta Franco-Suiço Blaise Cendrars (1887–1961), libretista de Milhaud em La Création du Monde que foi apelidado de “Blaise du Blaisil” por Oswald de Andrade, alegou plágio (como aparentemente era seu hábito) em nome de seu amigo Donga, cuja música não era nem citada em Le Boeuf. Isso é particularmente engraçado, devido ao fato de Donga apenas alguns anos antes ter registrado em seu nome o samba “Pelo Telefone” que foi criado comunalmente. Em suas conversas gravadas com Michel Manoll, Cendrars atribuía “O Boi no Telhado” a Donga. Segundo Alexandre Eulalio em A aventura brasileira de Blaise Cendrars, Cendrars citou Donga assim: “Como ele usou minha música, diga ao Sr. Milhaud, seu amigo, para mandar-me um cartão. Ele me deve isso de Paris, e me daria prazer, pois agora eu gostaria de compor A Vaca na Torre Eiffel em homenagem a esse Paris onde eu ainda não estive.”

Quando Donga pode ter dito isso a Cendrars? Certamente não em 1923, quando o poeta fez sua primeira visita ao Brasil, como Donga já havia viajado para Paris com os Batutas no ano anterior. Eu suspeito que essa citação nasceu da imaginação fértil de Cendrars.

Quer Le Boeuf seja uma obra de plágio (nós retornaremos a essa questão mais tarde), ele certamente cita pelo menos uma obra de autoria controversa.

Melodia No. 17: “Caboca di Caxangá” [Cabocla de Caxangá] (1913)

“Caboca di Caxangá”, uma música nordestina caipira, já foi classicada diversamente como canção, toada, embolada, batuque sertanejo e samba. Com o subtítulo samba, ela pré-data “Pelo Telefone” em três anos.


Catulo da Paixão Cearense, “um boêmio na terra”

Ambas a letra e a música estão registradas no nome do poeta popular Catulo da Paixão Cearense (1866–1946), embora seja aceito comumente que Catulo aprendeu a música de João Pernambuco (Pixinguinha certificou em sua entrevista no Museu da Imagem e do Som que ele ouviu João Pernambuco tocá-la antes de Catulo colocar a letra). O violonista (1883–1947) muito provavelmente recolheu a melodia do domínio público.


João Pernambuco

Durante muitos anos, Almirante montava uma campanha para corrigir a omissão. Em seu livro No Tempo de Noel Rosa (Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1963), Almirante reservou algumas páginas ao assunto. Ele citou de uma entrevista que Catulo tinha dado ao Diário de Notícias de Lisboa no dia 30 de janeiro de 1935:

[...] quando começava a minha obra poética mais importante, apareceu-me o João Pernambuco, que vinha do norte e que, sôbre tocar muito bem o violão, me trouxe um vocabulário ainda não pervertido pelo contato da linguagem culta.

O sítio Cifra Antiga resume:

Em entrevista a Joel Silveira, nos idos de 1940, Catulo da Paixão Cearense declarou-se “um sertanejo do sertão”, ressaltando o mérito de saber descrevê-lo muito bem, apesar de não conhecê-lo. Parte desse mérito ele deveria creditar ao violonista João Pernambuco (João Teixeira Guimarães), com quem conviveu por diversos anos e que lhe forneceu, além de alguns temas musicais, um variado vocabulário sertanejo que usaria em seus versos. Um exemplo dessa colaboração é a composição “Caboca de Caxangá”, que entrou para a história assinada apenas pelo poeta.

Inspirado numa  toada que  João lhe mostrara e que teria melodia do violonista, composta sobre versos populares, Catulo escreveu extensa letra, impregnada de nomes de árvores (taquara, oiticica, imbiruçu...), animais (urutau, coivara, jaçanã...), localidades (Jatobá, Cariri, Caxangá, Jaboatão...) e gírias do sertão nordestino, daí nascendo em 1913 a embolada “Caboca de Caxangá”, classificada no disco como batuque sertanejo. E nasceu para o sucesso, que se estenderia ao carnaval de 1914, para desgosto de Catulo, que achava depreciativo o uso da composição pelos foliões.

