:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 23

Sobre medicamentos registrados e
a arte da publicidade vinculada.

Daniella Thompson

1 de outubro de 2002


Lançamento do Vermutin (Gazeta de Notícias, 17 de fevereiro de 1917)

Medicamentos registrados existem desde o século XV ou antes, migrando da Europa para as Américas à medida que as colônias eram povoadas no século XVI. Esses preparados, que se diziam curar todas as doenças, eram freqüentemente vendidos por vendedores ambulantes para pobres que não tinham acesso ou dinheiro para consultar um médico.

A lista de indredientes dos remédios podia ser impressionante. O Swamp Root Kidney Liver and Bladder Cure (um remédio para os rins, fígado e bexiga feito a partir de raiz de pântano) do Dr. Kilmer, por exemplo, continha folhas de Buchu, Óleo de Junípero, Óleo de Bétula, Raiz de Colombo, Sassafrás do Pântano, Bálsamo de Copaíba, Bálsamo de Tolu, folhas de Escutelária, Terebintina de Veneza, Raiz Valeriana, Raiz de Ruibarbo, Raiz de Mandrágora, Hortelã-pimenta, Aloés, Canela, e açúcar. Além disso, continha álcool em teor de aproximadamente 9% a 10,5%.

O álcool fazia maravilhas—pelo menos a princípio—como pode-se ver na ópera L’elisir d'amore (1832) de Gaetano Donizetti, em que a busca de um jovem e infeliz amante pelo elixir do amor causa a aparecer o vendedor ambulante de medicamentos Dr. Dulcamara, que lhe vende uma garrafa de vinho.

A indústria de medicamentos registrados floresceu durante o século XIX e início do XX. Scott Jordan, que coleciona frascos antigos de medicamentos registrados, resume toda a história assim:

Muitos dos medicamentos registrados continham álcool (muitos deles eram quase que inteiramente alcoólicos) e narcóticos (como morfina, cocaína e ópio). Esses produtos certamente faziam o paciente se sentir melhor por um tempo, mas deixavam a desejar nas suas pretenções de serem curas milagrosas para doenças variando desde gripe comum até tuberculose. As legislações federais do ínicio do século XX, tanto nos EUA como no Canadá—em que fabricantes não podiam fazer falsas promessas sobre seus produtos, tendo que listar os ingredientes em seus frascos e caixas de pílulas—serviram para levar próximo à falencia toda a indústria. Alguns produtos, no entanto, continuaram a ser vendidos nos anos 50 e mais adiante. Alguns deles ainda estão disponíveis hoje, mas de forma enormemente alterada.

Enquanto a inclusão de agentes tóxicos era legal, o negócio era lucrativo o suficiente para os fabricantes espalharem suas operações por todos os cantos. Dr. Kilmer & Companhia (aqueles do Swamp Root Kidney Liver and Bladder Cure) tinham filiais em Nova York, Chicago, Rio de Janeiro, e Kingston (Jamaica).

Claro que o Dr. Kilmer não foi o único fabricante de medicamentos registrados no Brasil. Talvez o fortificante mais conhecido e de maior duração no Brasil tenha sido o Biotônico Fontoura, criado pelo farmacêutico Cândido Fontoura em 1910 como um anti-anêmico cujo slogan era Ferro para o sangue e fósforo para os músculos e nervos. O nome da marca foi dado pelo amigo do farmacêutico, o escritor Monteiro Lobato, cujo Almanaque do Jeca Tatu (também conhecido como Jeca Tatuzinho), publicado pelo Laboratório Fontoura & Serpe, ajudou a vender o tônico comunicando suas características e benefícios em palavras simples.


A campanha publicitária de maior sucesso na história da
propaganda brasileira

O Almanaque de Monteiro Lobato descrevia a transformação do caboclo Jeca Tatu e sua família de uma condição de magreza, palidez e tristeza em uma de saúde ao experimentar o Biotônico Fontoura. Uma pequena informação que o Almanaque provavelmente não divulgava era o fato de que o tônico continha 9,5% de álcool—não apenas durante as primeiras décadas de sua vida comercial, mas por todos seus 91 anos. Só em abril de 2001 que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou uma lista de fortificantes medicinais cuja manufatura havia sido proibida devido a seu teor alcóolico.


“O mais completo fortificante”

Melodia No. 23: “Seu Amaro Quer” (1918)

“Seu Amaro Quer” é um tango carnavalesco de F. Soriano Robert, cujo samba “Olh’ Abacaxi!” (também de 1918) foi a sétima música citada em Le Boeuf sur le Toit.

Embora a partitura para piano proclame que “Seu Amaro Quer” foi “O Maior sucesso do carnaval de 1918”, apenas uma gravação da música—a única para este compositor—é listada na base de dados da Fundação Joaquim Nabuco:

Autor: Soriano Robert
Título: Seu Amaro Quer?
Gênero: Tango
Intérprete: Bloco dos Parafusos
Gravadora: Odeon
Número: 121449

O número do catálogo a coloca na mesma série de outra música de carnaval lançada pela Odeon: “O Boi no Telhado”, no. 121432.

A parte A de “Seu Amaro Quer” pode ser ouvida aos 12min 57s na gravação que Louis de Froment fez de Le Boeuf sur le Toit, onde ela é tocada em contraponto com a Melodia No. 24, o tango “Sertanejo” de Carlos Pagliuchi (1919) e a Melodia No. 25, o samba “Para Todos” de Eduardo Souto e K.K. Reco (1919). “Seu Amaro Quer” volta aos 13min 30s.

Lendo a partir da partitura original para piano, Alexandre Dias toca a mesma parte nesse trecho de sua gravação recente, feita especialmente para as Crônicas Bovinas.

