:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 26

Nepomuceno toma a vez.

Daniella Thompson

31 de outubro de 2002


Alberto Nepomuceno

Vários anos depois de ter deixado o Rio de Janeiro, Darius Milhaud ainda lembrava dos compositores eruditos que ele veio a conhecer durante seus dois anos no Brasil. Em 1942 ou 43, enquanto no Mills College, ele escreveu no artigo inédito Bresilien Music [sic]:

Alberto Nepomuceno, que era chamado de o pai do nacionalismo na música brasileira, era um homem charmoso e modesto que eu conhcia muito bem. Ele era um excelente professor e tocava o piano notavelmente. Dentre suas obras estão uma ópera e composições orquestrais como o Prelúdio de Gara Tuja, uma sinfonia e uma Suíte Brasileira.

Que surpresa, então, que Milhaud nunca nem sequer tenha mencionado que Nepomuceno (1864–1920) foi também o autor de Quatro peças líricas op. 13, das quais a quarta peça é a “Galhofeira”, citada em Le Boeuf sur le Toit.

No seu artigo “Brazilian Sources in Milhaud’s Le Boeuf sur le Toit: A Discussion and a Musical Analysis”, Manoel Aranha Corrêa do Lago faz a seguinte observação:

[...] o período entre a chegada de Milhaud ao Rio (1917) e a composição de LBST (1919), o ano seguinte à sua partida do Rio, coincide cronologicamente com um período importante transicional na história da música popular brasileira. O que iria constituir as novas feições musicais durante esse período não estava muito aparente ou ainda suficientemente diferenciado do maxixe. Era apenas natural, portanto, que LBST seria um retrato não dos —tempos por vir, mas da música da Belle-Epoque que estava prestes a minguar. Isso também explica por que a música “brasileira” de Milhaud, no LBST e em outras composições, revela mais afinidade com o mundo de Alberto Nepomuceno e mesmo de Alexandre Levy, compositores eruditos da geração anterior, do que daquele do Villa-Lobos.

Em A linguagem musical de Alberto Nepomuceno, Caio Sílvio Braz disse sobre o compositor:

Nepomuceno não foi um mero precursor. Deixou mais de 200 obras dentre elas uma centena de lieds, peças orquestrais, trios, etc. Fundou as bases da moderna música brasileira. Podemos antever Villa-Lobos ouvindo a “Brasileira” de 1919 ou Ernesto Nazaré em “Galhofeira” de 1894, e tantas outras inspiradas na música popular, que tão bem conhecia e soube prestigiar [...].

Nepomuceno foi a figura central da cultura brasileira no seu tempo, idealista convicto, “o mais culto e mais capaz dos compositores do seu tempo” [...].


Uma reunião da família Nepomuceno

A Biblioteca Nacional do Brasil dedicava várias páginas à vida e obra de Nepomuceno. Em uma delas nós aprendemos que:

No dia 4 de agosto de 1895, Nepomuceno realizou um concerto histórico, marcando o início de uma campanha que lhe rendeu muitas críticas e censuras. Apresentou pela primeira vez, no Instituto Nacional de Música, uma série de canções de sua autoria em português. Estava deflagrada a guerra pela nacionalização da música erudita brasileira. O concerto atingia diretamente aqueles que afirmavam que a língua portuguesa era inadequada para o bel canto. A polêmica tomou conta da imprensa e Nepomuceno travou uma verdadeira batalha contra o crítico Oscar Guanabarino, defensor ardoroso do canto em italiano, afirmando: “Não tem pátria um povo que não canta em sua língua.”

O grito de guerra de Nepomuceno foi ouvido apenas um ano depois de ele ter composto as Quatro peças líricas.

Melodia No. 26: “Galhofeira” (1894)

“Galhofeira” é a última peça das Quatro peças líricas para piano solo, op. 13, de Nepomuceno, as três outras sendo “Anhelo”, “Valsa” e “Diálogo”. Na descrição do acervo Nepomuceno da Biblioteca do Congresso dos EUA, “Galhofeira” está julgada “o melhor exemplo das músicas vivazes e espontâneas, urbanas e dançaveis, como o maxixe e o choro” compostas por Nepomuceno.

“Uma peça de 3 minutos, “Galhofeira” tem o tamanho ideal para gravações em discos 78-rpm. Porém, não é uma das seis composições de Nepomuceno que receberam um total de oito gravações entre 1902 e 1964, segundo a base de dados da Funarte na Fundação Joaquim Nabuco.”

Em Le Boeuf sur le Toit, ela aparece seguindo a 13ª iteração do motivo de rondó, tocada em contraponto com a parte A de “São Paulo Futuro”, que foi a primeira melodia do Ciclo I. “Galhofeira” começa aos 13min 55s na gravação de Louis de Froment.

Para efeito de comparação, vamos ouvir um trecho da gravação de Arnaldo Estrella, interpretando a peça original ao piano.


Arnaldo Estrella

Outros pianistas que gravaram “Galhofeira” incluem Maria Ines Guimarães, Clélia Iruzun, Homero Magalhães, Cristina Ortiz, Miguel Proença, Marcelo Verzoni e Felipe Sarro.

 

 

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