Almirante informa que a cantiga foi inicialmente publicada no volume Lyra dos Salões (Rio de Janeiro, edição Quaresma, 1913), e que como testemunho de gratidão ao seu indiscutível colaborador, Catulo dedicou a canção “Ao Pernambuco, o insigne violãonista”.

Cláudio Carvalho Moreira e Zezão Castro, que criaram o sítio (agora defunto) Música Nordestina na Univerisdade Federal da Bahia, identificam “Caboca de Caxangá” como “a primeira música de tonalidades rítmicas regionalistas, lembrando os folguedos do ‘Norte’” e acrescentam que a primeira gravação “constitui-se portanto no momento zero em que a incipiente indústria fonográfica categorizou um segmento musical com referência nítida à região de onde teria vindo.”

A controvérsia que circunda a usurpação de Catulo não seria a única. Nesta sessão de plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, há um registro de ação judicial envolvendo infração de direitos autorais—provavelmente o primeiro do gênero no Brasil:

1915-27/3—Fred Figner entra na Justiça Federal de Porto Alegre com ação contra Savério Leonetti por 'infração de direitos autorais'. Com apreensão de discos e 19 matrizes, acreditamos que seja este o primeiro processo do gênero, no Brasil. Entre as músicas está Caboca de Caxangá.

Villa-Lobos, enfático sobre o plágio de Catulo, arranjou a mesma canção para voz e piano, e a incluiu em seu ciclo de Canções Típicas Brasileiras (1919–1935), tendo apenas ele mesmo creditado como autor.

Na gravação que Louis de Froment fez de Le Boeuf sur le Toit, pode-se ouvir a abertura de “Caboca de Caxangá” aos 9min 22s. Em contraponto, é tocada a parte B de “Vamo Maruca Vamo” (Juca Castro/Paixão Trindade; 1918).

Aos 10min 19s na gravação de Froment, o coro distorcido de “Caboca de Caxangá” é ouvido contra a parte A de “O Matuto” (Marcelo Tupinambá/Cândido Costa; 1918).

A primeira gravação foi feita por Eduardo das Neves, como está anunciado no próprio disco, embora o selo do disco identificasse os intérpretes como Bahiano, Júlia [Martins] e Grupo da Casa Edison. A base de dados da Fundação Joaquim Nabuco lista estas gravações em 78 rpm:

Autor: Catulo da Paixão Cearense
Título: Cabocla de Caxangá
Gênero: Batuque Sertanejo
Intérprete: Eduardo das Neves e Companheiros
Gravadora: Odeon
Número: 120.521

Autor: Catulo da Paixão Cearense
Título: Cabocla de Caxangá
Gênero: Tango
Intérprete: Banda da Casa Edison
Gravadora: Odeon
Número: 120.947

Autor: Catulo da Paixão Cearense
Título: Cabocla de Caxangá
Intérprete: Grupo o Passos no Choro
Gravadora: Odeon
Número: 120.954

Autor: Catulo da Paixão Cearense
Título: Caboca di Caxangá
Gênero: Toada
Intérprete: Trio Itapoan
Gravadora: RCA Victor
Número: 80.1776-B Matriz: 13H2PB0056
Data gravação: 08.02.1957
Data lançamento: Mai/1957

Outras gravações foram feitas por Paulo Tapajós, Paulo Soledade, Os Caretas, Stellinha Egg, e Orquestra Mocambo. O Trio Melodia (Nuno Roland, Paulo Tapajós e Albertinho Fortuna) cantou-a no programa de rádio Um Milhão de Melodias. As gravações mais recentes foram feitas pelo violonista Leandro Carvalho (no CD João Pernambuco, o Poeta do Violão) e por Mário Adnet (em Villa-Lobos—Coração Popular).

