:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 18

Outra donzela do campo raptada do carnaval.

Daniella Thompson

19 de julho de 2002


Carro alegórico do Clube dos Democráticos (cortesia de O Rio de Antigamente)

O carnaval carioca deixou marcas indeléveis na memória de Darius Milhaud. Ele pode não ter lembrado o título de todas as músicas de carnaval brasileiras que ele citou em Le Boeuf sur le Toit ou o nome de seus compositores, mas algumas imagens permaneceram nele por décadas. No artigo inédito Bresilien Music [sic], escrito no Mills College em 1942 ou 43, Milhaud escreveu:

Eu cheguei no Brasil bem no meio do carnaval. É uma época em que a alegria popular estoura com violência nunca sonhada por europeus acostumados aos três dias de festividades de um carnaval em Nice ou Aix, interrompido pelo austeridade da Quarta-Feira de Cinzas dando lugar à Quaresma.

No Brasil, três dias não são suficientes. Durante os meses que precedem o carnaval, o povo o organiza. Clubes são fundados, um grupo de amigos decide que eles permanecerão juntos durante as festividades do carnaval e portanto forma um comitê com presidente, vice-presidente, um secretário e um tesoureiro. A maior parte de suas economias vai para a confecção e aluguel de fantasias deslumbrantes, nas quais penas de avestruz desempenham um papel importante. Durante várias semanas, nas noites de sábado esses pequenos clubes cantam e dançam pelas ruas; eles participam de danças populares em praças publicas ou entram nos salões de dança.


“As Marrequinhas”, travestis do Clube dos Democráticos, 1913 (cortesia de O Rio de Antigamente)

Na roça, esses mesmos grupos, sentados em carros alegóricos cobertos de folhagem, cantam suas canções favoritas nas estradas, acompanhados por diferentes instrumentos indispensáveis a todos os clubes carnavalescos.

É nesse período que a música do ano ganha notoriedade; logo ela se torna banal. A gente a ouve cantada nas ruas, assoviada por trabalhadores indo ao trabalho ou por camelôs vendendo picolés ou plantas verdes, carregando sua mercadoria em uma tábua que eles colocam em suas cabeças. A canção é tocada pela banda municipal e entra furtivamente nas casas através de vitrolas e rádios.

Se eu insisto na importância do carnaval, é porque os elementos populares, profundamente implantados no folclore do país, alcançaram um valor notável na música contemporânea. Na música popular brasileira pode-se encontrar os três elementos que são o alicerce daquela nação: os índios, os negros e os portugueses. [...]

Eu também conheci um jovem violoncelista que tocava em um cinema para ganhar a vida; eu fui à sua casa e ele me mostrou suas primeiras composições. Esse homem era Heitor Villa-Lobos. Eu o encontrei de novo posteriormente em Paris. Ele fazia parte de um grupo que se reunia nas quintas-feitas na casa de Florent Schmitt em Saint Cloud, e o próprio Villa-Lobos convidava seus amigos aos domingos para seu apartamento na Place Saint Michel. A lista de suas obras é tremenda. Seu caráter romântico fala a todas as fontes: português, negro e indígena. Ele até me disse que quando estava em viagem para a Amazônia em busca de folclore indígena ele encontrou alguns temas que os índios mesmos haviam esquecido mas que os papagaios que vivem duzentos anos ainda estavam cantando!

Assim como eles fizeram no caso de “Caboca di Caxangá”, Milhaud e Villa-Lobos compartilham o histórico de emprestar a seguinte canção.


‘Villa-Lobos:
Souvenirs de l’Indien Blanc’
por Anna Stella Schic

Melodia No. 18: “Vamo Maruca, Vamo” (1918)

“Vamo Maruca, Vamo” é uma música carnavalesca de Juca Castro e Paixão Trindade, taxada diversamente como samba, cateretê, baião e maxixe (as fronteiras entre gêneros eram bastante embaçadas naquela época). Segundo Manoel Aranha Corrêa do Lago, duas das quatro partes da música são inserções das músicas folclóricas “Vamo Maruca, Vamo” e “Co-Co-Có”, ambas incluídas na coleção Chants Populaires du Bresil (Paris, 1930) da cantora e pesquisadora Elsie Houston.

No artigo “A História da música de Carnaval—Fase mecânica”, José Maria Campos Manzoaponta que o primeiro samba carnavalesco, “Pelo Telefone”, não continha esse subtítulo no selo do disco mas simplesmente samba. Por outro lado, “Vamo Maruca, Vamo” é um de três sambas carnavalescos identificados como tais lançado pelas gravadoras Phoenix e Gaúcho no mesmo período.

