:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 23a

Mais sobre Vermutin.

Daniella Thompson

29 de novembro de 2002


Detalhe da capa da partitura da valsa lenta “Vermutin”

F. Soriano Robert, que escreveu “Seu Amaro Quer” e “Olh’ Abacaxi!” (a primeira música fazendo publicidade de Vermutin e sendo propriedade do seu fabricante, Dr. Eduardo França; a segunda não relacionada com Vermutin mas dedicada ao Dr. França), também compôs uma música instrumental intitulada “Vermutin” que ele lançou em duas versões—uma valsa lenta e um tango argentino.

Eu sempre achei particularmente obscuro o simbolismo ligado aos jingles do Vermutin. Assim não consigo compreender a expressão chocada do Pierrot na capa da partitura da valsa lenta, da mesma maneira que fico perplexa com o horror nos olhos da donzela olhando fixamente a maçã. Haveria aqui um soupçon de pecado original? Igualmente misteriosa é a ligação entre o tango argentino e a moda oriental. Talvez nós possamos atribuir estes truques a um excelente senso de marketing—ambas as capas das partituras de “Vermutin” particularmente prendem o olhar, assim como a capa de “Olh’ Abacaxi!”—muito à frente de seu tempo em termos de desenho gráfico.


Capa da partitura do tango argentino “Vermutin”

Em seu livro No Tempo de Noel Rosa (Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1963), Almirante chama o Dr. França “um verdadeiro inovador, no sentido da propaganda” e dá a ele o crédito de ter realizado o primeiro concurso de músicas carnavalescas no dia 16 de fevereiro 1919. O evento ocorreu com muita pompa e elegância no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, onde a Banda do Batalhão Naval executou os seis números musicais. O espetáculo foi iniciado com uma conferência sobre música popular pelo próprio Dr. França.

A música vencedora foi o maxixe “Prove e Beba Vermutin” de Abdon Lyra. Foi um fracasso total no carnaval. Em uma carta enviada em 26 de outubro de 1921, o Dr. Eduardo França autoriza a gravadora Casa Edison a lançar em disco duas músicas fazendo publicidade de seu produto: “Prove e Beba Vermutin” e a valsa lenta “Vermutin” de F. Soriano Robert.


Capa da partitura da valsa lenta “Vermutin”
 
A parte da clarineta na orquestração da valsa lenta “Vermutin”

De acordo com o contrato entre França e Fred Figner da Casa Edison, a única obrigação da gravadora era imprimir o nome Vermutin em cada selo dos discos. Eu ainda estou por achar provas de que algum dos jingles foi registrado em cera.

Outro caso curioso de uma peã ao Vermutin foi relatado pelo biógrafo de Ernesto Nazareth, Luiz Antonio de Almeida, ao narrar que, em 1919, o tango “Succolento” (Ch. nº 7996) foi publicado pela Casa Mozart sob a denominação samba brazileiro dedicado aos carnavalescos daquele ano. Junto com o manuscrito, datado de 31 de janeiro, Almeida encontrou uma letra para a música, escrita por um certo Neptuno, que a intitulou de “O Vermutin.”

Ouçam “Succolento”, tocado por Alexandre Dias, aqui.

O Vermutin

I Parte

O Vermutin é bebida excelente,
Deliciosa e até sem rival
O Vermutin faz bem a gente
Toma, meu nego, Vermutin no Carnaval.

Experimente que você verá
Que o seu effeito igual não há
Pois o Doutor com tal successo
Na Capital lançou-o já!

Quem usa do famoso Vermutin
Tem vida longa, tem vida sem fim
Dá alegria, oh negrada,
Ai, como é bom do Vermutin uma golada

Vae para o céu o seu feliz autor
Da Lugolina inventor
Mas está provado rapaziada
Que é melhor que cajuada

II Parte

Declamado ou cantado
A ninguém cansa
O Vermutin
Do Eduardo França

Elle é gostoso
Anima a gente
Ao homem fraco
Fal-o valente

Tal descoberta
Tal maravilha
Assim no Céu
Estrella brilha

No Carnaval   [bis]
É adorado
Toca p’ra frente
S’tá consagrado

III Parte

Ai que prazer
Ai que alegria
É tão gostoso
Quem tal diria?

Eu aconselho
A toda gente
Que o Vermutin
É excelente!

Elle faz parte
Em grandes festas
Desde o commercio
Té as serestas

Pois não duvidem   [bis]
Não há que vêr
No Vermutin
Podem bem crer

IV Parte (para finalizar)

Quem tiver sêde e matal-a quizer
Lembre-se logo de o procurar
Encontrará em toda parte
E o appetite terá bom para o jantar

A minha sogra dele já provou
Logo uma duzia encommendou
E lá p‚ra roça enviando
Uma carroça, arrebentou!...

O Vermutin é de um tal sabor
Mesmo no tempo do frio ou calor
O camarada vae gostando
E as garrafas é que vão se esvasiando

Chegando á casa o que fui procurar,
Mas no avança sem pensar
Fiquei assim na esperança
Pois elle já estava na pança!...
   [00]

 

 

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