:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 8

A dança lasciva que chocou
um venerável senador.

Daniella Thompson

24 de maio de 2002


Chiquinha Gonzaga em 1894

Darius Milhaud nunca proferiu uma palavra sobre Francisca Edwiges Neves Gonzaga (1847–1935), mas eu não tenho dúvida de que ele teria aprovado seu espírito indomável. Independente e boêmia em um tempo em que mulheres respeitáveis eram confinadas ao lar paternal ou matrimonial, Chiquinha Gonzaga foi uma pioneira em mais de uma maneira (leia uma biografia publicada pela Biblioteca Nacional do Brasil).

Compositora prolífica, diz-se que ela compôs desde 1885 até 1934 a música de 77 peças teatrais, tornando-se responsável, no total, por cerca de duas mil composições, dentre elas polcas, maxixes, tangos, fados, valsas, quadrilhas, gavotas, barcarolas, mazurcas, habaneras, choros, e serenatas. O total pode estar exagerado no entanto, já que a biógrafa da compositora, Edinha Diniz, lista 282 composições, enquanto que o pianista e musicólogo Marcelo Vieira Verzoni lista 275.

Seja na casa das centenas ou dos milhares, esse conjunto de obras inclui a primeira música dedicada ao carnaval brasileiro—a marcha-rancho “Ô Abre Alas”, composta em 1899 e conhecida por todos os brasileiros até hoje.

O poeta e dramaturgo Luiz Peixoto, que trabalhou com Chiquinha Gonzaga em 1912, descreveu a compositora contando então 65 anos como “uma velhinha baixa vestida como homem. Uma reedição de George Sand, costume fechado até o pescoço, chapéu e bengala. Apesar de seus setenta anos, ao mesmo tempo em que cantarolava os tanguinhos brasileiros em moda, dançava com uma desenvoltura de fazer inveja. Era uma criatura risonha, pronta a ajudar quem a procurasse.”

Em 1917, enquanto Darius Milhaud estava residindo no Brasil, Chiquinha Gonzaga foi um dos responsáveis pela fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), a primeira organização formada para proteger os direitos autorais. Ao longo dos anos, ela viu muitos de seus trabalhos serem plagiados, e alguns alegam que Le Boeuf sur le Toit é um dos casos em questão.

Melodia No. 8: “Gaúcho” [Corta-Jaca] (1895)

Corta-jaca é um tipo de dança rural, e “Gaúcho” foi escrito como uma forma estilizada dessa dança, recebendo na partitura original publicada pela Vieira Machado & Cia. o subtítulo ‘tango brasileiro’, que era mais palatável à sociedade polida do que ‘maxixe’. É uma das músicas mais duradouras no repertório do choro e, com a exceção de “Apanhei-te, Cavaquinho”, provavelmente já recebeu mais gravações do que qualquer outra música citada em Le Boeuf sur le Toit.

No encarte da caixa de 2 CDs A Maestrina da Revivendo, Abel Cardoso Junior informa:

Esse ‘tango brasileiro’ de 1895, também designado ‘cateretê’ ou ‘maxixe’, recebeu originalmente o nome de “Gaúcho”. Foi feito nesse ano, para a opereta Zizinha Maxixe, que durou apenas 3 dias em cena. Com o nome de “Corta-Jaca”, alcançaria popularidade, na virada do século, através dos chopes-berrantes, com a letra de Machado Careca, conhecido cômico português radicado no Brasil, letra cantada nesta gravação original, de 1902, do duo Pepa Delgado e Mário Pinheiro, à qual se seguiria uma outra gravação, não muito depois, pelos Geraldos.

Em 1904, a canção foi apresentada com outra letra—dessa vez de Bandeira de Gouvêa e Tito Martins—na revista Cá e Lá. Essa versão não ficaria restrita ao palco, e não deixava dúvidas sobre o significado de ‘faca’ e ‘jaca’: Sou a jaca saborosa/que amorosa/faca está a reclamar. Mais que os versos, os movimentos ousados da dança escandalizavam os pudorosos. Mesmo sendo apenas tocado ao violão no Palácio do Catete (residência do presidente da república), em 1914, o “Corta-Jaca” provocaria a indignação do senador Ruy Barbosa [...]

O ensaio de Luiz Fernando Vallim Lopes sobre a obra de Chiquinha Gonzaga no Dicionário Internacional de Compositores Negros explica:

A primeira parte de “Gaúcho” está em ré menor e alterna as partes originais cantadas com um batuque, imitando a batida dos instrumentos afro-brasileiros de percussão. A Parte B está explicitamente rotulada como “Coro e Dança”, e sua melodia em terças e sextas duplas está na tonalidade de fá, a relativa maior. Como um todo, “Gaúcho” claramente exemplifica uma característica típica das peças de Chiquinha, que é a repetição constante dos padrões rítmicos sincopados de um ou dois compassos em seções inteiras.


Chiquinha Gonzaga em 1925

Na gravação que Louis de Froment fez de Le Boeuf sur le Toit, a parte A do “Gaúcho” pode ser ouvida aos 3min 41s.

A base de dados da Fundação Joaquim Nabuco lista gravações demais para serem reproduzidas aqui. As mais antigas dentre elas são as seguintes:

Autor: Chiquinha Gonzaga
Título: Corta-Jaca
Intérprete: Pepa Delgado e Mário Pinheiro
Gravadora: Odeon
Número: 40392

Autor: Chiquinha Gonzaga
Título: Corta-Jaca
Gênero: Dueto
Intérprete: Os Geraldos
Gravadora: Odeon
Número: 40454

Autor: Chiquinha Gonzaga
Título: Corta-Jaca
Gênero: Tango
Intérprete: Banda do Corpo de Bombeiros
Gravadora: Odeon
Número: 108058

Apesar da disponibilidade em CD da primeira (de 1902) e da terceira (de 1904) das gravações acima, eu prefiro a interpretação exuberante do Radamés Gnattali e sua banda, que captura totalmente a verve da música da qual nós ouviremos um trecho representando a passagem citada em Le Boeuf.

Outra boa razão para escolher a gravação do Radamés é a oportunidade que ela fornece para comparar seu arranjo e interpretação do “Gaúcho” com a parte 4 de sua Suíte Retratos, que ele dedicou a Chiquinha Gonzaga e que parafraseia o "Gaúcho" em uma maneira interessante. Aqui está um trecho da gravação feita por Jacob do Bandolim em 1964, com Radamés Gnattali regendo uma orquestra de cordas, dois violões e um cavaquinho.

Fechando este capítulo está a letra original de Machado Careca—mais comportada do que a segunda versão, mas não totalmente bem-comportada, afinal de contas:

Corta-Jaca
(Chiquinha Gonzaga/Machado Careca)

Neste mundo de misérias
quem impera
é quem é mais folgazão
É quem sabe cortar a jaca
nos requebros
de suprema, perfeição, perfeição

Ai, ai, como é bom dançar, ai!
Corta-jaca assim, assim, assim
Mexe com o pé!
Ai, ai, tem feitiço tem, ai!
Corta meu benzinho assim, assim!

Esta dança é buliçosa
tão dengosa
que todos querem dançar
Não há ricas baronesas
nem marquesas
que não saibam requebrar, requebrar

Este passo tem feitiço
tal ouriço
Faz qualquer homem coió
Não há velho carrancudo
nem sisudo
que não caia em trololó, trololó

Quem me vê assim alegre
no Flamengo
por certo se há de render
Não resiste com certeza
este jeito de mexer

 


Partitura por cortesia de Acervo Digital Chiquinha Gonzaga

 

 

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