:: Os artigos individuais nesta série foram originalmente
:: publicados na revista Daniella Thompson on Brazil.

 Tradução: Alexandre Dias

 

As Crônicas Bovinas, Parte 29

A linha tênue entre o tributo e o roubo.

Daniella Thompson

11 de fevereiro de 2003


Darius Milhaud, condor voraz?

O que é a originalidade? Um plágio não detectado.
— Dean William R. Inge

Como a estrutura de Le Boeuf sur le Toit ilustra claramente, a composição é uma colagem composta de um tema de rondó recorrente que concatena 28 músicas criadas por pelo menos 14 compositores brasileiros (a identificação das quatro melodias misteriosas poderia revelar mais).

Acredita-se que o tema do rondó foi a única contribuição melódica de Milhaud à peça, embora seja possível que ele tenha tomado parte em alguma das quatro melodias não identificadas—nos. 14, 15, 16 e 20. Como Milhaud nunca identificou suas fontes, a dúvida quanto ao plágio surge inevitavelmente, como de fato ocorreu mais de uma vez.

Um dos exemplos mais alardeados foi a asserção do poeta Blaise Cendrars de que Milhaud havia surrupiado o tema do “Boi no Telhado” de Donga, uma acusação que não tem mérito e que pode ter surgido inteiramente da imaginação fértil de Cendrars, que tinha o hábito de dar alarmes.


Blaise Cendrars, defensor dos roubados?

Mas isso não foi o fim. Em 1967, o ilustre musicólogo e professor de música Baptista Siqueira publicou o livro Ernesto Nazareth na Música Brasileira (veja alguns scans), no qual ele dedicou algumas páginas para castigar Milhaud. Na cabeça de Baptista Siqueira, o compositor francês tinha intenções vorazes desde o começo:

Não quis limitar o espaço, pois tem intenções condoreiras, como se diz: “não sabe voar baixo”! Aproveitou-se das músicas dos brasileiros, fêz delas obras suas e ainda, escondeu a verdadeira fonte, alargando a área de suas “pesquisas” à América do Sul, mas que na verdade, foi exclusivamente no Brasil.

Acrescentando, Baptista Siqueira alega que Nazareth se recusava a acreditar nessa possibilidade:

Ernesto Nazareth, advertido por pessoas cautelosas sôbre certos “pesquisadores” estrangeiros, não quis acreditar que alguém pudesse sequer, pensar em se apropriar de sua música—tão divulgada era ela, no Rio de Janeiro. E, não sendo um paisagista, mas ardente defensor do simbolo nacional, não previu que internacionalmente seu nome era uma incógnita, seu prestígio, uma quimera...

Assim, conclui Baptista Siqueira:

Daí a decepção dos que acorreram ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro para assistir a apresentação de “Le boeuf sur le toit” e “Scaramouche” de Darius Milhaud, que poderiam ser chamados: festival Chiquinha, Calado, Tupinambá, Nazareth, etc...

Isso nos leva a perguntar como Joaquim Callado foi parar no “festival”, já que Baptista Siqueira o abandona deste momento, e ele não é mencionado novamente. No capítulo final sobre Milhaud, intitulado Abuso Inominável, o musicólogo especula:

Talvez por influência de maus assessôres, acabou sendo compelido a cometer uma das mais tristes usurpações da História da Música.

Surpreendentemente, a diatribe prolixa não fornece muitas pistas valiosas àqueles que desejam identificar as melodias emprestadas, já que Baptista Siqueira citou apenas sete músicas de cinco compositores, incluindo dois erros:

Ernesto Nazareth — o Brejeiro e Escovado;
Alexandre Levy — Tango Brasileiro;
Marcelo Tupinambá — Viola Cantadeira e Matuto;
Eduardo Souto — Maricota sai da chuva;
Chiquinha Gonzaga — Corta-jaca, etc...

“Brejeiro” não é citado em Le Boeuf (embora uma adaptação de seu tema possa ser ouvido na 3ª parte, “Brazileira”, da suíte Scaramouche), enquanto que “Maricota, Sai da Chuva” não foi escrita por Eduardo Souto (que é representado em Le Boeuf por outra melodia).


Ernesto Nazareth, vítima de plágio?

Uma década depois de Baptista Siqueira, outro defensor dos direitos autorais brasileiros pegou a tocha. Em artigos publicados na Folha de S. Paulo nos dias 20 e 21 de julho de 1977, João Marcos Coelho bradou ladrão de modo vociferante. Seu primeiro artigo, intitulado “Plágio—Um boi francês, às custas da nossa música,” conta uma história baseada mais em invenções do que em fatos:

De volta à França, [Milhaud] recebeu a encomenda de compor música para uma exibição de filmes mudos de Charles Chaplin: não hesitou. Partiu para uma simples colagem do que tinha visto, ouvido e anotado no Brasil, enfeixando tudo numa suíte para piano e violino. Anos mais tarde, Milhaud reformulou apenas a instrumentação desta suíte , transformando-a em orquestral, dando-lhe o título de “Le Boeuf sur le Toit”, ou, mais familiarmente aos brasileiros, “O boi no telhado”.

