:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 5a

Quem foi José Monteiro?

Daniella Thompson

23 de setembro de 2002


José Monteiro

Como nós sabemos, a música que deu a Le Boeuf sur le Toit seu título foi o tango “O Boi no Telhado” de José Monteiro (vulgo Zé Boiadêro), lançado no carnaval de 1918.

Quem foi o compositor de “O Boi no Telhado”?

Se ele chegou a publicar outra música, o fato não foi divulgado. A base de dados da Fundação Joaquim Nabuco de gravações em 78 rpm lançadas entre 1902 e 1964 lista apenas uma composição de sua autoria—a que conhecemos:

Autor: José Monteiro
Título: O Boi no Telhado
Gênero: Tango
Intérprete: Banda do Batalhão Naval
Gravadora: Odeon
Número: 121432

Todavia, há documentos falando de um José Monteiro que era ativo nos círculos musicais do Rio de Janeiro na mesma época. Em 1922, o famoso grupo do Pixinguinha Os Oito Batutas foi convidado pelo Duque, dançarino brasileiro que residia em Paris, para ir à Cidade da Luz e tocar em seu dancing, o Shéhérazade. Como três dos músicos (os irmãos Palmieri e Luiz Pinto da Silva) não podiam viajar, novos membros foram recrutados, e os Batutas tocaram em Paris como um septeto. José Monteiro viajou como vocalista e ritmista desse septeto.

O livro Pixinguinha, Vida e Obra de Sérgio Cabral (Lumiar, 1997) mostra na página 84 uma fotografia publicada no jornal carioca A Noite a 14 de agosto de 1922, dia em que Os Batutas voltaram de sua viagem à França. A manchete anuncia que os “8 Batutas” regressaram de Paris, e na verdade oito pessoas posaram para a foto, mas apenas sete delas eram Batutas. O cavalheiro de fraque na extrema direita é o Duque.


Os Batutas em agosto de 1922

Posando de pé da esquerda para a direita são: Pixinguinha (flauta); José Alves de Lima (banjo); José Monteiro (reco-reco); Sizenando Santos “Feniano” (pandeiro); Duque. Sentados, da e. para d.: China (violão); Nelson dos Santos Alves (cavaquinho); Donga (violão).

O que se sabe sobre esse José Monteiro, o Batuta?

Em 1936, o chorão Alexandre Gonçalves Pinto, vulgo “Animal”, publicou o livro de memórias O Choro—reminiscências dos chorões antigos, que constituía um verdadeiro “quem é quem” do mundo do choro no final do século XIX e no início do XX.

Sobre José Monteiro, “Animal” escreveu:

Quem não conheceu o Zé Monteiro no Engenho de Dentro?
Cantador de modinhas que deslumbrava, pois possuia uma voz maravilhosa! Zé Monteiro foi um principe no cavaquinho, era pessoa grata de Guttemberg Cruz, teve a sua grande época, na rua 13 de Maio, hoje Abolição, no Engenho de Dentro, nas farras passadas, era figura obrigatoria em todos os “pagodes,” sulapando os cantadores de fama, quando nas salas ou no sereno cantava as letras do grande Catullo, arrancava do povo os maiores aplausos! obrigando os outros cantadores a se recolherem aos bastidores!
Este cantor, que tantos corações fez pulsar tambem infelizmente já dorme o somno da eternidade.

Em 1968, Pixinguinha concedeu ao Museu da Imagem e do Som (MIS) no Rio de Janeiro um depoimento que foi publicado no livro As vozes desassombradas do museu, 1: Pixinguinha, Donga, Joao da Baiana (MIS, 1970). Durante o depoimento, o compositor mencionou José Monteiro como um dos Batutas que viajaram para a Europa, e foi perguntado:

MIS—José Monteiro é aquele violonista e cantador de modinhas do Engenho de Dentro?

Pixinguinha—Parece. Era um cantor escurinho e magrinho que fazia ponto na Chave de Ouro. Cantava bem. Segundo o João da Baiana, ele morava na rua Vista Alegre, no Encantado, e trabalhava como pedreiro nas Oficinas de Engenho de Dentro.

Não é muito, e não há prova direta para ligar o Batuta José Monteiro com a composição de “O Boi no Telhado”. Eu pedi a Sérgio Caral sua opinião, e ele respondeu:

As referências a José Monteiro—autor do tango “O Boi no Telhado”, gravado em disco Odeon pela Banda do Batalhão Naval—que encontrei são as mesmas que você tem. Acho, porém, que não há como fugir dessa evidência: todas as referências a José Monteiro, que se reportam extamente à mesma época, tratam da mesma pessoa, até porque nada indica a existência de mais de um José Monteiro.

E o que é o suficiente para Sérgio Cabral, também é o suficiente para mim.

 

 

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