:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 22

Adeus ao sertão.

Daniella Thompson

14 de setembro de 2002

O interior rural do Brasil, particularmente do Nordeste, é conhecido como sertão. A historiadora Janaína Amado alega que o nome é derivado de ‘deserto’ (deserto, desertão, sertão), pois essas regiões são freqüentemente áridas e praguedas por secas. A pobreza e a miséria induziram a migrações em massa dos sertanejos para as cidades grandes, onde sua sabedoria popular única entrou na cultura brasileira, estabelecendo-se profundamente na literatura e no entretenimento (leia o ensaio de Maria Amélia Garcia de Alencar, Cultura e identidade nos sertões do Brasil: representações na música popular).

O lamento do sertanejo pela deslocação é um tema recorrente na canção popular, e é expressado na 22ª melodia citada por Milhaud em Le Boeuf sur le Toit.

Melodia No. 22: “Que Sôdade!” (1918)

“Que Sôdade!” é a sexta de sete músicas de Marcelo Tupinambá citadas em Le Boeuf:

1. São Paulo Futuro (Marcelo Tupinambá/Danton Vampré; 1914)
2. Viola Cantadeira (Marcelo Tupinambá/Arlindo Leal; 1917)
3. O Matuto (Marcelo Tupinambá/Cândido Costa; 1918)
4. Tristeza de Caboclo (Marcelo Tupinambá/Arlindo Leal; 1919)
5. Maricota, Sai da Chuva (Marcelo Tupinambá/Arlindo Leal; 1917)
6. Que Sôdade! (Marcelo Tupinambá/Arlindo Leal; 1918)

Todas as seis canções lidam com temas sertanejos—algumas de modo humorístico, outras de modo lírico. Em “Que Sôdade!”, o humor da letra é melancólico, tratando da separação de um par de namorados (o homem despede-se, possivelmente para procurar trabalho em uma metrópole do sul). Mesmo assim a música é animada, como pode ter sido requisitado nos teatros de revista da época.

A citação que Milhaud fez de “Que Sôdade!” ocorre aos 11min 59s na gravação de Louis de Froment.

A música original foi gravada várias vezes em diferentes estilos. a base de dados de discos 78 rpm da Fundação Joaquim Nabuco lista as duas seguintes versões instrumentais:

Autor: Marcelo Tupinambá
Título: Que Sodade
Gênero: Samba
Intérprete: Bloco dos Parafusos
Gravadora: Odeon
Número: 121448

Autor: Marcelo Tupinambá
Título: Que Sodade
Gênero: Tango
Intérprete: Orquestra Odeon de São Paulo
Gravadora: Odeon
Número: 121498

Gravações mais recentes foram feitas pela cantora/folclorista Ely Camargo (no álbum Canções da Minha Terra No. 4 da Chantecler, anos 60), pelo violonista paulista Poly em guitarra havaiana com cordas de aço (possivelmente nos anos 70) e por Oswaldo Sbarro com Conjunto Serenata (1974). Nós ouviremos um trecho da gravação de Ely Camargo.


Ely Camargo

Na partitura para piano, com o registro P5341, está escrito Cine-Orchestra como na partitura de “Tristeza de Caboclo”, lançada no ano seguinte. A letra é encrustada de expressões de extremo lamento, e escrita de acordo com a pronúncia coloquial sertaneja. Note o contraste marcado entre os versos de partir o coração e a leviandade da melodia.

Que Sôdade!..
Scena Sertaneja
Arreglo de Arlindo Leal
Musica de Marcello Tupynambá

ELLE:
Cada vez que aconsidero,
Que eu tenho de le deixá,
Me foge o sangue das veia
E o coração do lugá!

E fico chóra-chorando,
Oiando, triste, p'ro á.
No coração amargando
O meu pená!...
[bis]
Ai!

ELLA:
Não óia tanto p'ro á,
Qui vae morrê de tristura,
Se aconsola, que, na vida,
Só se véve de amargura!...

Não fica chóra-chorando,
Oiando, triste, p'ro á.
Procura î disfarçando
O teu pená!...
[bis]
Ai!

ELLE:
Adeus, adeus, vô m'imbora,
Vorto a sumana qui vem...
Quem não me cunhece chora,
Qui fará quem mi quér bem!...

P'ro isso chóro-chorando,
E óio, triste, p'ro á.
Prô que me tá tormentando
Este pená!...
[bis]
Ai!

ELLA:
Adeus, adeus, vórta logo,
Sucéga, carma essa dô,
Qui tu vae, mas fica aqui
Te esperando meu amô!...

Não fica chóra-chorando,
Oiando, triste, p'ro á.
Meu coração vae levando
P'ra tu com elle sonhá!...
[bis]
Ai!

ELLE:
Vou alegre, vou cantando,
Sem tristura e sem pená...
Teu coração alevando
P'ra podê com tu sonhá!...

ELLA:
Vae alegre, vae cantando,
Sem tristura, sem pená...
Meu coração alevando
P'ra tu com elle sonhá!...

JUNTOS:
ELLE: Vou alegre, vou cantando, etc.
ELLA: Vae alegre, vae cantando, etc.

 

 

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