O que medicamentos registrados têm a ver com um tango carnavalesco? Você bem pode perguntar. F. Soriano Robert parece ter tido um interesse em publicidade. O título de “Olh’ Abacaxi!” é um pregão de vendedor de rua que recentemente veio a tomar o sentido pejorativo de um negócio pouco lucrativo. “Seu Amaro Quer”, por outro lado, é um esquema de publicidade disfarçado como canção de carnaval. E o que está sendo vendido é uma bebida chamada Vermutin, uma de várias com teor alcoólico a serem encontrados na época (Rhum Creosotado, Elixir de Nogueira, Elixir de Inhame Goulart, Vinho Reconstituinte Silva Araújo eram outras).

O Vermutin foi lançado durante o carnaval de 1917 através de uma grande campanha publicitária na imprensa brasileira, com o slogan “A melhor bebida do mundo.”


Lançamento do Vermutin (Jornal das Moças, 22 de fevereiro de 1917)

Na partitura para piano, o logotipo de Vermutin está impresso logo abaixo do título da música e no mesmo tamanho. Abaixo, bem menor, estão a descrição do gênero e o nome do autor. O nome do produto é entrelaçado em cada verso e em cada refrão. Como vocês perceberão, a partitura deixa claro que o tango é propriedade do Dr. Eduardo França. França possuía o laboratório e a fábrica Lugolina na Avenida Mem de Sá, no Rio de Janeiro. Lugolina era o fabricante de Vermutin, e o Dr. França se encarregou de divulgar o produto regularmente em canções populares feitas sob encomenda—os jingles de antigamente. Para promover a popularidade dessas canções, França organizou em 1919 o primeiro concurso de música carnavalesca, em que o vencedor foi um dos seus jingles (veja mais informações sobre essa e outras canções divulgando Vermutin).


O que está causando toda essa alegria?

Seu amaro quer...
Tango Carnavalesco
F. Soriano Robert
Propriedade reservada do Dr. Eduardo França
Tango Carnavalesco—O Maior sucesso do carnaval de 1918
Dançado com exito sensacional no RESTAURANT ASSYRIO pelos celebres maxixeiros Margot e Milton
Cantado e dançado pela graciosa artista LOLA BRIEBA, na revista carnavalesca de grande successo MOMO TÁ-HI no Theatro Republica

Venha cá,
Venh' olhar,
Que seu amaro quer
Tributar
As cebolas com feijao...
Venha cá,
Venh' a mim,
Que seu amaro quer
Vermutin
P'ra ter força na exportação

2º e 4º

BIS:
Vamos todos dançar,
Vamos todos sambar,
Que... seu amaro quer
O Vermutin... assim... assim...
Assim... Assim... Ay!

2º D.C. todo [repeat from the beginning]

Como é bom beber! Ay!

Venham todos,
Venham ver,
Que seu amaro vai
Recorrer
Aos juizes de Berlim...
Venham todos
Vêr o fim...
Que seu amaro quer
Vermutin
P'ra tocar o bandolim...


Uma pergunta chocante

E a lábia comercial ainda não acabou, pois ambas a capa e a contracapa são elaboradamente ilustradas com desenhos que parecem estar relacionados com o produto e entre si. Do que os quatro cavalheiros na capa estão rindo? Poderia ser do homem efeminado na contracapa que parece chocado com a pergunta da moça? Por quê ela está dizendo “Seu amaro quer Vermutin...?” se ele já está segurando um copo de licor? Está ela a sugerir um substituto mais fortificante? E por quê amaro é consistentemente escrito com “a” minúsculo? Não seria o nome do homem? Ou talvez ele não mereça uma letra maiúscula por não ser um garanhão? Os quatro homens risonhos—nenhum deles um rapazote—são espécimes viris cheios de força e vigor, sem dúvida graças a um regime regular à base de Vermutin.

A letra sugere que Vermutin dá força. Haveria uma promessa implícita de que iria transformar o efeminado em um machão? Além da mensagem comercial, há também uma alusão à política mundial na linha P'ra ter força na exportação e de novo em Recorrer/Aos juizes de Berlim. O ano era 1918, e a Alemanha estava perdendo a Primeira Guerra Mundial.

Vale a pena lembrar também que durante o carnaval de 1918, no qual “Seu Amaro Quer” foi lançado, o prefeito do Rio de Janeiro era Amaro Cavalcanti. Aparentemente, esse cavalheiro era um certo déspota, como pode ser inferido a partir de seus regulamentos rigorosos de outubro de 1917, relacionados ao banho de mar nas praias de Copacabana e Leme: “O banho só será permitido de 2 de Abril à 30 de Novembro das 6h às 9h e das 16h às 18h. De 1 de Dezembro à 31 de Março das 5h às 8h e das 17h às 19h. Nos Domingos e feriados haverá uma tolerância de mais uma hora em cada período.” A expressão popular “Seu Amaro Quer” dizia tudo sobre o temperamento de Cavalcanti.

Enquanto várias questões sobre a música permanecem sem resposta, uma conclusão a ser tirada da campanha publicitária de Vermutin é que Dr. França e Lugolina visavam um público mais selecionado do que o Laboratório Fontoura visava com Almanaque do Jeca Tatu, o que era apenas natural, considerando que os caboclos não possuíam pianos ou gramofones e portanto não iriam comprar partituras e discos.

= = =

Se você quiser garimpar um pouco sobre a história de medicamentos registrados, aqui estão algumas fontes:

  • Library of Congress
  • Bartleby.com
  • University of Toledo
  • Eu sou grata a Alexandre Dias pelas ilustrações da partitura (obtida da Fundação Joaquim Nabuco) e a Adalberto Carvalho Pinto por tê-las escaneado.

     

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