Como parte das Canções Típicas Brasileiras de Villa-Lobos, a canção foi registrada em disco pelo Quinteto das Americas e Sine Nomine Singers (no álbum Xangô) e pela soprano americana Roberta Alexander com o pianista Alfred Heller (no CD Villa-Lobos: Songs).

Vamos ouvir um trecho da gravação de Paulo Soledade.


Catulo da Paixão Cearense, “um boêmio no céu”

Em A Mulher na Música Popular Brasileira, Neusa Meirelles Costa postula que a cabocla de Caxangá de Catulo, como a cabocla Maringá de Joubert de Carvalho, “representou a calamitosa situação da seca nordestina. [...] São figuras femininas que representam a pureza e beleza do sertão, no saudosismo rural da década de 20, como p. ex. “Chuá, Chuá”, de Pedro Sá Pereira, 1926, ou representam a tristeza da partida, como em “Maringá”, ou a aridez e desolação da seca, como “Maria do Maranhão”, Carlos Lyra, 1962.”

A letra varia consideravelmente de uma versão para a outra. A primeira abaixo, publicada por Guimarães Martins e alegando direito de propriedade exclusiva por todo o mundo, preserva a grafia original de Catulo na letra e em seu nome:

Cabôca di CaxangáCanção
Catullo da Paixão Cearense

Canto
Laurindo punga, Chico Dunga, Zé Vicente
i esta gente tão valente
du sertão di Jatobá,
i u danadu du afamado Zeca Lima,
tudo chóra numa prima,
i tudo qué ti traquejá.

Estribilho
Cabôca di Caxangá,
minha cabôca, vem cá
[bis]

Solo
Quiria vê se essa gente também sente
tanto amô, cumo eu sinti,
quando eu ti vi em Cariri!
Atravessava um regato no Patáu
i escutava lá nu mato
u canto triste du urutáu.

Estribilho
Cabôca, demônio mau,
sou triste cumo u urutáu!
[bis]

Há muino tempo, lá nas moita das taquara,
junto ao monte das coivara,
eu não ti vejo tu passá!
Todo us dia, inté a boca da noite,
eu ti canto uma toada
lá debaixo du indaiá.

Estribilho
Vem cá, cabôca, vem cá,
rainha di Caxangá.
[bis]

Na noite santa du Natá na incruziada,
eu ti isperei i discantei
inté u rômpê da minhã!
Quando eu saía du arraiá, u só nascia
i lá na grota já se uvia
pipiando a jassanã.

Estribilho
Cabôca, frô da minhã,
sou triste cumo a acauã!
[bis]

Vinha trotando pula istrada na mujica...
vi-te imbaixo da oiticica
cunversando cum u Mané!
Sinti, cabôca, istremecê, dentro do couro
arriliado, atrapaiado,
u coração du meu quicé.

Estribilho
Cabôca, inda tenho fé
di fazê figa ao Mané!
[bis]

Dizapiei-me da mujica...andei a toa,
lá na beira da lagôa
chorei mais que um chorão!
Vinha di longe, dus ataio da baixada,
u mugido da boiada
que saía du sertão!

Estribilho
Cabôca, sem coração,
ó rosa dêste sertão!
[bis]

Eu nessa noite, nu mucambo du Zé Móla
suspirei nesta Viola
i pru via só di ti!...
Laurindo, Pedro, Chico Bode, Nhô Francisco,
Zé Portêra i Zé du Visco,
um a um, eu lá venci!

Estribilho
Cabôca, eu morro pru ti,
só pra ti amá eu nasci!
[bis]

Im Pajaú, im Caxangá, im Cariri,
im Jaboatão, eu tenho a fama
di cantô i valentão!
Eu pego u touro mais bravio, quando in cio,
cumo ponho im disafio
u cantadô logo nu chão!

Estribilho
Cabôca, sem coração,
ó rosa dêste sertão!
[bis]

Cabra danado, assubo pula gamelêra,
cumo a onça mais matrêra,
u mais ligêro punangê!
Eu faço tudo, só não faço é mi querê
teu coração mais ruvinhoso
du que u sací-pererê.