Como exemplos dos bens roubados, Coelho cita “Flor do Abacate” (atribuído por ele a Arnaldo [sic] Sandim); “Maricota, Sai da Chuva” de Tupinambá; “Tango” [sic] de Alexandre Levy; “Carioca” de Nazareth; e essa revelação:

[...] e até um conhecidíssimo maxixe muito cantarolado na época, o “Jacaré Comprou Cadeira, Não Tem B... Pra Sentar”.

No segundo artigo, publicado no dia seguinte, Coelho forneceu “A confirmação de como Milhaud roubou nossa música” sob a enorme manchete Provas, reproduzindo as partituras de “O Boi no Telhado” e “Apanhei-te, Cavaquinho” ao lado das passagens correspondentes em Le Boeuf.

É bastante evidente que Coelho nunca escutou Le Boeuf sur le Toit ou “O Boi no Telhado” e não sabia ler música, pois na mesma página que mostra a partitura de “O Boi no Telhado” ele esclarece:

O Boi no Telhado” tango de época que fazia grande sucesso no Rio de Janeiro, além de ter sido tomado como título, foi literalmente usado como tema principal de abertura e como ponte, para os outros temas, treze vezes repetida (veja o plágio examinando os 17 compassos ou seja, toda a primeira parte da Música de José Monteiro e [sic] Zé Boiadêro).

Mais provas condenadoras entregues por Coelho:

[...] 1) do Conhecidíssimo chorinho “Apanhei-te Cavaquinho”, [...] Milhaud copiou cerca de nove compassos inteiros. A melodia é absolutamente igual, apenas a tonalidade original (sol maior) foi mudada para dó maior; 2) de “Que Sôdade”, tanguinho de Marcelo Tupinambá que o povo parodiou com “Jacaré comprou cadeira, não tem b... pra sentar”, Milhaud copiou 17 compassos, practicamente a música toda; seu trabalho consistiu em transpor a canção de ré maior para si maior; 3) de “O Matuto”, cateretê-canção cearense também de Marcelo Tupinambá, Milhaud robou cerca de 12 compassos, não esquecendo mudar a tonalidade de sol menor para fá menor.

Em conclusão, Coelho profetiza um fim ruim para os herdeiros de Milhaud se correta a lei de que plágiar mais de oito compassos já constitui crime—e Milhaud, afinal, poderia apenas reivindicar a orquestração como seu próprio trabalho:

[...] os herdeiros de Nazareth e Tupinambá podem perfeitamente exigir pagamento de direitos pelas execuções e gravações de “O Boi no Telhado” desde 1920. [...]

Coelho esqueceu um pequeno mas não insignificante fato: naquela época, os compositores vendiam suas criações aos editores de música, raramente recebendo mais do que o pagamento inicial. Se Nazareth tivesse recebido pagamento de direitos apenas pelas músicas publicadas no Brasil, ele não teria morrido em penúria.

Por mais divertida que seja a arenga de Coelho, existem aqueles que a levam a sério. O Conar, Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária, está usando a informação em um de seus casos como demonstração de imitação ou plágio:

Talvez, dentre todas as artes, seja na música que mais facilmente possam ser comprovados os casos de plágio, pois convencionou-se que a utilização de mais de oito compassos de uma melodia basta para caracterizar a fraude.

Apesar disso, são difíceis os casos em que existe um claro e definido consenso sobre o aproveitamento da obra alheia. Raros são os exemplos tão cristalinos como aquele levantado pelo crítico musical João Marcos Coelho, através do Caderno B, do Jornal do Brasil, em julho de 1977, quando comprovava insofismavelmente um caso de plágio praticado em 1920 pelo compositor francês Darius Milhaud que estivera recentemente no Brasil.

Assim é que aquele músico ao apresentar como sua, ao público de Paris, a composição “Le Boeuf Sur le Toit”, ou seja, O “Boi no Telhado”, nada mais fazia do que uma colagem que incluía a música título de autoria dos brasileiros José Monteiro e Zé Boiadeiro, com 17 compassos, “Apanhei-te Cavaquinho”, de Ernesto Nazaré, com 9 compassos, “Que Sôdade” (a conhecida canção “Jacaré comprou cadeira e não tem bunda para sentar”), e o “O Matuto,” ambas de Marcello Tupinambá, com 17 e 12 compassos respectivamente.

Esse fato provavelmente não ocorreria nos dias de hoje, dada a facilidade de comunicações, mas na década de 20 o plagiário francês recebeu as glórias de um trabalho que jamais lhe pertenceu.

Apesar da clara falta de rigor exibida por todos os críticos acima, a dúvida permanece: teria Milhaud pagado tributo à música brasileira, ou foi ele meramente um arremedador? Seria Le Boeuf sur le Toit uma colagem maravilhosamente inventiva possuindo valores originais e méritos próprios ou seria apenas um potpourri de músicas roubadas? Poderia Milhaud ter feito a mesma coisa usando outras fontes?

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Baptista Siqueira sobre Milhaud

 

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