Ambas a Phoenix and a Gaúcho lançaram as gravações do próprio compositor, que estão listadas na base de dados da Fundação Joaquim Nabuco com outras interpretações:

Autor: Juca Castro
Título: Vamo Maruca, Vamo
Gênero: Samba
Intérprete: Juca Castro
Gravadora: Phoenix
Número: 213
Matriz: 1263

Título: Vamo Maruca, Vamo
Gênero: Samba Carnavalesco
Intérprete: Juca Castro
Gravadora: Gaúcho
Número: 4011

Título: Vamo Maruca, Vamo
Gênero: Samba
Intérprete: Zapparoli e Coro
Gravadora: Gaúcho
Número: 1291

Autor: Juca Castro - Paixão Trindade
Título: Vamo Maruca, Vamo
Gênero: Baião
Intérprete: Trio Madrigal & Trio Melodia
Gravadora: Continental
Número: 16.600-B
Matriz: C-2812
Data gravação: 19.03.1952
Data lançamento: Jul/1952

Autor: Juca Castro - Paixão Trindade
Título: Vamo Maruca, Vamo
Gênero: Maxixe
Intérprete: Zezinho de Lima
Gravadora: RGE
Número: 10100-A
Matriz: RGO-632
Data lançamento: Jun/1958

Vamo Maruca, Vamo score cover
Capa da partitura editada pela Casa Alonso em Montevideo, Uruguay

Outra gravação foi feita por Francisco Alves (lançada em 1918 segundo o site da Collector’s).

“Vamo Maruca, Vamo” foi um does sucessos do carnaval de 1918, e aparece em 16° lugar entre as “top 40” canções de 1918 na página Time Machine 1918.*

Na gravacão que Louis de Froment fez de Le Boeuf sur le Toit, pode-se ouvir a parte B de “Vamo Maruca, Vamo” em contraponto com “Caboca di Caxangá” por volta dos 9min 35s. Aos 9min 52s ela é claramente audível.

A música retorna aos 10min 36s, onde sua abertura é tocada em contraponto triplo com a parte A de “A Mulher do Bode” (Oswaldo Cardoso de Menezes; 1918) e a quarta melodia não-identificada (Melodia No.20).

Villa-Lobos também gostava de “Maruca”, que entrou em duas de suas composições. Ela é citada no quarto movimento (“Miudinho”) de Bachianas Brasileiras No. 4 (1930) e em seu seu Guia Prático (1932–1949), uma coleção de canções infantis e folclóricas.

Vamos ouvir trechos de quatro gravações: primeiro uma versão cantada da parte B, interpretada por um coro infantil não identificado.

O coro é seguido da pianista Guiomar Novaes, também tocando a parte B, arranjada por ela, numa gravação da Columbia dos anos 20.

A pianista Anna Stella Schic toca a mesma parte B, arranjada por Villa-Lobos no Guia Prático.

Finalmente, nosso amigo Alexandre Dias toca as partes A e B a partir de uma partitura da época publicada por A. Di Franco e fornecida por Manoel Aranha Corrêa do Lago.


Anna Stella Schic

Esta letra foi publicada na partitura para piano de A. Di Franco, Editor, S. Paulo:

Vamo Maruca, Vamo...
Versos de Paixão Trindade
Musica de Juca Castro

Canto
A carta que te mandei...
Que te mandei...
Foi papé das minha mão...
Das minha mão...

A tinta foi dos meus óio...
Dos meus óio...
A penna meu coração...
Meu coração...

Vamo Maruca, vamo...
Vamo pra Jundiay...
Co's ôtro vancê vai,
Só cumigo não qué i...
[bis]

Ella
Não vô não...
Não vô não quero i!
Longi de meus parente,
Vancê que judiá de mim.

II

As ave de mim tem pena...
De mim tem pena
Os campo de mim tem dó...
De mim tem dó
As ave pur me vê triste...
Pur me vê triste
Os campo pur me vê só...
Pur me vê só

Vamo Maruca, vamo...

= = =

* “Vamo Maruca, Vamo” fez sucesso o bastante para tornar-se objeto deimitação. Também em 1918, o lendário violonista Canhoto lançou “Nhá Maruca Foi S’Imbora”, uma canção que traz consigo grande semelhança com “Vamo Maruca, Vamo” e que vendeu mais naquele ano.

Autor: Americo Jacomino “Canhoto”
Título: Nhá Maruca Foi S'Imbora
Gênero: Catira
Intérprete: Grupo O Passos no Choro
Gravadora: Odeon
Número: 121514

Autor: A. Jacomino “Canhoto”
Título: Nhá Maruca Foi S'Imbora
Gênero: Samba
Intérprete: Os Geraldos
Gravadora: Gaúcho
Número: 4042


Scan por cortesia de Alexandre Dias

 

 

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