Estribilho
Pru quê ti fêz Deus, pruquê,
da cô das frô dus ipê?
[bis]

Mas quando eu canto na Viola a natureza,
tu não vê cumo a tristeza
mi põi tristi i jururú?
Ansim eu canto a minha dô, só quando a noite
vem fechá tôdas as frô
i abre a frô du imbirussú.

Estribilho
Caboca, um demônio és tu!...
ó frô du imbirussú.
[bis]

Essa variação, publicada pela Casa Mozart, utiliza escrita convencional e nomes diferentes para os rivais do cantor:

A Cabocla de Caxangá

Cabocla di Caxangá,
Minha cabocla, vem cá.

Mané Francisco, Joaquim Pedro, Zé Augusto,
essa gente
tão valente
do sertão de Jatobá
e o afamado
do damnado
Juca Mola
nos gemidos da viola
tudo qué te conquistá.

Cabocla de Caxangá,
O flor morena vem cá

Queria vê se essa gente
também sente
tanto amor como eu senti
quando eu te vi
em Cariri
Atravessava
um regato
no quartáo
e escutava
lá no mattoo canto triste do urutáo.

Cabocla demonio máo
Sou triste como o urutáo

Na noite santa do Natal
na encruzilhada,
Eu te esperei
e descantei
até o romper da manhã.
Quando eu sahia
do arraial
o sol nascia
e lá na grota já se ouvia
susirando a jassanã.

Cabocla flor da manhã
Sou triste como a acauã

Vinha trotando pela estrada
na mugica
vi-te em baixo da oiticica
conversando cum o Mané.
Senti, cabocla, estremecêdentro do couro
atrapaiado
arreiíado
o coração du meu quicé.

Cabocla inda tenho fé
que não será do Mané

Cabra danado assubo pula gameleira
como a onça mais matreira
o mais ligeiro punangê
eu faço tudo só não faço
me querê
teu coração inda mais duro
que o muri amunganguê.

Cabocla não sei porque
tens a cor da flor do ipê

Em pajaú em caxangá em Cariri em Jaboatão
eu tenho a fama de cantor e valentão
eu pego o toro mais bravio
quando em oio
como ponho em desafio
o cantor logo no chão

Cabocla sem coração
O rosa deste sertão

Mas quando eu canto na viola a Natureza
tu não ves cumo a tristeza
me põe triste e jururú.Por isso eu canto a minhas dores
só a noite quando se fecham as flores
e abre a flor do embirussú.

Cabocla um demônio és tu
es flor du imbirussú

Outra versão de “Caboca di Caxangá”—a toada “U Poeta du Sertão”—foi gravada em 1927 por Patrício Teixeira e novamente em 1936 por Paraguassú. Ela foi dedicada à memória do comapanheiro nordestino (Catulo veio do Maranhão) e homem de teatro Arthur Azevedo, que morreu em 1907. A gravação de Paulo Tapajós de 1957 foi relançada no CD da Revivendo Catulo da Paixão Cearense nas vozes de Paulo Tapajós e Vicente Celestino.

U Poeta du Sertão
Catulo da Paixão Cearense

Si chora o pinho
im desafio gemedô
não hai poeta cumo os fiodu sertão sem sê doutô
Us óio quente
da caboca faz a gente
sê poeta di repentequi a Puisia vem do amô

Não há poeta, não há
cumo os fio do Ceará!

Dotô fromado, home aletrado
lá de côrte
se quisé mexê comigo
muito intoncê tem qui vê
Us livro dá intiligença
i dá sabença
mas porém u mato virge
tem Puisia como quê!

Poeta eu sô sem sê dotô
Sou sertanejo
Eu sô fio lá dus brejo
du sertão do Aracati
As minha trova
nasce d'arma sem trabaio
cumo nasce na coresma
nu seu gaio a frô de Abri

 

 

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